Brasil tem segunda maior reserva de terras raras e pode ser ator estratégico global

Esse potencial é condicionado. Não é automático.
Pesquisadora do Cebri explica que a produção de terras raras no Brasil depende de licenciamento, capital e viabilidade técnica.

Sob o solo brasileiro jaz uma das maiores concentrações de terras raras do planeta — substâncias que alimentam turbinas eólicas, veículos elétricos e arsenais militares no século 21. Um estudo técnico encomendado pelo Ministério de Minas e Energia revela que o Brasil detém 23,1% das reservas globais conhecidas, posicionando o país como segundo maior detentor mundial desses minerais estratégicos. A riqueza geológica existe; o que se debate agora é se a vontade política e o ambiente de investimento estarão à altura do momento histórico.

  • O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, com 23,1% do total global conhecido — minerais sem os quais a transição energética e a indústria de defesa simplesmente não avançam.
  • A corrida global por esses materiais já aquece capitais do mundo desenvolvido, e o país corre o risco de permanecer como exportador de potencial enquanto outros capturam o valor agregado da cadeia.
  • Projeções indicam capacidade de produzir 35 mil toneladas até 2030 e 75 mil até 2040, mas o caminho depende de licenciamentos, capital e rotas de processamento que ainda precisam ser provadas na prática.
  • Uma planta de separação com capacidade para 25 mil toneladas de óxidos por ano exigiria US$ 1,65 bilhão em investimento, com retorno de 11,8% ao ano no cenário base — atraente no limite, sem margem para imprevistos.
  • O estudo aponta que subvenção, depreciação acelerada e alívio tributário elevariam o retorno a 16,5% ao ano, tornando o setor genuinamente competitivo para o capital privado — mas a decisão política ainda está em aberto.

O Brasil ocupa a segunda posição mundial em reservas de terras raras, controlando 23,1% do total global conhecido. O dado emerge de um estudo técnico encomendado pelo Ministério de Minas e Energia ao Centro Brasileiro de Relações Internacionais, e não é meramente estatístico: essas substâncias são componentes essenciais de turbinas eólicas, motores elétricos, sistemas de armazenamento de energia e equipamentos militares. Em um mundo que disputa acesso a esses minerais, o Brasil surge como um tabuleiro ainda em aberto.

A pesquisadora sênior do Cebri, Rafaela Guedes, apresenta projeções ambiciosas mas cautelosas. Se os projetos já anunciados se concretizarem, o país pode alcançar 35 mil toneladas de concentrado de terras raras no início dos anos 2030 — cerca de 10% da produção mundial. A meta para 2040 é ainda maior: 75 mil toneladas anuais, equivalentes a um quinto da produção global projetada. Guedes, porém, adverte que esse potencial não é automático: depende de licenciamento ambiental, disponibilidade de capital e da viabilidade prática das rotas de processamento.

O estudo modelou o custo de uma planta de separação com capacidade para 25 mil toneladas de óxidos por ano: aproximadamente US$ 1,65 bilhão. Simulada ao longo de duas décadas, a operação entrega retorno de 11,8% ao ano no cenário mais conservador — números que funcionam tecnicamente, mas que deixam pouca margem para o investidor privado assumir riscos adicionais.

A conclusão do documento é direta: a geologia favorável não basta. São necessárias políticas públicas — subvenção ao investimento inicial, depreciação acelerada de ativos e alívio tributário — para elevar o retorno a 16,5% ao ano e tornar o setor genuinamente atrativo. O Brasil tem o recurso. A questão que permanece é se o governo está disposto a mobilizar instrumentos públicos para transformar uma vantagem geológica em posição estratégica real nas cadeias globais do século 21.

O Brasil senta à mesa de um jogo que está redefinindo o poder econômico global. Segundo um estudo técnico encomendado pelo Ministério de Minas e Energia e elaborado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais, o país controla 23,1% das reservas conhecidas de terras raras do planeta — a segunda maior concentração do mundo. Não é um número abstrato. Essas substâncias químicas são o coração invisível da economia verde: entram nas turbinas que geram energia eólica, nos motores dos carros elétricos, nos sistemas que armazenam energia e nos equipamentos de defesa que as potências militares dependem. Quem controla as terras raras controla, em boa medida, quem se move no século 21.

O ministério vê nessa riqueza geológica uma oportunidade de transformar o Brasil em ator estratégico nas cadeias globais de minerais críticos. A decisão de encomendar um estudo técnico robusto não foi casual. Trata-se de antecipar um debate que já está aquecido nas capitais do mundo desenvolvido — como garantir acesso a esses materiais sem depender de fornecedores únicos ou hostis. O Brasil, nesse contexto, é um tabuleiro em branco.

Rafaela Guedes, pesquisadora sênior do Cebri, oferece números que soam promissores. Se todos os projetos já anunciados saírem do papel conforme o planejado, o Brasil pode produzir 35 mil toneladas de concentrado de terras raras nos primeiros anos da década de 2030. Isso representaria 10% da produção mundial. A ambição cresce: até 2040, a meta é chegar a 75 mil toneladas anuais, o equivalente a um quinto da produção global projetada. Mas Guedes não deixa a euforia tomar conta. Há ressalvas importantes. Esse potencial não é automático. Depende de licenciamento ambiental, de capital disponível e de que as rotas de processamento funcionem na prática. Por isso a necessidade de uma estratégia clara.

O estudo mapeou o que seria necessário para viabilizar essa produção. Uma planta de separação de terras raras com capacidade de processar 25 mil toneladas de óxidos por ano custaria aproximadamente US$ 1,65 bilhão para ser instalada. Os pesquisadores testaram a operação dessa unidade ao longo de duas décadas em três cenários diferentes. No cenário mais conservador — usando preços de referência chineses e a tributação atual do país — o retorno anual ao acionista seria de 11,8%, com o investimento se pagando em pouco mais de dez anos. Os números funcionam, tecnicamente. Mas funcionam no limite do que atrai um investidor privado. Não há margem para erro, não há espaço para surpresas.

Aqui está o nó. O setor não vai decolar apenas com a geologia a seu favor. O estudo conclui que políticas públicas são necessárias para impulsionar a indústria brasileira de terras raras. O documento aponta três caminhos: subvenção de parte do investimento inicial, depreciação acelerada dos ativos e alívio tributário. Com essas medidas, o retorno ao acionista subiria para 16,5% ao ano — um patamar que começa a atrair capital privado de verdade. A pergunta que fica é se o governo está disposto a colocar dinheiro público em jogo para capturar uma fatia de um mercado que ainda está se formando. O Brasil tem o recurso. O que falta é decidir se quer usá-lo.

Esse potencial é condicionado. Ele depende de licenciamento, de capital e da viabilização das rotas de processo. Não é automático. Por isso que precisamos de estratégia.
— Rafaela Guedes, pesquisadora sênior do Cebri
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que terras raras importam tanto agora? Não é só minério?

Model

Não. São elementos químicos que entram em praticamente tudo que move a economia verde — turbinas eólicas, carros elétricos, baterias. Quem controla o fornecimento controla o ritmo da transição energética global.

Inventor

E o Brasil realmente tem tanto assim?

Model

Tem 23,1% das reservas conhecidas. Só um país tem mais. É uma posição de força que a maioria dos brasileiros nem sabe que possui.

Inventor

Então por que não está tudo resolvido?

Model

Porque ter o recurso no solo é uma coisa. Extrair, processar e vender com lucro é outra completamente diferente. Exige investimento pesado, licenças, tecnologia. E os números só fecham se o governo ajudar.

Inventor

Quanto o governo teria que colocar?

Model

Não é um valor fixo. É mais sobre como estruturar — subsídios, incentivos fiscais, depreciação acelerada. Pequenas alavancas que transformam um retorno de 11,8% ao ano em 16,5%. Isso faz a diferença entre um projeto que atrai capital privado e um que fica no papel.

Inventor

E se o Brasil não fizer nada?

Model

Continua tendo o recurso, mas outros países — que têm estratégia — vão capturar o valor. O Brasil fica como fornecedor de matéria-prima bruta, não como ator estratégico.

Inventor

Qual é o prazo?

Model

Até 2030 para começar a produzir em escala. Até 2040 para chegar aos 20% da produção mundial. Não é muito tempo para montar uma indústria do zero.

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