A cada eleição, o Brasil reafirma uma contradição silenciosa: as mulheres são maioria da população, mas continuam sendo minoria nas disputas pelo poder. Em 2026, 34,9% das candidaturas pertencem a elas — um avanço de apenas 1,1 ponto percentual em quatro anos, suficiente para revelar uma estagnação que já dura quatro pleitos consecutivos. O que os números escondem é mais revelador do que o que mostram: mulheres aparecem como vice e suplente, raramente como cabeça de chapa, enquanto os partidos transformam o piso legal de 30% em teto prático. A paridade, no Brasil, ainda é uma promessa adiada.
Candidaturas femininas estacionam em um terço há quatro eleições nacionais
Para uma mulher sentar, um homem vai precisar levantar
Por que essa estagnação em um terço persiste há quatro eleições? Parece que nada mudou.
Porque os partidos tratam o mínimo legal como máximo aceitável. A lei diz 30%, eles cumprem 30% e param ali. Não há pressão real para ir além.
Mas as mulheres são maioria da população. Não deveriam estar mais representadas?
Deveriam, claro. Mas representação não é automática. Exige que homens abram mão de espaço, e eles controlam os partidos. Para uma mulher entrar, um homem sai.
E quanto às mulheres que querem concorrer? Elas existem?
Existem. 47% das filiadas em partidos são mulheres. O problema não é falta de interesse. É que os partidos não investem nelas como investem em homens.
Então é uma questão de vontade política?
Exatamente. E de violência política de gênero, que afasta mulheres da disputa mais do que afasta homens. É um sistema que desestimula.
E na presidência? Duas mulheres entre treze candidatos parece muito pouco.
É histórico. Será a primeira eleição presidencial deste século sem mulheres nas chapas que realmente competem. As duas que se registraram estão em partidos pequenos.
O que precisaria mudar?
Reserva de cadeiras, não só de candidaturas. Outros países na América Latina já fazem isso. Aqui ainda se discute se 30% é suficiente.
El Pulso
- Quatro eleições seguidas com a proporção de candidatas presas em torno de um terço do total — o crescimento prometido pela lei de 2009 simplesmente parou.
- Das 13 candidaturas presidenciais, apenas duas são de mulheres, tornando 2026 a primeira eleição deste século sem nenhuma mulher em chapa competitiva ao Palácio do Planalto.
- Mulheres são 42,6% dos registros para vice-governador, mas apenas 16,8% para governador — a posição de poder real continua sendo reservada aos homens.
- Especialistas denunciam que partidos usam o mínimo legal como máximo prático, distribuem mal os recursos do fundo partidário e ignoram que 47% de seus próprios filiados são mulheres.
- A violência política de gênero e a falta de investimento real das legendas afastam candidatas em potencial antes mesmo de chegarem às urnas.
A cada eleição, o Brasil reafirma uma contradição silenciosa: as mulheres são maioria da população, mas continuam sendo minoria nas disputas pelo poder. Em 2026, 34,9% das candidaturas pertencem a elas — um avanço de apenas 1,1 ponto percentual em quatro anos, suficiente para revelar uma estagnação que já dura quatro pleitos consecutivos. O que os números escondem é mais revelador do que o que mostram: mulheres aparecem como vice e suplente, raramente como cabeça de chapa, enquanto os partidos transformam o piso legal de 30% em teto prático. A paridade, no Brasil, ainda é uma promessa adiada.
Nas eleições de 2026, as mulheres representam 34,9% das candidaturas — uma alta de apenas 1,1 ponto percentual em relação a 2022. O dado parece modesto, mas carrega um peso maior: há quatro pleitos consecutivos, a proporção de candidatas permanece estagnada em torno de uma para cada três candidatos. Num país onde as mulheres são 51,5% da população, a distância entre presença social e representação política segue sendo enorme.
Do total de 20.530 candidatos registrados na Justiça Eleitoral — já uma queda histórica de 30% em relação a 2022 —, 7.156 são mulheres. Mas onde elas aparecem importa tanto quanto quantas são: mulheres ocupam 42,6% dos registros para vice-governador e apenas 16,8% para governador. Na corrida presidencial, apenas duas das 13 candidaturas são femininas, nenhuma delas em chapa com chances reais de vitória. Será a primeira eleição presidencial deste século sem mulheres nas disputas competitivas.
Para especialistas em direito eleitoral, a raiz do problema está nos próprios partidos. A lei de 2009 estabeleceu um piso de 30% de candidaturas para mulheres, mas as legendas o tratam como teto — e não como ponto de partida. A distribuição de recursos do fundo partidário e do tempo de TV raramente favorece candidatas. A violência política de gênero afasta mais mulheres do que homens. E o argumento de que faltam mulheres interessadas em concorrer cai por terra diante de um dado simples: elas são 47% das filiadas nos partidos brasileiros.
A sub-representação não se limita ao gênero. Candidatos pretos e pardos somam 49,8% das candidaturas, abaixo dos 55,6% que representam na população. A idade média dos postulantes gira em torno dos 45 a 49 anos, e 58,6% têm ensino superior completo. O cenário partidário também encolheu: trinta partidos disputarão 2026, dois a menos que no pleito anterior, com quedas expressivas nas candidaturas para deputado federal e estadual — a maior retração desde 1994.
As mulheres representam pouco mais de um terço das candidaturas nas eleições de 2026. O número é 34,9%, uma subida tímida em relação aos 33,8% de quatro anos atrás. Essa pequena variação marca um ponto de estagnação preocupante: há quatro eleições nacionais consecutivas, a proporção de candidatas permanece presa em torno de uma mulher para cada três candidatos no total. O Brasil segue longe da paridade, apesar de as mulheres serem 51,5% da população segundo o IBGE.
Este ano, 20.530 candidatos se registraram na Justiça Eleitoral — um recuo histórico de 30% em relação a 2022, quando havia 28.200. Desse total, 13.374 são homens e 7.156 são mulheres. Os números refletem pedidos de registro antes da aprovação final, embora pequenas alterações ainda possam ocorrer por desistências, falecimentos ou decisões judiciais. A análise considera dados do Tribunal Superior Eleitoral atualizados até terça-feira, 18 de agosto.
O avanço feminino na política começou em 2009, quando uma lei estabeleceu a reserva de 30% de candidaturas, financiamento e propaganda para mulheres. Desde então, a participação cresceu. Mas nas últimas três eleições, o crescimento travou. Mais revelador ainda é onde as mulheres aparecem: elas são 42,6% dos registros para vice-governador, mas apenas 16,8% para governador. Na disputa presidencial, apenas duas das 13 candidaturas são de mulheres — Samara Martins, pela UP, e Clariana Barão, pelo DC. Será a primeira eleição presidencial deste século sem mulheres nas chapas competitivas.
Para Bianca Gonçalves de Silva, advogada especializada em direito eleitoral, a estagnação tem raízes profundas. Os partidos, diz ela, tratam o piso de 30% como um teto, não como um ponto de partida. Há também a violência política de gênero, que afasta mais mulheres da disputa do que homens. E há dificuldade de fiscalizar como os recursos do fundo partidário e do tempo de TV são distribuídos. "No Brasil, a gente ainda discute uma reserva de candidaturas, enquanto em outros países, especialmente na América Latina, discute-se a reserva de cadeiras", observa. "Para uma mulher sentar na Câmara, um homem vai precisar levantar, e eles são maioria, não querem isso."
Os partidos frequentemente alegam não encontrar mulheres dispostas a concorrer. Mas Silva aponta a contradição: mulheres são 52% da população e 47% das filiadas em partidos políticos. "Se as mulheres não se interessassem por política, elas não seriam filiadas", diz. O problema não é falta de interesse, mas falta de investimento real das legendas em candidatas.
Outros grupos também permanecem sub-representados. Candidatos pretos e pardos somam 49,8% das candidaturas, abaixo dos 50,3% de 2022, apesar de representarem 55,6% da população. A lei exige que partidos destinem ao menos 30% das vagas e recursos para candidatos negros, mas a disparidade entre cabeças de chapa e vices persiste. Pardos são 36,1% dos registros (7.418 candidatos) e pretos, 13,6% (2.800 candidatos).
A idade média dos candidatos concentra-se entre 45 e 49 anos, com 3.547 postulantes. O mais velho é Almir Rangel, com 92 anos, candidato a deputado estadual pelo Rio de Janeiro. A mais jovem é Carol Medeiros, com 19 anos, também candidata a deputado estadual, no Maranhão. Em escolaridade, 58,6% informaram ensino superior completo. Entre as profissões mais comuns estão empresários (12,5%), advogados (8,2%), deputados (4,3%), vereadores (4%) e policiais militares (2,8%).
O cenário partidário também mudou. Trinta partidos concorrerão em 2026, dois a menos que em 2022. O PL e o MDB lideram em número de candidatos, com 1.628 e 1.391 respectivamente. O PRTB e o PCB têm a menor representação, com 10 e 23 candidatos. O maior recuo ocorreu nas candidaturas legislativas: deputados federais caíram de 10.630 para 7.636, e deputados estaduais de 17.347 para 11.523. É a queda mais acentuada desde 1994, primeiro ano com dados disponíveis no TSE.
Citas Notables
Para uma mulher sentar na Câmara, um homem vai precisar levantar, e eles são maioria, não querem isso— Bianca Gonçalves de Silva, advogada eleitoralista
Os partidos falam muito que não acham mulheres para concorrer, mas o que vemos na prática é que elas são 52% da população e 47% das filiadas em partidos— Bianca Gonçalves de Silva