Em poucos dias já há aumento do risco de agravamento e morte
Um estudo da Unicamp, publicado em maio de 2026, revelou que o calor extremo já supera o frio como principal fator climático de mortalidade respiratória no Brasil, ceifando cerca de 6 mil vidas por ano. Analisando mais de um milhão de óbitos ao longo de uma década, os pesquisadores documentaram um país transformado: de 7 para 52 dias anuais de ondas de calor, com o Nordeste e o Norte carregando o peso mais pesado dessa crise silenciosa. A morte por calor, como tantas outras formas de sofrimento, não se distribui com equidade — ela encontra os mais velhos, os mais pobres e os menos protegidos.
- O calor extremo já mata mais brasileiros do que o frio: 4,27% das mortes respiratórias ligadas ao calor, contra 1,81% do frio, segundo análise de 1 milhão de óbitos entre 2010 e 2020.
- No Nordeste, 8,6% das mortes respiratórias têm relação com altas temperaturas; no Norte, esse índice sobe para 12,5%, revelando uma crise de saúde pública concentrada nas regiões mais quentes e vulneráveis.
- Idosos representam 75% das vítimas, e moradores de periferias — sem ventilação adequada, sem áreas verdes, sem climatização — enfrentam riscos multiplicados a cada onda de calor.
- O Brasil passou de 7 para 52 dias anuais de ondas de calor nas últimas décadas, e os pesquisadores alertam que a mortalidade seguirá crescendo se o ritmo das mudanças climáticas não for enfrentado com urgência.
- Especialistas defendem sistemas regionais de alerta climático, ampliação de áreas verdes urbanas e centros públicos climatizados, enquanto o Ministério da Saúde ainda busca escalar suas respostas à altura do problema.
Seis mil brasileiros morrem a cada ano por doenças respiratórias ligadas a temperaturas extremas. O número vem de um estudo da Unicamp divulgado em maio de 2026, que analisou mais de um milhão de mortes em 646 municípios ao longo de uma década. A conclusão redefine o debate sobre saúde e clima no país: o calor agora mata mais do que o frio.
Das mortes respiratórias com conexão direta a temperaturas fora da faixa ideal para o corpo humano, 4,27% foram associadas ao calor extremo — mais que o dobro dos 1,81% atribuídos ao frio. O Brasil, que registrava em média 7 dias de ondas de calor por ano, chegou a 52 dias anuais nas últimas décadas. O Nordeste e o Norte são as regiões mais atingidas: no Norte, 12,5% das mortes respiratórias têm relação com o calor; no Nordeste, 8,6%. O Sul permanece como exceção, onde o frio ainda é o principal fator climático de risco.
Guilherme Coelho, médico e primeiro autor da pesquisa, explica que o calor age com rapidez: em poucos dias já eleva o risco de agravamento e morte, provocando desidratação e irritação das vias aéreas. O frio, por sua vez, reduz as defesas do organismo e favorece infecções respiratórias — mas seu impacto, no contexto nacional, ficou para trás.
A mortalidade por calor não é democrática. Idosos concentram cerca de 75% das vítimas. Moradores de periferias, com casas mal ventiladas e sem acesso a áreas verdes ou climatização, estão entre os mais expostos. As desigualdades sociais funcionam como amplificadores do risco climático.
O cenário tende a piorar. Os pesquisadores defendem sistemas regionais de alerta, adaptação de moradias, ampliação de áreas verdes e abertura de centros climatizados durante ondas de calor. O Ministério da Saúde já iniciou algumas iniciativas, mas especialistas apontam que o ritmo das ações precisa crescer para acompanhar a velocidade das mudanças climáticas em curso.
Seis mil brasileiros morrem a cada ano por doenças respiratórias ligadas a temperaturas extremas. Esse número, extraído de um estudo da Universidade Estadual de Campinas divulgado em maio de 2026, representa uma mudança profunda no perfil de risco climático do país. Durante uma década inteira — de 2010 a 2020 — pesquisadores analisaram mais de um milhão de mortes registradas em 646 municípios brasileiros e descobriram algo que redefine a conversa sobre saúde pública e clima: o calor agora mata mais do que o frio.
Os números são claros. Das 66 mil mortes por problemas respiratórios que tiveram conexão direta com temperaturas fora da faixa ideal para o corpo humano — estimada em 22,4°C — 4,27% foram associadas ao calor extremo. O frio, historicamente o vilão das regiões mais frias do país, respondeu por apenas 1,81% desses óbitos. A pesquisa, publicada na revista científica PLOS Climate, mostra um país em transformação climática acelerada, onde as ondas de calor deixaram de ser eventos ocasionais para se tornarem rotina. Nas últimas décadas, o Brasil passou de uma média de sete dias de ondas de calor por ano para 52 dias anuais, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
O Nordeste e o Norte emergem como as regiões mais vulneráveis a esse novo cenário. No Nordeste, 8,6% das mortes respiratórias registradas estão relacionadas às altas temperaturas. No Norte, o índice sobe ainda mais: 12,5%. Partes do Nordeste, além de estados como Roraima e Mato Grosso do Sul, já registram aumentos de até 3°C na temperatura máxima média. O Sul, por sua vez, mantém o frio como seu principal fator climático de risco — um contraste que ilustra como as mudanças climáticas não afetam o Brasil de forma uniforme.
Guilherme Coelho, médico de família e primeiro autor da pesquisa, explica o mecanismo por trás dessa mortalidade crescente. O calor atua com velocidade. "Em poucos dias já há aumento do risco de agravamento e morte", disse o pesquisador da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. O calor extremo provoca desidratação rápida e irrita as vias aéreas, enquanto o frio intenso reduz as defesas naturais do organismo e aumenta o risco de infecções respiratórias. Além disso, diferentes cenários climáticos favorecem a circulação de vírus respiratórios específicos, amplificando o impacto sobre a saúde.
Mas a morte por calor extremo não é democrática. Idosos concentram aproximadamente 75% das mortes associadas a temperaturas extremas. Moradores de periferias e áreas com infraestrutura precária também estão entre os grupos mais vulneráveis. Casas pouco ventiladas, ausência de climatização e falta de áreas verdes ampliam dramaticamente os riscos durante ondas de calor. Essas desigualdades sociais funcionam como multiplicadores de risco, transformando um fenômeno climático em uma crise de saúde pública que afeta desproporcionalmente os mais pobres.
O cenário tende a piorar. Com o avanço das mudanças climáticas, os pesquisadores alertam que a mortalidade associada ao calor extremo seguirá crescendo. Em resposta, os autores do estudo defendem medidas urgentes: criação de sistemas regionais de alerta climático, ampliação de áreas verdes urbanas, adaptação de moradias para melhor ventilação e abertura de centros públicos climatizados durante períodos de calor extremo. O Ministério da Saúde já iniciou algumas iniciativas voltadas à adaptação do Sistema Único de Saúde aos impactos das mudanças climáticas, mas especialistas indicam que o ritmo e a escala dessas ações precisam aumentar significativamente para acompanhar a velocidade das transformações climáticas em curso.
Notable Quotes
O efeito do calor é muito mais imediato. Em poucos dias já há aumento do risco de agravamento e morte— Guilherme Coelho, médico de família e primeiro autor da pesquisa
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o calor mata mais rápido do que o frio, segundo a pesquisa?
O calor age de forma muito mais imediata sobre o corpo. Em poucos dias já há desidratação, irritação das vias aéreas e aumento do risco de morte. O frio, embora perigoso, dá mais tempo para o organismo se adaptar ou para as pessoas buscarem proteção.
E por que o Nordeste está tão exposto a isso?
Porque o Nordeste já é naturalmente quente, e agora está ficando ainda mais quente — até 3°C acima da média histórica em algumas áreas. Além disso, muitas casas na região têm pouca ventilação, falta ar-condicionado, e há poucas áreas verdes. Quando chega uma onda de calor, as pessoas não têm para onde ir.
Os idosos aparecem em 75% das mortes. Por quê?
O corpo envelhecido tem menos capacidade de regular temperatura. Além disso, idosos costumam ter doenças respiratórias preexistentes e tomam medicamentos que afetam a resposta do corpo ao calor. Eles são simplesmente mais frágeis diante de extremos térmicos.
O estudo sugere soluções?
Sim. Sistemas de alerta climático para avisar quando uma onda de calor está chegando, mais áreas verdes nas cidades para reduzir o calor urbano, reformas nas casas para melhorar ventilação, e centros públicos climatizados onde as pessoas possam se abrigar durante o calor extremo.
Isso é viável economicamente?
É mais viável do que não fazer nada. Seis mil mortes por ano têm um custo humano e econômico imenso. Investir em prevenção agora é muito mais barato do que lidar com crises de saúde pública depois.