No coração verde de São Paulo, vinte mil pessoas atravessaram o tempo sem sair do lugar. O festival C6 no Rock transformou o parque Ibirapuera em um santuário da memória coletiva, reunindo gerações em torno dos álbuns que moldaram a identidade do rock brasileiro nos anos 1980. Mais do que nostalgia, o evento revelou algo mais profundo: a música como fio invisível que costura quem fomos a quem nos tornamos.
C6 no Rock leva 20 mil fãs ao Ibirapuera para celebrar clássicos do rock nacional
Quarenta anos depois, ainda estamos aqui cantando juntos
Por que um festival de rock dos anos 1980 consegue reunir vinte mil pessoas em 2026? O que essas canções ainda significam?
Porque aquelas músicas não envelheceram — as pessoas é que envelheceram. Mas quando você ouve "Tempo Perdido" novamente, você volta a ser quem era. É um tipo de viagem que funciona.
Você notou que havia crianças e adolescentes lá, não apenas os fãs originais?
Sim. Pais levando filhos para ouvir o que os formou. É como passar uma herança musical. Essas canções atravessaram quatro décadas porque dizem algo que continua verdadeiro.
A presença de Fernanda Abreu com a Blitz, de Dado e Marcelo sem Renato Russo — como esses detalhes mudam o significado do show?
Muda tudo. Você está vendo pessoas que viveram aquilo, que construíram aquilo, voltando para contar a história. Mas também está vendo ausências. Renato Russo morreu em 1996. Cazuza em 1990. Essas presenças fantasmagóricas tornam o show mais poderoso.
O festival foi descrito como "temático". Isso não corre o risco de transformar a história em nostalgia vazia?
Poderia, mas não parece ter acontecido. Quando o público cantou em uníssono, não era apenas lembrança — era reconhecimento. Essas canções ainda falam sobre quem somos.
E agora? A Dueto quer fazer isso novamente?
Eles estão deixando a experiência "decantar", como disseram. Mas vinte mil pessoas em um parque é uma resposta clara. A questão não é se vão fazer novamente, mas quando.
El Pulso
- Vinte mil fãs tomaram o Ibirapuera num fim de semana que prometia show, mas entregou ritual — a tensão entre o passado que não volta e o presente que insiste em buscá-lo.
- Ira!, Blitz e Legião Urbana subiram ao palco com suas formações originais, reacendendo a precisão e a emoção de álbuns gravados há quarenta anos como se o tempo tivesse apenas dobrado, não passado.
- Filhos sentados ao lado de pais, adolescentes descobrindo canções que seus avós cantaram — a multidão misturou décadas e criou uma conversa silenciosa entre gerações.
- A homenagem a Cazuza encerrou o festival com seis artistas no palco e 'Brasil' na boca de todos, transformando a despedida em manifesto coletivo.
- Os organizadores, satisfeitos com a resposta do público, deixam em aberto novas edições — o sucesso da primeira experiência temática sugere que esse formato encontrou raízes em São Paulo.
No coração verde de São Paulo, vinte mil pessoas atravessaram o tempo sem sair do lugar. O festival C6 no Rock transformou o parque Ibirapuera em um santuário da memória coletiva, reunindo gerações em torno dos álbuns que moldaram a identidade do rock brasileiro nos anos 1980. Mais do que nostalgia, o evento revelou algo mais profundo: a música como fio invisível que costura quem fomos a quem nos tornamos.
Vinte mil pessoas ocuparam o parque Ibirapuera neste fim de semana não apenas para assistir a shows, mas para habitar, por algumas horas, uma versão anterior de si mesmas. O festival C6 no Rock — primeiro evento temático dedicado exclusivamente às bandas dos anos 1980 em São Paulo — transformou o espaço verde da cidade em um lugar onde gerações inteiras se reencontraram através da música.
O segundo dia começou com o Ira! interpretando na íntegra o álbum "Vivendo e Não Aprendendo", de 1986. Edgar Scandurra e Nasi, da formação original, mostraram que a precisão do trabalho resistiu ao tempo. "Envelheço na Cidade", "Dias de Luta" e "Flores em Você" ecoaram pelo parque enquanto o público — muitos deles vivendo aquele disco quando ainda tinham quinze anos — se reencontrava naquelas canções.
A Blitz trouxe a leveza que sempre a definiu. Com Evandro Mesquita e a convidada especial Fernanda Abreu, que integrou a banda em seus primeiros dias, o álbum "As Aventuras da Blitz" ganhou nova vida. Quando uma bola gigante amarela foi lançada à plateia, a ilusão de estar novamente na adolescência se completou.
Ao entardecer, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá subiram ao palco para tocar o álbum "Dois" da Legião Urbana. Dado citou um verso de "Eduardo e Mônica" para marcar o peso do momento: quarenta anos haviam se passado desde que a banda tocou no ginásio do Ibirapuera. Quando "Tempo Perdido" ecoou com o verso "somos tão jovens", a emoção tomou conta do espaço e todos cantaram em uníssono — incluindo filhos e filhas dos fãs originais.
Marina Lima foi a única voz feminina na programação, homenageando o irmão e poeta Antônio Cícero e contando com Lobão na bateria. O festival encerrou com uma celebração ao legado de Cazuza, reunindo Arnaldo Antunes, Johnny Hooker, Leoni, Lobão, Maria Gadú, Léo Jaime e Frejat no palco. Todos encerraram cantando "Brasil".
A Dueto, organizadora do evento, não descarta novas edições. O sócio Jeffrey Neale afirmou querer deixar a experiência decantar antes de decidir os próximos passos — mas a resposta do público já sinalizou que esse tipo de celebração encontrou seu lugar.
Vinte mil pessoas ocuparam o parque Ibirapuera neste fim de semana para uma celebração do rock nacional que funcionou menos como um show e mais como um ritual coletivo de volta ao tempo. O festival C6 no Rock reuniu gerações inteiras em torno dos álbuns que definiram a música brasileira nos anos 1980, transformando o espaço verde de São Paulo em um lugar onde adolescentes de quarenta anos atrás puderam, por algumas horas, ser adolescentes novamente.
No segundo dia do festival, o Ira! abriu o palco com o álbum "Vivendo e Não Aprendendo", lançado em 1986. Edgar Scandurra na guitarra e Nasi no vocal — ambos da formação original — mostraram que o tempo não desgastou a precisão do trabalho. "Envelheço na Cidade", "Dias de Luta" e "Flores em Você" ecoaram pelo parque, e o público, muitos deles vivendo aquele disco quando ainda tinham quinze anos, encontrou-se novamente naquelas canções.
A Blitz veio em seguida com a leveza que sempre a caracterizou. O álbum "As Aventuras da Blitz", de 1982, ganhou nova vida nas vozes de Evandro Mesquita e da convidada especial Fernanda Abreu, que integrou a banda em seus primeiros dias. "Geme Geme", "Mais Uma de Amor" e "Você Não Soube me Amar" fizeram o público dançar, e quando a banda lançou uma bola gigante amarela com seu nome na plateia, a ilusão de estar novamente na adolescência se completou.
Ao entardecer, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá subiram ao palco para tocar o álbum "Dois" da Legião Urbana, lançado em 1986. Dado citou um verso de "Eduardo e Mônica" para marcar o momento: quarenta anos haviam se passado desde que a banda tocou no ginásio do Ibirapuera, e ali estavam novamente, no mesmo parque, diante de uma multidão que incluía não apenas os fãs originais, mas também filhos e filhas daqueles que viveram aquela era. Quando "Tempo Perdido" ecoou — especialmente o verso "somos tão jovens" — a emoção tomou conta do espaço, e todos cantaram em uníssono.
Mariana Lima foi a única cantora na programação, trazendo os sucessos do álbum "Fullgás", de 1984. Ela homenageou o irmão, o poeta Antônio Cícero, com quem trabalhou em diversas composições, e contou com a participação especial de Lobão na bateria. "Veneno", "Me Chama" e "Mesmo Que Seja Eu" reafirmaram a importância da voz feminina naquele período do rock brasileiro.
O festival encerrou com uma homenagem a Cazuza, o poeta que começou sua carreira no Barão Vermelho. O show "Todo Amor Que Houver Nesta Vida" reuniu múltiplos artistas — Arnaldo Antunes, Johnny Hooker, Leoni, Lobão, Maria Gadú e Léo Jaime — para celebrar o legado de quem morreu em 1990. Foi Frejat quem animou o público no final, e todos encerraram o festival cantando "Brasil", um dos maiores sucessos de Cazuza.
O C6 no Rock foi o primeiro festival temático dedicado exclusivamente às bandas dos anos 1980 em São Paulo. A Dueto, organizadora do evento, não descarta novas edições. Jeffrey Neale, sócio da empresa, afirmou estar satisfeito com a energia do público e com a força dos shows, que trouxeram de volta um capítulo importante da música brasileira. "Agora queremos deixar essa experiência decantar e absorver tudo o que ela provocou", disse. O futuro do festival permanece em aberto, mas a resposta do público sugere que esse tipo de celebração encontrou seu lugar.
Citas Notables
Estamos muito felizes com a energia do público e com a força dos shows, que trouxeram de volta um capítulo tão importante da música brasileira. Agora queremos deixar essa experiência decantar e absorver tudo o que ela provocou.— Jeffrey Neale, sócio da Dueto