Câmara de Cascais gasta 175 mil euros do PRR em inauguração com Seguro e Montenegro

Celebramos a persistência, a resiliência e uma conquista
O presidente de Cascais sobre a inauguração de uma escola que esperava há 50 anos.
Mark

Porque é que uma inauguração de escola custa 175 mil euros? Isso parece muito.

Mimi

A câmara diz que o PRR exige eventos com impacto mediático para projetos acima de 10 milhões. A escola recebeu 24 milhões em financiamento, então enquadra-se nessa regra.

Luke

Mas o guia do PRR não define limites ao valor. Então tecnicamente podia ter custado muito mais. A questão é: era necessário gastar isto?

Mark

O que incluía o evento, afinal?

Mimi

Decoração, DJ, performances musicais, três ecrãs grandes, uma passarela, segurança durante dez dias de montagem. Mais de mil pessoas no primeiro evento, mais de 600 na inauguração oficial.

Luke

Tudo bem, mas a câmara tinha orçado 227 mil euros com IVA. A empresa vencedora apresentou 175 mil, que é 23% mais baixo. Portanto, pelo menos conseguiram poupar.

Mark

E o Governo? Sabia quanto custava?

Mimi

Não respondeu. Nem o gabinete de Montenegro nem a Presidência comentaram o valor.

Luke

Isso é importante. Seguro e Montenegro estiveram lá, mas ninguém do Governo quis dizer se achava bem ou mal. É um silêncio que fala.

Mark

Os críticos têm razão em questionar isto?

Mimi

Rui Rocha e João Maria Jonet dizem que é despesismo num contexto de crise de habitação e custo de vida. Jonet aponta que a câmara gastou 700 mil euros em dois fins de semana — este festival e a inauguração.

Luke

Mas há uma diferença entre dizer que o gasto foi alto e dizer que foi ilegal ou inadequado. A câmara cumpriu as regras do PRR. A questão é se as regras são as certas.

  • Uma escola que esperou 50 anos por instalações definitivas foi finalmente inaugurada — mas o custo da festa gerou mais ruído do que a conquista em si.
  • 175 mil euros de fundos europeus de recuperação foram gastos em decoração, DJ, artistas e infraestruturas efémeras para dois eventos de inauguração.
  • A autarquia de Cascais defende-se com o Guia de Comunicação do PRR, que exige visibilidade mediática para projetos acima de 10 milhões — mas não fixa tetos de despesa.
  • Críticos, incluindo um vereador independente e o ex-líder da Iniciativa Liberal, denunciam uma 'cultura de despesismo' incompatível com a crise de habitação e custo de vida.
  • O Governo mantém silêncio: nem o gabinete do primeiro-ministro nem a Presidência da República comentaram a adequação do valor gasto.

Em Cascais, a inauguração de uma escola secundária — há meio século instalada em estruturas provisórias — tornou-se palco de uma tensão mais ampla sobre o uso de fundos públicos europeus: 175 mil euros do PRR foram canalizados para dois eventos comemorativos com DJ, performances e ecrãs gigantes, numa cerimónia que reuniu o Presidente da República e o primeiro-ministro. O episódio convida a refletir sobre onde termina a comunicação legítima de um investimento coletivo e onde começa o excesso que contradiz o espírito da austeridade que os próprios fundos visam superar.

A Câmara de Cascais, liderada pelo PSD, gastou 175 mil euros do Plano de Recuperação e Resiliência em dois eventos para inaugurar a Escola Secundária de Cascais — uma escola que funcionou em instalações provisórias durante cinco décadas. O primeiro foi um 'open day' a 5 de setembro, com mais de mil participantes da comunidade local; o segundo, a inauguração oficial desta segunda-feira, contou com a presença do primeiro-ministro Luís Montenegro e do Presidente da República António José Seguro.

A autarquia justifica o investimento com base no Guia de Comunicação do PRR, que prevê eventos de impacto mediático para operações estratégicas financiadas com mais de 10 milhões de euros. A escola recebeu cerca de 24 milhões do PRR, num investimento total superior a 32 milhões, enquadrando-se nessa categoria. O guia, porém, não estabelece qualquer limite ao valor a gastar. O contrato foi adjudicado à empresa Vertente Versátil por cerca de 143 mil euros sem IVA — 23% abaixo do preço base definido pela câmara — e incluía decoração, seis horas de DJ, performances musicais com três artistas, ecrãs gigantes e uma passarela para a cerimónia oficial.

A reação política foi imediata. O vereador independente João Maria Jonet falou numa 'cultura de despesismo', lembrando que o presidente da câmara pode adjudicar até 700 mil euros sem aprovação adicional e que só naquele fim de semana foram gastos exatamente esse valor entre a inauguração e um festival pela paz. Rui Rocha, ex-líder da Iniciativa Liberal, questionou nas redes sociais se Montenegro e Seguro sabiam do custo e se o consideravam aceitável, num país onde há salas de aula com infiltrações e faltam espaços cobertos para crianças.

Na cerimónia, o presidente da câmara Nuno Piteira Lopes celebrou 'a persistência e a resiliência' dos cascalenses. Seguro aproveitou para pedir mais ambição ao Governo em educação; Montenegro saudou os estudantes que iniciavam o secundário. A obra, porém, ainda não está concluída — a demolição das antigas instalações e a construção de um pavilhão desportivo estão previstas para 2027. O Governo não respondeu sobre a adequação do gasto, e a questão permanece em aberto.

A Câmara de Cascais gastou 175 mil euros do Plano de Recuperação e Resiliência em dois eventos para inaugurar a Escola Secundária de Cascais, incluindo uma cerimónia aberta à comunidade no início de setembro e a inauguração oficial desta segunda-feira, que contou com a presença do primeiro-ministro Luís Montenegro e do Presidente da República António José Seguro.

A autarquia, liderada pelo PSD, justifica o investimento com base nas orientações do Guia de Comunicação e Informação para Beneficiários do PRR, que prevê que operações de importância estratégica e intervenções financiadas com custo total superior a 10 milhões de euros devem incluir "um evento ou uma atividade de comunicação com relevante impacto mediático". A Escola Secundária de Cascais recebeu cerca de 24 milhões de euros em financiamento do PRR, num investimento total que ultrapassou os 32 milhões de euros, o que enquadra o projeto nesta categoria. O guia, porém, não estabelece limites ao valor que pode ser gasto nestes eventos de comunicação.

O primeiro momento foi um "open day" a 5 de setembro, descrito como uma cerimónia para a comunidade escolar e local onde a escola abriu as portas e participaram mais de mil pessoas. O segundo foi a inauguração oficial, com mais de 600 participantes, que marcou o início do ano letivo no ensino secundário. Para conceber e executar os dois eventos, a câmara abriu um procedimento de concurso público ao qual concorreram três empresas. A vencedora foi a Vertente Versátil, que apresentou o valor mais baixo: 142.693,45 euros (175.512,94 euros com IVA). O preço base definido pela autarquia era superior a 185.315,60 euros (227.938,19 euros com IVA), o que significa que a adjudicação ficou 23% abaixo do orçamento inicial.

O caderno de encargos incluía uma equipa de quatro pessoas para decoração, seis horas de DJ, uma performance musical com três artistas e um coreógrafo, três ecrãs (o maior com 56 metros quadrados), uma passarela para a cerimónia oficial e segurança para o material durante os dez dias de montagem e desmontagem das infraestruturas. O gabinete do primeiro-ministro não respondeu às questões do Observador sobre se tinha conhecimento do valor gasto ou se estava confortável com a forma como foi despendido. A Presidência da República recusou fazer comentários.

A reação política foi crítica. O vereador independente João Maria Jonet caracterizou o caso como reflexo de uma "cultura de despesismo" do executivo, apontando que em Cascais o presidente pode adjudicar valores até 700 mil euros sem aprovação adicional. "Este fim de semana foram exatamente 700 mil euros gastos entre um festival pela paz e a inauguração de uma escola", afirmou, questionando a adequação destes gastos num contexto de crise de custo de vida e habitação. O ex-líder da Iniciativa Liberal, Rui Rocha, reagiu nas redes sociais perguntando se Seguro e Montenegro estavam cientes do custo e se consideravam aceitável gastar 200 mil euros (o valor final foi 175 mil) na inauguração de uma escola, quando existem salas que chove dentro e faltam espaços cobertos para as crianças.

Durante a cerimónia, o presidente Nuno Piteira Lopes sublinhou que a escola funcionava em instalações provisórias há 50 anos. "Celebramos a persistência, a resiliência e uma conquista que é de todos os cascalenses", disse. O Presidente da República também evocou o longo percurso, recordando que desde 1975 gerações de alunos cresceram entre aquelas paredes e que a escola nasceu como solução provisória. A inauguração ocorreu com apenas parte da obra concluída; está prevista a demolição das antigas instalações e a construção de um novo pavilhão desportivo até ao final de 2027.

António José Seguro aproveitou o evento para pedir "ambição" ao Governo em matéria de educação, referindo os resultados PISA de 2025. Luís Montenegro, por sua vez, saudou a comunidade educativa de Cascais e todos os estudantes portugueses que iniciavam o ensino secundário naquele dia, desejando que encontrassem naquela nova escola os instrumentos para seguirem as suas vidas. O caso permanece sem resposta clara do Governo sobre a adequação do gasto em fundos públicos destinados à recuperação e resiliência.

Em Cascais, com a convivência de PS e Chega, depende apenas do Presidente adjudicar valores até 700 mil euros. Este fim de semana foram exatamente 700 mil euros gastos entre um festival pela paz e a inauguração de uma escola.
— João Maria Jonet, vereador independente
Queria perguntar-lhes diretamente na cara se acham bem que se gastem 200 mil euros para a inauguração de uma escola. Se acham que isto é aceitável, se isto é respeito pelo dinheiro dos contribuintes.
— Rui Rocha, ex-líder da Iniciativa Liberal
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