Em um mundo onde as alianças se redesenham e as potências disputam influência, o Brasil de 2026 enfrenta uma pergunta que vai além das urnas: qual é o seu lugar na ordem global? Os cinco principais candidatos à presidência convergem no diagnóstico — o país precisa de novos mercados e parcerias mais amplas — mas divergem profundamente sobre o caminho, revelando visões de mundo que refletem tensões históricas entre autonomia e integração, entre o Sul Global e o Ocidente desenvolvido. A escolha que os eleitores fizerem em outubro não será apenas sobre economia ou comércio, mas sobre a identidade
Candidatos a presidente divergem sobre Brics e aproximação com Ásia e EUA
O Brasil quer liderar entre países em desenvolvimento ou ser aceito pelos ricos?
Por que o Brics virou tão central nessa campanha? Parece que é o ponto que mais divide os candidatos.
Porque o Brics representa uma escolha de identidade. Não é só um bloco comercial. É a pergunta: o Brasil quer liderar entre países em desenvolvimento, ou quer ser aceito pelos ricos?
E a China? Ninguém fala dela diretamente, mas está em tudo.
Exatamente. Renan Santos é o único que nomeia: diz que quer relação pragmática com o Brics mas sem subordinação à China. Os outros contornam. Lula não quer sair. Zema quer sair. Mas ninguém quer parecer anti-China ou pró-China — é politicamente tóxico.
Flávio e Zema querem OCDE. O que muda se o Brasil entra lá?
Muda tudo simbolicamente. OCDE é o clube dos ricos. Significa dizer: somos desenvolvidos, queremos estar com vocês. Mas é também um compromisso com regras, transparência, padrões que nem todo mundo quer abraçar.
E o Mercosul? Todos defendem, mas Zema fala em flexibilizar.
Porque o Mercosul está preso. Argentina está quebrada, Paraguai e Uruguai têm pouca força. Flexibilizar significa poder fazer acordos bilaterais sem precisar de consenso. É pragmatismo, mas também é admitir que o bloco não funciona como deveria.
Qual desses projetos é mais realista?
Depende do que você chama de realista. Lula aprofunda o que já existe. Zema muda de time. Caiado tenta ganhar em todas as frentes. Nenhum é impossível, mas cada um tem custos políticos diferentes.
El Pulso
- O Brasil chega a 2026 com um modelo de inserção internacional que os próprios candidatos reconhecem como esgotado, criando urgência para um reposicionamento estratégico.
- A disputa entre permanecer no Brics ou aderir à OCDE expõe uma fratura ideológica profunda: de um lado, Lula aposta no Sul Global; do outro, Zema e Flávio Bolsonaro miram o Ocidente desenvolvido.
- Renan Santos tenta navegar entre os extremos propondo um Brics sem subordinação à China, enquanto Caiado aposta na complexidade tecnológica das exportações e no Indo-Pacífico como saída.
- Todos invocam soberania nacional, mas o conceito se fragmenta: para uns, soberania é autonomia dentro de blocos emergentes; para outros, é liberdade de se aproximar dos mercados ricos sem alinhamentos automáticos.
- O acordo Mercosul-União Europeia, a diversificação para Ásia e África e a redução de dependências tecnológicas emergem como pontos de convergência que sinalizam um consenso mínimo possível, independentemente de quem vencer.
Em um mundo onde as alianças se redesenham e as potências disputam influência, o Brasil de 2026 enfrenta uma pergunta que vai além das urnas: qual é o seu lugar na ordem global? Os cinco principais candidatos à presidência convergem no diagnóstico — o país precisa de novos mercados e parcerias mais amplas — mas divergem profundamente sobre o caminho, revelando visões de mundo que refletem tensões históricas entre autonomia e integração, entre o Sul Global e o Ocidente desenvolvido. A escolha que os eleitores fizerem em outubro não será apenas sobre economia ou comércio, mas sobre a identidade internacional de uma nação em busca de si mesma.
Os cinco candidatos presidenciais mais competitivos de 2026 apresentaram planos de governo com capítulos dedicados à política externa, e o que emerge é um Brasil em busca de reposicionamento global — com consensos surpreendentes e fraturas profundas sobre como chegar lá.
Todos concordam nos fundamentos: ampliar parcerias comerciais, abrir novos mercados, fortalecer o Mercosul e diversificar para Ásia e África. Essa convergência sugere algo que transcende a campanha — uma percepção compartilhada de que o modelo atual de inserção internacional chegou aos seus limites.
Mas é nas divergências que a disputa ganha corpo. Lula quer aprofundar o Brics e o G20, vendo nesses blocos a chance de fortalecer a voz dos países em desenvolvimento e reformar instituições como a ONU e a OMC. Zema toma o caminho oposto: propõe a saída do Brics e a adesão à OCDE, sinalizando reorientação em direção ao mundo desenvolvido. Renan Santos busca um meio-termo — uma relação pragmática com o Brics que reduza a subordinação à China.
Flávio Bolsonaro concentra-se em abertura comercial e evitar dependências em áreas críticas, com adesão à OCDE e internacionalização de pequenas e médias empresas. Caiado prioriza atração de investimentos estrangeiros, elevação da complexidade tecnológica das exportações e consolidação do acordo Mercosul-União Europeia.
Renan Santos adiciona dimensões que os outros pouco enfatizam: mediação de conflitos na África, parcerias com países da Asean como Vietnã e Filipinas, fortalecimento de laços com nações de língua portuguesa e redução da dependência do dólar.
Todos invocam soberania nacional, mas a interpretam de formas distintas — para alguns, ela significa autonomia dentro de blocos emergentes; para outros, liberdade de se aproximar do Ocidente sem alinhamentos automáticos. O que está em jogo é a pergunta fundamental sobre onde o Brasil se vê nos próximos anos: como potência do Sul Global ou como economia aberta integrada aos mercados desenvolvidos. A resposta chegará em outubro.
Os cinco candidatos presidenciais mais competitivos nas pesquisas de 2026 entregaram seus planos de governo com capítulos dedicados à política externa, e o que emerge é um retrato de um Brasil em busca de reposicionamento no tabuleiro global — com consensos surpreendentes e fraturas profundas sobre como chegar lá.
Todos os cinco — Lula pelo PT, Flávio Bolsonaro pelo PL, Ronaldo Caiado pela PSD, Renan Santos pela Missão e Romeu Zema pelo Novo — concordam em pontos fundamentais: o país precisa ampliar suas parcerias comerciais, abrir novos mercados para suas exportações e fortalecer o Mercosul. Nenhum deles discorda que a diversificação é urgente, que a Ásia e a África representam oportunidades, que o Brasil não pode ficar preso a uma única estratégia. Essa convergência sugere algo que transcende a campanha: uma percepção compartilhada de que o modelo atual de inserção internacional chegou a seus limites.
Mas é nas divergências que a campanha ganha corpo. Lula defende que o Brasil aprofunde suas relações com o Brics e o G20, vendo nesses blocos a chance de fortalecer a voz dos países em desenvolvimento e reformar instituições globais como o Conselho de Segurança da ONU e a OMC. Para ele, a estratégia passa por diversificar parcerias mantendo compromissos com esses agrupamentos. Romeu Zema, do Novo, toma o caminho oposto: quer que o Brasil saia do Brics e aderira à OCDE, sinalizando uma reorientação em direção aos países desenvolvidos e a uma maior abertura comercial. Renan Santos, pela Missão, busca um meio termo — propõe uma relação pragmática com o Brics que reduza a subordinação à China, principal parceira comercial do Brasil.
Flávio Bolsonaro concentra-se em abertura comercial de bens de capital, tecnologia e insumos, com ênfase em evitar dependências excessivas em áreas críticas. Sua proposta inclui adesão à OCDE e internacionalização de pequenas e médias empresas. Ronaldo Caiado, pela PSD, prioriza a atração de investimentos estrangeiros e a elevação da complexidade tecnológica das exportações, com foco especial nos mercados da Ásia, África e Indo-Pacífico, além de consolidar o acordo entre Mercosul e União Europeia.
Renan Santos adiciona dimensões que os outros não enfatizam tanto: propõe que o Brasil atue como mediador de conflitos na África, estabeleça parcerias com países da Asean — particularmente Vietnã e Filipinas — e fortaleça laços com nações de língua portuguesa como Portugal, Angola e Moçambique. Também fala em reduzir a dependência do dólar, uma proposta que toca em soberania monetária.
Todos os candidatos invocam a soberania nacional em seus programas, defendendo que o Brasil não tenha alinhamento automático com potências nem se deixe guiar por ideologias. É uma linguagem que ecoa preocupações reais: a de um país que não quer ser vassalo de ninguém, seja Washington, Pequim ou Moscou. Mas a forma como cada um interpreta essa soberania revela visões de mundo distintas — para alguns, ela significa autonomia dentro de blocos como Brics; para outros, significa liberdade para se aproximar do Ocidente desenvolvido.
O que está em jogo é mais do que comércio. É a pergunta fundamental sobre onde o Brasil se vê nos próximos anos: como potência emergente em aliança com outros países do Sul Global, ou como economia aberta que busca integração com os mercados desenvolvidos. Os candidatos oferecem respostas diferentes, e a escolha que os eleitores fizerem em outubro sinalizará qual dessas visões prevalecerá.
Citas Notables
Lula defende que o Brasil aprofunde as relações com o Brics e o G20, vendo nesses blocos a chance de fortalecer a voz dos países em desenvolvimento— Plano de governo de Lula (PT)
Romeu Zema quer que o Brasil saia do Brics e aderira à OCDE, sinalizando uma reorientação em direção aos países desenvolvidos— Plano de governo de Romeu Zema (Novo)