Em Cascais, a inauguração de uma escola secundária — há meio século instalada em estruturas provisórias — tornou-se palco de uma tensão mais ampla sobre o uso de fundos públicos europeus: 175 mil euros do PRR foram canalizados para dois eventos comemorativos com DJ, performances e ecrãs gigantes, numa cerimónia que reuniu o Presidente da República e o primeiro-ministro. O episódio convida a refletir sobre onde termina a comunicação legítima de um investimento coletivo e onde começa o excesso que contradiz o espírito da austeridade que os próprios fundos visam superar.
Câmara de Cascais gasta 175 mil euros do PRR em inauguração com Seguro e Montenegro
Celebramos a persistência, a resiliência e uma conquista
Porque é que uma inauguração de escola custa 175 mil euros? Isso parece muito.
A câmara diz que o PRR exige eventos com impacto mediático para projetos acima de 10 milhões. A escola recebeu 24 milhões em financiamento, então enquadra-se nessa regra.
Mas o guia do PRR não define limites ao valor. Então tecnicamente podia ter custado muito mais. A questão é: era necessário gastar isto?
O que incluía o evento, afinal?
Decoração, DJ, performances musicais, três ecrãs grandes, uma passarela, segurança durante dez dias de montagem. Mais de mil pessoas no primeiro evento, mais de 600 na inauguração oficial.
Tudo bem, mas a câmara tinha orçado 227 mil euros com IVA. A empresa vencedora apresentou 175 mil, que é 23% mais baixo. Portanto, pelo menos conseguiram poupar.
E o Governo? Sabia quanto custava?
Não respondeu. Nem o gabinete de Montenegro nem a Presidência comentaram o valor.
Isso é importante. Seguro e Montenegro estiveram lá, mas ninguém do Governo quis dizer se achava bem ou mal. É um silêncio que fala.
Os críticos têm razão em questionar isto?
Rui Rocha e João Maria Jonet dizem que é despesismo num contexto de crise de habitação e custo de vida. Jonet aponta que a câmara gastou 700 mil euros em dois fins de semana — este festival e a inauguração.
Mas há uma diferença entre dizer que o gasto foi alto e dizer que foi ilegal ou inadequado. A câmara cumpriu as regras do PRR. A questão é se as regras são as certas.
The Pulse
- Uma escola que esperou 50 anos por instalações definitivas foi finalmente inaugurada — mas o custo da festa gerou mais ruído do que a conquista em si.
- 175 mil euros de fundos europeus de recuperação foram gastos em decoração, DJ, artistas e infraestruturas efémeras para dois eventos de inauguração.
- A autarquia de Cascais defende-se com o Guia de Comunicação do PRR, que exige visibilidade mediática para projetos acima de 10 milhões — mas não fixa tetos de despesa.
- Críticos, incluindo um vereador independente e o ex-líder da Iniciativa Liberal, denunciam uma 'cultura de despesismo' incompatível com a crise de habitação e custo de vida.
- O Governo mantém silêncio: nem o gabinete do primeiro-ministro nem a Presidência da República comentaram a adequação do valor gasto.
Em Cascais, a inauguração de uma escola secundária — há meio século instalada em estruturas provisórias — tornou-se palco de uma tensão mais ampla sobre o uso de fundos públicos europeus: 175 mil euros do PRR foram canalizados para dois eventos comemorativos com DJ, performances e ecrãs gigantes, numa cerimónia que reuniu o Presidente da República e o primeiro-ministro. O episódio convida a refletir sobre onde termina a comunicação legítima de um investimento coletivo e onde começa o excesso que contradiz o espírito da austeridade que os próprios fundos visam superar.
A Câmara de Cascais, liderada pelo PSD, gastou 175 mil euros do Plano de Recuperação e Resiliência em dois eventos para inaugurar a Escola Secundária de Cascais — uma escola que funcionou em instalações provisórias durante cinco décadas. O primeiro foi um 'open day' a 5 de setembro, com mais de mil participantes da comunidade local; o segundo, a inauguração oficial desta segunda-feira, contou com a presença do primeiro-ministro Luís Montenegro e do Presidente da República António José Seguro.
A autarquia justifica o investimento com base no Guia de Comunicação do PRR, que prevê eventos de impacto mediático para operações estratégicas financiadas com mais de 10 milhões de euros. A escola recebeu cerca de 24 milhões do PRR, num investimento total superior a 32 milhões, enquadrando-se nessa categoria. O guia, porém, não estabelece qualquer limite ao valor a gastar. O contrato foi adjudicado à empresa Vertente Versátil por cerca de 143 mil euros sem IVA — 23% abaixo do preço base definido pela câmara — e incluía decoração, seis horas de DJ, performances musicais com três artistas, ecrãs gigantes e uma passarela para a cerimónia oficial.
A reação política foi imediata. O vereador independente João Maria Jonet falou numa 'cultura de despesismo', lembrando que o presidente da câmara pode adjudicar até 700 mil euros sem aprovação adicional e que só naquele fim de semana foram gastos exatamente esse valor entre a inauguração e um festival pela paz. Rui Rocha, ex-líder da Iniciativa Liberal, questionou nas redes sociais se Montenegro e Seguro sabiam do custo e se o consideravam aceitável, num país onde há salas de aula com infiltrações e faltam espaços cobertos para crianças.
Na cerimónia, o presidente da câmara Nuno Piteira Lopes celebrou 'a persistência e a resiliência' dos cascalenses. Seguro aproveitou para pedir mais ambição ao Governo em educação; Montenegro saudou os estudantes que iniciavam o secundário. A obra, porém, ainda não está concluída — a demolição das antigas instalações e a construção de um pavilhão desportivo estão previstas para 2027. O Governo não respondeu sobre a adequação do gasto, e a questão permanece em aberto.
A Câmara de Cascais gastou 175 mil euros do Plano de Recuperação e Resiliência em dois eventos para inaugurar a Escola Secundária de Cascais, incluindo uma cerimónia aberta à comunidade no início de setembro e a inauguração oficial desta segunda-feira, que contou com a presença do primeiro-ministro Luís Montenegro e do Presidente da República António José Seguro.
A autarquia, liderada pelo PSD, justifica o investimento com base nas orientações do Guia de Comunicação e Informação para Beneficiários do PRR, que prevê que operações de importância estratégica e intervenções financiadas com custo total superior a 10 milhões de euros devem incluir "um evento ou uma atividade de comunicação com relevante impacto mediático". A Escola Secundária de Cascais recebeu cerca de 24 milhões de euros em financiamento do PRR, num investimento total que ultrapassou os 32 milhões de euros, o que enquadra o projeto nesta categoria. O guia, porém, não estabelece limites ao valor que pode ser gasto nestes eventos de comunicação.
O primeiro momento foi um "open day" a 5 de setembro, descrito como uma cerimónia para a comunidade escolar e local onde a escola abriu as portas e participaram mais de mil pessoas. O segundo foi a inauguração oficial, com mais de 600 participantes, que marcou o início do ano letivo no ensino secundário. Para conceber e executar os dois eventos, a câmara abriu um procedimento de concurso público ao qual concorreram três empresas. A vencedora foi a Vertente Versátil, que apresentou o valor mais baixo: 142.693,45 euros (175.512,94 euros com IVA). O preço base definido pela autarquia era superior a 185.315,60 euros (227.938,19 euros com IVA), o que significa que a adjudicação ficou 23% abaixo do orçamento inicial.
O caderno de encargos incluía uma equipa de quatro pessoas para decoração, seis horas de DJ, uma performance musical com três artistas e um coreógrafo, três ecrãs (o maior com 56 metros quadrados), uma passarela para a cerimónia oficial e segurança para o material durante os dez dias de montagem e desmontagem das infraestruturas. O gabinete do primeiro-ministro não respondeu às questões do Observador sobre se tinha conhecimento do valor gasto ou se estava confortável com a forma como foi despendido. A Presidência da República recusou fazer comentários.
A reação política foi crítica. O vereador independente João Maria Jonet caracterizou o caso como reflexo de uma "cultura de despesismo" do executivo, apontando que em Cascais o presidente pode adjudicar valores até 700 mil euros sem aprovação adicional. "Este fim de semana foram exatamente 700 mil euros gastos entre um festival pela paz e a inauguração de uma escola", afirmou, questionando a adequação destes gastos num contexto de crise de custo de vida e habitação. O ex-líder da Iniciativa Liberal, Rui Rocha, reagiu nas redes sociais perguntando se Seguro e Montenegro estavam cientes do custo e se consideravam aceitável gastar 200 mil euros (o valor final foi 175 mil) na inauguração de uma escola, quando existem salas que chove dentro e faltam espaços cobertos para as crianças.
Durante a cerimónia, o presidente Nuno Piteira Lopes sublinhou que a escola funcionava em instalações provisórias há 50 anos. "Celebramos a persistência, a resiliência e uma conquista que é de todos os cascalenses", disse. O Presidente da República também evocou o longo percurso, recordando que desde 1975 gerações de alunos cresceram entre aquelas paredes e que a escola nasceu como solução provisória. A inauguração ocorreu com apenas parte da obra concluída; está prevista a demolição das antigas instalações e a construção de um novo pavilhão desportivo até ao final de 2027.
António José Seguro aproveitou o evento para pedir "ambição" ao Governo em matéria de educação, referindo os resultados PISA de 2025. Luís Montenegro, por sua vez, saudou a comunidade educativa de Cascais e todos os estudantes portugueses que iniciavam o ensino secundário naquele dia, desejando que encontrassem naquela nova escola os instrumentos para seguirem as suas vidas. O caso permanece sem resposta clara do Governo sobre a adequação do gasto em fundos públicos destinados à recuperação e resiliência.
Notable Quotes
Em Cascais, com a convivência de PS e Chega, depende apenas do Presidente adjudicar valores até 700 mil euros. Este fim de semana foram exatamente 700 mil euros gastos entre um festival pela paz e a inauguração de uma escola.— João Maria Jonet, vereador independente
Queria perguntar-lhes diretamente na cara se acham bem que se gastem 200 mil euros para a inauguração de uma escola. Se acham que isto é aceitável, se isto é respeito pelo dinheiro dos contribuintes.— Rui Rocha, ex-líder da Iniciativa Liberal