Brasileira na lista Time de IA usa tecnologia contra discurso de ódio anti-LGBTQIA+

Equipe do Código Não Binário sofreu impactos à saúde mental pela enxurrada de comentários e mensagens de ataque anti-trans impulsionados por figuras da extrema-direita em 2024.
A tecnologia pode ser usada para revidar
Gimenez defende que inteligência artificial não serve apenas para lucro, mas também para documentar e combater o ódio.
Mark

Por que a TybyrIA importa se as plataformas já dizem que proíbem esse tipo de conteúdo?

Mimi

Porque dizer que proíbe e realmente remover em escala são coisas diferentes. A ferramenta permite documentar o padrão, mostrar que não está funcionando.

Luke

Mas a ação ainda está em andamento, certo? Não sabemos ainda se vai prosperar ou qual será o resultado.

Mimi

Verdade. Mas o ponto é que agora há evidência estruturada. Antes era anedota. Agora é dado.

Mark

E o curso online dela — está funcionando? As pessoas realmente estão aprendendo a usar IA de forma crítica?

Mimi

Tem mais de mil e setecentas inscrições. Isso sugere demanda real. Mas crítica é difícil de medir.

Luke

Exato. Inscrição não é conclusão do curso, não é aplicação prática. É um sinal, mas não é resultado.

Mimi

Concordo. O que sabemos é que ela está tentando descentralizar o conhecimento, não guardar a ferramenta só para si.

Mark

Isso muda algo no mercado de IA?

Luke

Não sabemos ainda. Pode ser que inspire outras iniciativas. Pode ser que fique isolado.

Mimi

Mas o reconhecimento da Time é importante porque coloca isso na conversa global sobre IA. Não é só eficiência, é também responsabilidade.

Mark

E ela é a única brasileira na lista?

Mimi

É. Única.

  • Veronyka Gimenez é a única brasileira na lista Time de 100 pessoas influentes em IA
  • TybyrIA foi criada em 2025 para catalogar discurso de ódio anti-LGBTQIA+ em escala
  • Ação civil pública pede US$ 20 milhões contra Meta, Google, X e ByteDance
  • Campanha anti-trans em 2024 afetou saúde mental da equipe do Código Não Binário
  • Curso online sobre uso crítico de IA recebeu mais de 1.700 inscrições

Gimenez criou TybyrIA, ferramenta de código aberto que cataloga discurso de ódio em escala viável, após campanha anti-trans em 2024 afetar sua equipe. Ação civil pública contra plataformas pede US$ 20 milhões em indenização e medidas mais proativas contra ataques discriminatórios baseados em orientação sexual e identidade de gênero.

Veronyka Gimenez, cofundadora do Código Não Binário, é a única brasileira na lista Time de 100 pessoas influentes em IA. Ela desenvolveu modelo de IA aberto para detectar discurso de ódio anti-LGBTQIA+ e move ação contra Meta, Google, X e ByteDance.

Veronyka Gimenez recebeu um reconhecimento raro este ano: seu nome entrou na lista Time de cem pessoas mais influentes em inteligência artificial no mundo. Ela é a única brasileira nessa seleção. O que a colocou ali não foi um algoritmo de previsão de mercado ou um modelo de processamento de linguagem natural mais rápido que os concorrentes. Foi, em vez disso, uma ferramenta criada para fazer a tecnologia funcionar contra o ódio.

Gimenez é cofundadora do Código Não Binário, um grupo brasileiro que trabalha com questões de gênero e sexualidade. Em 2025, ela e Amanda Claro desenvolveram a TybyrIA, um modelo de inteligência artificial de código aberto desenhado especificamente para identificar e catalogar discurso de ódio direcionado a pessoas LGBTQIA+. A ferramenta nasceu de uma necessidade urgente e concreta: processar em escala o que seria impossível fazer manualmente.

Tudo começou em 2024, quando um episódio do podcast "Entre Amigues", produzido pelo Código Não Binário, viralizou nas redes. O conteúdo abordava a identidade transmasculina brasileira conhecida como "boyceta". O que deveria ter sido uma discussão entre amigos se transformou em combustível para uma campanha coordenada de ataques anti-trans, amplificada por figuras ligadas à extrema-direita. A enxurrada de comentários e mensagens chegou com força constante. A equipe de Gimenez sentiu o impacto na saúde mental.

Em vez de abandonar a plataforma ou aceitar o silêncio, Gimenez viu nos dados uma oportunidade. Aquele volume massivo de ataques poderia se tornar evidência. Mas separar manualmente cada mensagem, cada comentário, cada variação do discurso de ódio era trabalho demais para um grupo pequeno. Ela ajustou um modelo de inteligência artificial aberto e conseguiu fazer o que antes era inviável: catalogar o padrão em escala.

O material gerado pela TybyrIA embasou uma ação civil pública contra Meta, Google, X e ByteDance. O processo pede aproximadamente vinte milhões de dólares em indenização e cobra das plataformas medidas mais proativas para conter ataques discriminatórios baseados em orientação sexual e identidade de gênero. As empresas, quando consultadas pela Time, afirmaram que já proíbem discriminação por essas razões e que possuem mecanismos para remover conteúdo violador. Meta não comentou. Google, X e ByteDance não responderam.

O que Gimenez defende publicamente é que a inteligência artificial não precisa ser apenas uma ferramenta de lucro ou controle. Ela pode ser usada para "revidar", disse à Time. Depois do caso, ela redirecionou seu trabalho para ensinar outras pessoas e comunidades a usar a tecnologia de forma crítica, sem simplesmente rejeitá-la. Mantém um curso online com o Código Não Binário focado exatamente nisso: como adaptar ferramentas abertas para necessidades reais. O curso já recebeu mais de mil e setecentas inscrições.

O reconhecimento da Time marca um ponto de virada. Não é sobre ser a melhor em um campo dominado por gigantes tecnológicos. É sobre mostrar que há outro caminho possível: usar a mesma tecnologia que amplifica o ódio para documentá-lo, responsabilizar quem o deixa prosperar, e ensinar outros a fazer o mesmo.

Quer que as pessoas saibam que a tecnologia pode ser usada para revidar
— Veronyka Gimenez, à revista Time
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