Proposta aumenta mensalidade de titulares de 3,5% para 5,5% da remuneração e de dependentes em mais de 57%, inviabilizando o plano para trabalhadores de menor renda. Caixa já financia apenas 54% do plano enquanto beneficiários arcam com 46%, distorcendo modelo histórico 70/30 devido a teto estatutário de 6,5% da folha.
Caixa apresenta proposta que dobra mensalidade do Saúde Caixa; sindicato rejeita
O empregado recebe um aumento, mas terá de devolvê-lo para continuar com o plano
Por que a rejeição foi unânime entre todas as federações?
Porque a proposta não oferecia uma solução equilibrada. Simplesmente transferia o problema inteiro para os empregados. Quando você vê aumentos de 57% para titulares e 81% para dependentes, fica claro que o banco está se afastando progressivamente de sua responsabilidade.
E se o trabalhador receber o aumento salarial que está sendo reivindicado?
Pior ainda. Ele recebe a inflação mais 5% de aumento real, mas o reajuste do Saúde Caixa consome tudo isso e mais. No final, ele perde remuneração. É como se o banco dissesse: você pode receber um aumento, mas terá de devolvê-lo para continuar com o plano de saúde.
Como a Caixa justifica esses aumentos?
Aponta o déficit do plano. Mas o déficit existe porque o estatuto do banco limita sua participação a 6,5% da folha. Com as despesas crescendo acima dos reajustes, a Caixa deixa de acompanhar os custos. Ao invés de aumentar sua contribuição, o banco quer transferir tudo para os usuários.
Qual é o risco real dessa proposta?
Trabalhadores de menor renda simplesmente sairiam do plano. O banco informou que 32% dos titulares ganham entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. Com dois ou mais dependentes, esses trabalhadores não conseguem pagar. Quando saem, o plano fica inviável porque perde o princípio do mutualismo.
E quanto ao adoecimento que você mencionou?
A psicologia respondeu por 60% dos custos de terapias em 2025. Isso não é coincidência. A Caixa reduz quadro, aumenta metas, sobrecarrega os empregados. Eles adoecem. Depois o banco quer que eles paguem mais para tratar o adoecimento que a própria Caixa causou.
O que o Sindicato quer agora?
Uma nova proposta com aumento real da participação da Caixa. Fim do teto estatutário de 6,5%. Cobertura integral de doenças ocupacionais. E que o banco reconheça que os lucros crescentes que projeta para os próximos anos são produzidos pelo trabalho diário de seus empregados.
The Pulse
- Proposta aumenta mensalidade de titulares de 3,5% para 5,5% da remuneração e de dependentes em até 81%
- Caixa financia apenas 54% do plano enquanto beneficiários arcam com 46%, distorcendo modelo 70/30
- Déficit operacional de R$ 627,8 milhões em 2025; custo médio por beneficiário subiu 60,6% entre 2022 e 2025
- 32% dos titulares ganham entre R$ 10 mil e R$ 15 mil e seriam forçados a abandonar o plano
Proposta aumenta mensalidade de titulares de 3,5% para 5,5% da remuneração e de dependentes em mais de 57%, inviabilizando o plano para trabalhadores de menor renda. Caixa já financia apenas 54% do plano enquanto beneficiários arcam com 46%, distorcendo modelo histórico 70/30 devido a teto estatutário de 6,5% da folha.
Sindicato dos Bancários recusa proposta da Caixa que aumentaria mensalidades do plano de saúde em até 81%, dobrando o teto de comprometimento de renda de 7% para 14%.
Na quarta-feira 5 de agosto, durante a quinta rodada de negociações da Campanha Nacional Unificada dos Bancários 2026, a Caixa Econômica Federal apresentou sua proposta para o custeio do Saúde Caixa. O Sindicato dos Bancários, representado pela Comissão Executiva dos Empregados da Caixa (CEE/Caixa), rejeitou a proposta de forma unânime. Todas as federações presentes à mesa exigiram que o banco refizesse os cálculos e apresentasse uma nova formulação.
O banco chamou sua proposta de "Modelo atual reajustado". Na prática, ela aumentaria a mensalidade dos titulares de 3,5% para 5,5% da remuneração-base — um aumento de mais de 57%. Os dependentes diretos passariam de R$ 480 para R$ 870 mensais, uma elevação superior a 81%. Os dependentes indiretos subiriam de R$ 480 para R$ 930, e filhos entre 24 e 27 anos passariam de R$ 800 para R$ 1.050. O teto de comprometimento da renda familiar dobraria, dos atuais 7% para 14%. A cobrança continuaria sendo feita em 13 parcelas anuais.
Para Luiza Hansen, dirigente do Sindicato e coordenadora da CEE/Caixa, a proposta é profundamente desrespeitosa. Ela transfere integralmente o problema para os empregados. Mesmo que os trabalhadores conquistem a reposição da inflação acrescida de 5% de aumento real — a reivindicação apresentada na mesa geral de negociação com os bancos — esse reajuste do Saúde Caixa consumiria todo o ganho e, em muitos casos, uma parcela ainda maior da renda. O resultado seria uma campanha salarial que termina com perda de remuneração.
O problema é estrutural. Os números mostram que a Caixa já financia apenas 54% do plano de saúde, enquanto empregados, aposentados e pensionistas arcam com aproximadamente 46%. Isso distorce o modelo histórico de custeio 70/30. A razão: o estatuto do banco limita sua participação a 6,5% da folha de pagamentos. Com as despesas assistenciais crescendo acima dos reajustes da folha, a contribuição da Caixa deixa de acompanhar os custos, e uma parcela crescente é transferida aos usuários. Em 2025, a Caixa contribuiu com aproximadamente R$ 2,02 bilhões, enquanto as mensalidades dos usuários somaram R$ 1,39 bilhão e as coparticipações chegaram a R$ 303,6 milhões.
O Saúde Caixa registrou déficit operacional de R$ 627,8 milhões em 2025. As despesas totalizaram R$ 4,39 bilhões diante de receitas de R$ 3,76 bilhões. O plano terminou o exercício com saldo positivo apenas após incorporar R$ 581,1 milhões em contribuições patronais incidentes sobre ações judiciais e acordos trabalhistas de anos anteriores e utilizar R$ 46,7 milhões da Reserva Técnica. Segundo o Dieese, esses recursos extraordinários não representam melhora estrutural. O custo médio anual por beneficiário subiu de R$ 9.854 em 2022 para R$ 15.824,24 em 2025 — um aumento acumulado de 60,6%. Até maio de 2026, o plano já acumulava déficit de R$ 222,2 milhões.
A proposta da Caixa seria especialmente devastadora para trabalhadores de menor renda. O próprio banco informou que 32% dos titulares estão na faixa de renda entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. Aqueles com dois ou mais dependentes seriam duramente atingidos e poderiam deixar o plano, inviabilizando-o em médio prazo. A CEE/Caixa cobrou do banco um estudo sobre quantos beneficiários abandonariam o plano caso a proposta fosse implantada. Com a saída de usuários, os princípios do mutualismo, solidariedade e pacto intergeracional seriam enfraquecidos.
Os dados também revelam um aumento expressivo da demanda por cuidados de saúde mental. Em 2025, a psicologia respondeu por 60,3% dos custos da linha de terapias, com mais de 1,67 milhão de procedimentos realizados e crescimento de 48% no número de sessões. Para a CEE/Caixa, isso não pode ser analisado sem considerar as condições de trabalho na Caixa, marcadas pela redução do quadro, sobrecarga, pressão por metas e adoecimento. O Sindicato reivindica que a Caixa arque integralmente com os tratamentos relacionados às doenças ocupacionais, classificadas como B91 no contexto previdenciário. É inaceitável, argumenta Luiza Hansen, que o empregado seja submetido a metas, pressão e sobrecarga, adoeça dentro da empresa e depois tenha de pagar uma mensalidade ainda maior para tratar esse adoecimento.
A CEE/Caixa não se limitou a rejeitar a proposta. Apresentou na minuta de reivindicações diferentes alternativas para enfrentar o déficit sem inviabilizar o plano e sem impor todo o ônus aos usuários. Também cobra contratações, inclusão dos empregados admitidos após setembro de 2018 no direito ao plano com participação da Caixa durante a aposentadoria, ampliação da rede credenciada e maior transparência. Ao final da reunião, a Caixa reconheceu que a proposta não havia sido aceita e informou que voltaria a avaliar o modelo. A CEE/Caixa reiterou que espera uma nova formulação, com aumento real da participação do banco e respeito à capacidade de pagamento dos beneficiários.
Notable Quotes
Esta proposta é profundamente desrespeitosa com quem constrói o banco todos os dias. Ela não apresenta uma solução equilibrada para o Saúde Caixa. Simplesmente transfere a conta para os empregados.— Luiza Hansen, dirigente do Sindicato e coordenadora da CEE/Caixa
É inaceitável que o empregado seja submetido a metas, pressão e sobrecarga, adoeça dentro da empresa e depois tenha de pagar uma mensalidade ainda maior para tratar esse adoecimento.— Luiza Hansen