Brasileira em Buenos Aires relata ameaças de morte após comemorar derrota da Argentina

Brasileira relata receber ameaças de morte, mensagens racistas, ameaças de linchamento e exposição de dados pessoais, causando medo e impossibilidade de sair de casa com segurança.
Só volto para o Brasil com o meu diploma
A estudante de medicina recusa-se a deixar a Argentina apesar das ameaças de morte e do medo de sair de casa.
Mark

Por que você acha que a emissora decidiu exibir esses posts de brasileiros em um programa ao vivo?

Mimi

Provavelmente porque havia uma narrativa pronta: estrangeiros celebrando a derrota nacional. Mas o que importa é que ao expor nomes e imagens, transformaram uma brincadeira privada em alvo público.

Mark

A jovem disse que estuda em universidade privada, não pública. A emissora cometeu um erro?

Mimi

Cometeu, mas o erro não importou muito. Os comentários que vieram depois não eram sobre fatos — eram sobre ressentimento. Imigrantes, educação gratuita, ingratidão. A imprecisão apenas alimentou a raiva.

Mark

Ela continua na Argentina apesar de tudo isso?

Mimi

Sim. Está no quarto ano de medicina. Para ela, sair agora seria desistir de tudo que construiu. Mas o medo é real — ela tem medo de sair de casa.

Mark

Como uma foto de uma arma de fogo acaba sendo usada como ameaça?

Mimi

Alguém a encontrou na internet, em um post antigo sobre registro de armas. Pegou e enviou para ela. Não é nem uma ameaça direta — é mais uma mensagem: sabemos onde você está, temos acesso a isso.

Mark

O que a Crónica TV deveria ter feito diferente?

Mimi

Não expor nomes de usuários, para começar. Mas também questionar por que estava amplificando ressentimento contra imigrantes em um programa ao vivo. Havia escolhas ali.

Mark

Isso vai mudar algo?

Mimi

Ela vai à polícia, vai à embaixada, pode processar. Mas o dano já foi feito. Outros brasileiros também foram expostos. A questão agora é se isso vira um padrão ou um incidente isolado.

  • Uma jovem brasileira que vive há quatro anos em Buenos Aires viu sua comemoração esportiva se transformar em alvo de ameaças de morte, linchamento e mensagens racistas em questão de horas.
  • A emissora Crónica TV exibiu em rede nacional os perfis de brasileiros nas redes sociais, expondo nomes de usuários e criando um mapa para a hostilidade coletiva.
  • As ameaças foram específicas e perturbadoras — incluindo descrições detalhadas de violência física, fotos de armas e a exposição do endereço residencial da jovem, deixando-a com medo de sair de casa.
  • O ataque se misturou a um debate político preexistente sobre estrangeiros que estudam gratuitamente na Argentina, mesmo que a jovem não estudasse em universidade pública — a imprecisão não freou a fúria.
  • Determinada a não abandonar o curso de medicina, ela planeja registrar boletim de ocorrência, acionar a Embaixada do Brasil e avaliar processo judicial contra a emissora responsável pela exposição.

Quando o apito final soou e a Espanha levou a Copa, uma estudante brasileira em Buenos Aires celebrou como tantos outros torcedores — sem imaginar que uma emissora de televisão transformaria sua alegria em alvo. A Crónica TV exibiu ao vivo os posts de brasileiros comemorando a derrota argentina, expondo nomes e alimentando uma hostilidade que rapidamente cruzou a fronteira entre o digital e o real. O episódio revela como a exposição pública irresponsável pode converter uma brincadeira esportiva em perseguição, e como imigrantes se tornam vulneráveis quando o fervor nacional encontra a amplificação midiática.

No domingo à noite, após a Espanha derrotar a Argentina na final da Copa do Mundo, uma estudante brasileira residente em Buenos Aires celebrou nas redes sociais — com posts bem-humorados, incluindo um em que brincava estar "de mufa" com uma camisa argentina. Era o tipo de comemoração que milhões de torcedores fazem. Ninguém poderia prever o que viria a seguir.

Na segunda-feira, a emissora Crónica TV exibiu ao vivo imagens de brasileiros comemorando a derrota argentina, expondo os nomes de usuários na tela. A legenda identificava os brasileiros como estudantes da universidade pública UBA — uma imprecisão, já que a jovem estuda em instituição privada. Mas o erro não importou: nos comentários, a hostilidade se acendeu rapidamente, misturando xenofobia esportiva com o debate político sobre estrangeiros que usam serviços públicos argentinos.

As consequências foram imediatas e aterrorizantes. Suas redes sociais foram derrubadas. Depois vieram as mensagens: ameaças de morte com detalhes explícitos de violência, fotos de armas de fogo, ataques racistas chamando brasileiros de "macacos" e, mais perturbador, a exposição do seu endereço residencial. "Minha família e eu estamos com medo até de sair de casa", relatou a jovem, que pediu para não ser identificada.

Apesar do terror, ela foi categórica: não vai embora. Está no quarto ano de medicina e afirmou que só retorna ao Brasil com o diploma em mãos. Ela planeja registrar as ameaças na polícia, buscar apoio da Embaixada do Brasil em Buenos Aires e avaliar ação judicial contra a Crónica TV, que não respondeu aos pedidos de comentário. O caso expõe com brutalidade a velocidade com que a exposição midiática irresponsável pode transformar uma celebração esportiva em perseguição real contra imigrantes.

No domingo à noite, quando a Espanha derrotou a Argentina por 1 a 0 na prorrogação da final da Copa do Mundo, uma estudante brasileira que vive em Buenos Aires fez o que muitos torcedores fazem: comemorou nas redes sociais. Em um dos posts, ela aparecia usando uma camisa argentina mas brincava que estava "de mufa" — a expressão local para alguém que traz azar. Em outros, simplesmente celebrava a vitória espanhola. Ninguém poderia ter previsto que essa comemoração desencadearia uma onda de ameaças de morte, mensagens racistas e o medo de sair de casa.

O que transformou uma brincadeira de torcedor em perseguição foi a decisão da emissora argentina Crónica TV de exibir, em um programa ao vivo na segunda-feira, imagens de brasileiros comemorando a derrota argentina nas redes sociais. A cobertura não apenas mostrou os posts — também expôs os nomes de usuários. A legenda que acompanhava a exibição identificava os brasileiros como "estudantes da UBA" que haviam torcido pela Espanha. Era impreciso: a jovem que sofreu as ameaças estuda em uma universidade privada, não na instituição pública mencionada. Mas a imprecisão não importou para o que viria a seguir.

Nos comentários da publicação, usuários argentinos começaram a atacar imigrantes que estudam gratuitamente no país — uma crítica que não se aplicava a ela, mas que criou o clima para o que viria. Outros exigiam que estrangeiros pagassem por serviços públicos. A jovem, que pediu para não ser identificada, viu suas redes sociais serem derrubadas. Depois vieram as mensagens. "Recebi ameaças de morte, linchamento, dizendo que vão me encontrar na rua e me matar," relatou. "Acharam o meu documento argentino com o endereço. Até foto de arma recebi. Minha família e eu estamos com medo até de sair de casa."

As ameaças eram específicas e perturbadoras. Uma mensagem dizia: "Vou bater na sua cabeça com um martelo quando você chegar em casa e, com esse mesmo martelo, vou matar todos os seus animais de estimação." Outra: "Volte para o seu país para estudar; você vai acabar dentro de um saco de cadáver." Havia também ataques racistas, com pessoas chamando brasileiros de "macacos", acusações de ingratidão e ameaças de denunciá-la ao governo para deportação. Uma mensagem simplesmente dizia: "Na Argentina, a gente não está de brincadeira", acompanhada da foto de uma arma de fogo. A reportagem descobriu que essa imagem havia sido publicada no Reddit um ano antes por alguém que havia registrado uma pistola Browning Hi-Power — a foto havia sido reutilizada como ameaça.

A estudante insistiu que nunca desrespeitou a Argentina. "Em nenhum momento postei nada desrespeitando a bandeira ou a nação. Pelo contrário, até postei que sou extremamente agradecida e amo o país," disse. Ela mora no país há quatro anos e está no quarto ano de medicina. Apesar do medo e das ameaças, ela não pretende partir. "Só volto para o Brasil com o meu diploma," afirmou.

A jovem planeja registrar as ameaças na polícia, procurar a Embaixada do Brasil em Buenos Aires e avaliar ação judicial contra a Crónica TV. Nas redes sociais, outros brasileiros também relataram ter sido expostos pela emissora. O g1 procurou a Crónica TV para comentar o caso, mas não recebeu resposta. O que começou como uma comemoração desportiva se transformou em um episódio que expõe as tensões entre imigrantes e argentinos, e a velocidade com que a exposição pública pode se converter em perseguição real.

Recebi ameaças de morte, linchamento, dizendo que vão me encontrar na rua e me matar. Acharam o meu documento argentino com o endereço. Até foto de arma recebi. Minha família e eu estamos com medo até de sair de casa.
— Estudante brasileira que sofreu as ameaças
Em nenhum momento postei nada desrespeitando a bandeira ou a nação. Pelo contrário, até postei que sou extremamente agradecida e amo o país.
— A mesma estudante
Want the full story? Read the original at G1 ↗
Contact Us FAQ