Europa aqueceu duas vezes mais que a média global, com 2022 registando o verão mais quente de sempre e múltiplos recordes nacionais. Climatologista Carlos Câmara reafirma que modelos dos anos 70 já previam este cenário, mesmo quando poucos se preocupavam com alterações climáticas.
Calor extremo na Europa era esperado; fenómenos extremos serão mais frequentes
Os modelos dos anos 70 já apontavam para isto; a ciência tinha feito o seu trabalho
Como é que a Europa, que não é um grande emissor de gases de efeito estufa, acaba por sofrer tanto com o aquecimento global?
Porque o clima não respeita fronteiras. O calor que se acumula na atmosfera circula globalmente. A Europa está numa posição particularmente vulnerável — aquece duas vezes mais depressa que a média mundial. É como estar perto de um radiador que está a aquecer toda a casa.
Mas então isto era previsível? Os cientistas sabiam que isto ia acontecer?
Sabiam. Os modelos dos anos 70 já apontavam para isto. A teoria do aquecimento global por gases de efeito estufa vem do século 19. O que é surpreendente não é que isto esteja a acontecer — é que levou tanto tempo para as pessoas levarem a sério.
E o que muda agora? Se os fenómenos extremos vão ser mais frequentes, o que é que as pessoas podem esperar?
Nas regiões mediterrânicas, espera-se secas mais intensas e mais frequentes. Mas também há uma intensificação do ciclo da água — mais chuva em alguns sítios, mais seca noutros. O clima fica mais volátil. Não é apenas mais quente; é mais imprevisível.
16 mil mortes em 2022 é um número que choca. Mas será que as pessoas entendem que isto é causado pelas alterações climáticas?
Muitas vezes não. Veem o calor extremo como um evento isolado. Mas quando se olha para os números — 195 mil mortes desde 1980 — vê-se um padrão. Isto não é acaso. É o sistema climático a mudar de forma mensurável e letal.
Se os cientistas já sabiam disto há 50 anos, porque é que não foi feito mais?
Essa é a pergunta difícil. A ciência estava lá. O aviso estava lá. Mas a ação política e social não acompanhou. Agora estamos a viver as consequências que foram previstas.
The Pulse
- Mais de 16 mil europeus morreram em 2022 devido ao calor extremo
- Europa aqueceu duas vezes mais que a média global
- Desde 1980, catástrofes climáticas causaram 195 mil mortes na Europa
- 2022 foi o ano mais quente já registado em vários países europeus
- Modelos climáticos dos anos 70 já previam este cenário
Europa aqueceu duas vezes mais que a média global, com 2022 registando o verão mais quente de sempre e múltiplos recordes nacionais. Climatologista Carlos Câmara reafirma que modelos dos anos 70 já previam este cenário, mesmo quando poucos se preocupavam com alterações climáticas.
Mais de 16 mil europeus morreram em 2022 devido ao calor extremo e alterações climáticas. Climatologistas afirmam que fenómenos extremos eram esperados e serão mais frequentes.
No verão de 2022, a Europa enfrentou um calor sem precedentes. Mais de 16 mil pessoas morreram naquele ano em consequência direta das alterações climáticas — um número que resume, em certa medida, o custo humano de um fenómeno que os cientistas não apenas previram, mas que já alertavam estar a caminho há décadas.
O continente europeu aqueceu ao dobro da velocidade da média global. Vários países registaram simultaneamente os seus anos mais quentes desde que há registos: Portugal, Bélgica, França, Alemanha, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Espanha, Suíça e Reino Unido. O próprio verão, considerado isoladamente, foi o mais quente jamais documentado. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, desde 1980 as catástrofes climáticas já tinham causado 195 mil mortes no continente.
O climatologista Carlos Câmara, em entrevista à SIC, ofereceu uma perspectiva que combina a urgência do presente com a história da ciência. Os modelos matemáticos dos anos 70 — época em que poucos se preocupavam genuinamente com o tema — já apontavam para aumentos de temperatura desta magnitude. A teoria do aquecimento global causado por gases de efeito estufa remonta ainda mais longe, ao final do século 19. "As consequências não nos surpreendem", disse Câmara, sublinhando que a ciência tinha feito o seu trabalho há muito tempo.
O que torna a situação europeia particularmente grave é uma aparente contradição: a Europa não é um dos maiores emissores globais de gases de efeito estufa, e no entanto sofre desproporcionalmente. Câmara explicou que "o processo não é linear" e que as consequências do aquecimento global "não são locais". O calor gerado em qualquer parte do planeta circula pela atmosfera e pelos oceanos, afetando regiões que podem estar geograficamente distantes das suas fontes.
As regiões mediterrânicas enfrentam um risco particular. Câmara descreveu-as como "particularmente sensíveis" às mudanças climáticas. O padrão que se desenha para o futuro próximo inclui episódios de seca mais intensos e mais frequentes na Europa mediterrânea. Simultaneamente, a intensificação do ciclo da água — a aceleração dos processos de evaporação e precipitação — significa que os fenómenos extremos em geral se tornarão mais comuns. Não se trata apenas de mais calor; trata-se de um clima mais volátil e imprevisível.
Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial, documentou os efeitos concretos do verão de 2022. As temperaturas elevadas agravaram as secas severas e generalizadas. Os incêndios florestais que se seguiram foram violentos e abrangentes — a segunda maior área ardida já registada em registos históricos. Milhares de mortes foram atribuídas diretamente ao excesso de calor.
O que Câmara enfatizou, talvez de forma mais importante, é que nenhuma destas descobertas é nova. Os cientistas fizeram soar o alarme quando poucos ouviam. Os modelos computacionais dos anos 70 já desenhavam este futuro. A teoria subjacente tem mais de um século. O que mudou não foi a ciência — foi a realidade a alcançar as previsões. E segundo os mesmos modelos que acertaram no passado, o que vem a seguir será ainda mais extremo.
Notable Quotes
Os modelos dos anos 70, quando poucas pessoas se preocupavam com o assunto, já apontavam para um aumento de temperatura— Carlos Câmara, climatologista
As temperaturas altas agravaram as condições de seca severa e generalizada, estimularam os incêndios florestais violentos e causaram milhares de mortes devido ao excesso de calor— Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial