Candidatos ao governo do RS apresentam planos para enfrentar enchentes e resiliência climática

A enchente de 2024 afetou 2,4 milhões de pessoas no Rio Grande do Sul, representando mais de 20% da população gaúcha, com impactos em habitação, infraestrutura e segurança.
A proteção contra enchentes será uma condição indispensável para todas as demais políticas
Declaração central do plano de Marcelo Maranata que resume a prioridade absoluta que a resiliência climática deve ter no próximo governo.
Mark

Por que as enchentes se tornaram tão centrais nesta eleição? Não havia preocupações climáticas antes?

Mimi

Havia, mas 2024 foi diferente. Não foi uma enchente — foi a maior tragédia climática da história recente do estado. Quando mais de 20% da população é afetada diretamente, isso não é abstrato. As pessoas viram suas casas desaparecerem. Agora, quando votam, aquela memória está fresca.

Mark

Os candidatos parecem concordar em um ponto: sair da resposta emergencial. Por que isso importa?

Mimi

Porque resposta emergencial é apagar incêndio. Você reage depois que a água já invadiu a cidade. Gestão permanente significa monitorar, prever, preparar. É a diferença entre salvar pessoas e evitar que precisem ser salvas.

Mark

Mas qual desses planos é mais realista? Todos parecem ambiciosos.

Mimi

Realismo é difícil de medir sem ver execução. Mas há diferenças. Alguns focam em tecnologia — radares, sensores, previsão. Outros em obras físicas — diques, drenagem. Outros ainda em ecossistemas. Provavelmente a resposta real exige tudo isso junto.

Mark

E o reassentamento? Todos prometem, mas como você move 2,4 milhões de pessoas?

Mimi

Exatamente. Nenhum plano responde isso com clareza. Reassentar famílias é caro, complexo, politicamente difícil. É fácil prometer em campanha. A verdade é que ninguém sabe ainda como fazer isso em escala.

Mark

Qual é o risco se nenhum desses planos funcionar?

Mimi

O mesmo que em 2024 acontece de novo. E talvez pior, porque o El Niño continua intenso. As pessoas não vão aceitar uma segunda tragédia sem respostas.

Mark

Então essa eleição é realmente sobre confiança?

Mimi

É sobre confiança e sobre qual visão do futuro você acredita. Você quer tecnologia? Infraestrutura? Ecossistemas? Governança compartilhada? Cada candidato oferece uma resposta diferente. O voto é sobre qual delas você acha que vai funcionar.

  • 2,4 milhões de pessoas afetadas pela enchente de 2024 no RS (mais de 20% da população)
  • Um terço do eleitorado gaúcho aponta enchentes como principal problema do estado
  • Quatro principais candidatos: Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL), Gabriel Souza (MDB) e Marcelo Maranata (PSDB)
  • 497 municípios gaúchos precisam de mapeamento de risco de inundações e deslizamentos
  • El Niño voltou a atuar com intensidade na América do Sul em 2026

Enchentes são a principal preocupação eleitoral no RS, com um terço dos eleitores apontando como principal problema após as cheias de 2024 que afetaram mais de 20% da população gaúcha. Os candidatos Juliana Brizola, Luciano Zucco, Gabriel Souza e Marcelo Maranata propõem transição de resposta emergencial para gestão permanente de riscos, com foco em infraestrutura, monitoramento e reassentamento.

Os quatro principais candidatos ao governo do Rio Grande do Sul apresentam propostas para enfrentar enchentes e resiliência climática, tema que preocupa um terço do eleitorado após tragédia de 2024 que afetou 2,4 milhões de pessoas.

Drones sobrevoavam Canoas em maio de 2024, procurando por moradores isolados nas águas que tomavam conta do Rio Grande do Sul. Aquela tragédia climática, a maior da história recente do estado, atingiu 2,4 milhões de pessoas — mais de um quinto de toda a população gaúcha. Dois anos depois, quando o El Niño voltou a atuar com intensidade sobre a América do Sul, aquele episódio ainda pesa nas mentes dos eleitores. Pesquisas recentes mostram que um terço do eleitorado gaúcho aponta as enchentes como o principal problema do estado. Não é coincidência que a primeira eleição estadual após o desastre tenha colocado a resiliência climática e a proteção contra inundações no centro do debate.

Os quatro principais candidatos ao Palácio Piratini — Juliana Brizola pelo PDT e Luciano Zucco pelo PL, tecnicamente empatados na última pesquisa Quaest, seguidos por Gabriel Souza do MDB e Marcelo Maranata do PSDB — apresentaram planos que compartilham uma premissa comum: é preciso sair da lógica de resposta emergencial e entrar em uma gestão permanente e preditiva de riscos. Mas as ênfases e os caminhos diferem.

Brizola propõe uma transformação radical na Defesa Civil, passando de reações de crise para monitoramento contínuo. Seu plano inclui um Sistema Integrado de Alerta Precoce nas bacias hidrográficas críticas, expansão da rede telemétrica para secas e cheias, e mapeamento de risco em todos os 497 municípios gaúchos. Ela promete formar brigadas comunitárias de Defesa Civil e criar uma rede estadual de pesquisa sobre eventos extremos. Na infraestrutura urbana, defende soluções de drenagem sustentável — parques lineares, bacias de retenção, jardins de chuva, pisos permeáveis. Para as famílias, promete reassentamento seguro com moradia digna em áreas fora das zonas de risco, além de um cadastro georreferenciado das ocupações irregulares. Também quer blindar a rede elétrica com investimentos em redes subterrâneas em áreas críticas.

Zucco, deputado federal, dedica um capítulo inteiro de seu plano à "Defesa Civil e Resiliência Climática". Sua abordagem enfatiza a profissionalização permanente da Defesa Civil, com equipes técnicas, coordenações regionais e operação ininterrupta. Propõe integrar radares, estações hidrológicas, meteorológicas e sensores geotécnicos em um sistema de observação contínuo, transformando dados brutos em previsões territorializadas que permitam decisões antecipadas de evacuação e proteção. Quer atualizar continuamente os mapas de risco e definir uma carteira de obras prioritárias por bacia hidrográfica, priorizando a recuperação de diques, bombas e sistemas de drenagem. Um ponto central em seu plano: não reconstruir em áreas de risco, aplicando critérios técnicos rigorosos ao reassentamento.

Souza, pelo MDB, trata enchentes e resiliência climática como prioridades centrais, mas com uma visão mais ampla que integra habitação, infraestrutura, saúde, agricultura e pecuária. Propõe ampliar investimentos através do Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos (FIRECE). Quer fortalecer a gestão descentralizada dos recursos hídricos por meio dos Comitês de Bacia Hidrográfica e implementar um Plano Estadual de Segurança Hídrica que articule reservação, armazenamento e distribuição eficiente de água. Um diferencial em seu plano é o foco em recuperação de microbacias, conservação do solo e valorização dos serviços ecossistêmicos — reconhecendo que a segurança hídrica depende tanto de infraestrutura quanto da capacidade dos ecossistemas de infiltrar e regular fluxos de água. Promete um Programa Produtor de Água que incentive práticas de conservação entre produtores rurais e um programa permanente de reassentamento chamado "Reassentar RS".

Maranata, do PSDB, é mais direto: declara que "a proteção contra enchentes será uma condição indispensável para todas as demais políticas". Seu plano promete prioridade técnica imediata na infraestrutura de contenção, especialmente na Região Metropolitana. Quer atualizar estudos das cinco principais bacias relacionadas à proteção metropolitana nos primeiros 100 dias de governo, recuperar diques, comportas e sistemas de drenagem, e criar uma autoridade técnica de resiliência metropolitana com governança compartilhada. Propõe planos de contingência específicos para hospitais, escolas, abrigos e infraestrutura crítica de energia, saneamento e telecomunicações. Também quer transformar o Plano Rio Grande em política permanente e monitorada, com diagnóstico, projetos-piloto, expansão progressiva e avaliação independente. Sua estratégia "Escolas Resilientes" inclui mapeamento estrutural e climático de todas as unidades escolares.

O que une esses planos é o reconhecimento de que a resposta emergencial não é suficiente — que o estado precisa de sistemas permanentes de monitoramento, previsão e prevenção. O que os diferencia é o grau de ênfase em cada frente: Brizola e Zucco focam fortemente em sistemas de alerta e monitoramento; Souza amplia a lente para incluir segurança hídrica e ecossistemas; Maranata enfatiza obras estruturais imediatas e governança compartilhada. Todos prometem reassentamento seguro para famílias em áreas de risco, mas nenhum detalha como financiará essas operações em larga escala. A eleição de 2026 será, em grande medida, um julgamento sobre qual dessas visões os gaúchos acreditam que pode evitar que 2,4 milhões de pessoas sofram novamente.

A proteção contra enchentes será uma condição indispensável para todas as demais políticas
— Marcelo Maranata (PSDB)
Transição de uma cultura de resposta emergencial para uma política permanente de prevenção
— Luciano Zucco (PL)
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