Brasil tem ouro enterrado, mas juros e déficit ameaçam aproveitar corrida por terras raras

Ter o minério no chão é apenas 10% do desafio
O professor Fernando Landgraf da USP resume o abismo entre ter recursos naturais e construir uma cadeia produtiva real.
Mark

Por que o Brasil não consegue simplesmente vender o minério bruto e deixar outros países processarem? Parece mais fácil.

Mimi

Porque vender bruto significa vender por R$ 10 o quilo e depois importar o componente processado por milhares de dólares. O valor real está no processamento, não no minério.

Luke

Mas qual é a evidência de que o Brasil conseguiria competir com a China em processamento? A China processa 270 mil toneladas por ano. O Brasil processa 20. Isso é uma diferença de escala que não se fecha em alguns anos.

Mimi

Verdade. Mas o governador de Goiás está negociando transferência de tecnologia justamente para isso. A questão é se o Brasil consegue manter essas negociações quando os juros estão em 15% ao ano.

Mark

Os juros são realmente o problema principal?

Luke

São um problema, mas não o único. A Nuclemon tentou verticalização nos anos 1960 e 1980 e fracassou. Não foi só por juros — foi por falta de continuidade política. O Brasil tem histórico de abandonar projetos estratégicos.

Mimi

E agora temos China que pode derrubar preços artificialmente a qualquer momento. Mesmo que o Brasil construísse a cadeia produtiva, Pequim poderia inviabilizar tudo.

Mark

Então o Brasil está preso?

Luke

Não está preso, mas está em uma posição muito frágil. Tem o recurso que o mundo quer, mas não tem a estabilidade macroeconômica, a infraestrutura ou o histórico de continuidade para aproveitar.

Mimi

E tem um prazo. Os investimentos começam em 2027 e 2028. Se o Brasil não resolver os juros e o déficit até lá, vai perder a oportunidade.

  • Brasil detém segunda maior reserva mundial de terras raras, com depósitos superiores a 500 milhões de toneladas
  • Investimentos previstos ultrapassam R$ 10 bilhões, com operações entre 2027 e 2028
  • Brasil processa 20 toneladas anuais de óxidos de terras raras; China processa 270 mil
  • Taxa Selic em 15% ao ano, a mais elevada em quase duas décadas
  • Minério de ferro responde por 63% das exportações do setor mineral brasileiro

Empresas americanas, canadenses e australianas investem mais de R$ 10 bilhões em projetos de extração de terras raras no Brasil, com operações previstas entre 2027 e 2028. O Brasil processa apenas 20 toneladas anuais de óxidos de terras raras, enquanto a China processa 270 mil, revelando o abismo tecnológico na cadeia produtiva.

O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, atraindo investimentos de potências globais, mas enfrenta riscos de repetir erros históricos ao exportar matéria-prima bruta em vez de construir cadeia produtiva integrada.

O Brasil guarda embaixo da terra aquilo que o mundo inteiro quer. Empresas dos Estados Unidos, Canadá e Austrália estão em corrida para garantir posição nas reservas brasileiras de terras raras e minerais críticos — substâncias que entram em tudo, de um smartphone até sistemas de defesa militar. Os investimentos previstos já ultrapassam R$ 10 bilhões, e as operações devem começar entre 2027 e 2028. Mas há um problema que persegue o Brasil há décadas: o país tem o hábito de vender o que sai do chão por uma fração do seu valor real, enquanto importa produtos processados por milhares de dólares.

A posição geográfica e geológica do Brasil no tabuleiro global mudou. Com a China restringindo suas exportações de terras raras, Washington e Bruxelas correm para reduzir a dependência de Pequim. Nesse vácuo, o Brasil se tornou peça central. Christopher Garman, diretor da consultoria Eurasia para o Brasil, observa que o país está em posição global muito melhor do que o próprio governo em Brasília consegue apreciar. A fragmentação das cadeias produtivas mundiais e a disputa entre potências colocaram o país no centro de um jogo geopolítico de alto risco.

O tamanho das reservas brasileiras é impressionante. O país detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, com depósitos que combinam abundância e viabilidade técnica de extração. A Cabo Verde Mineração, no sul de Minas Gerais, identificou reservas superiores a 500 milhões de toneladas em uma área de 91 mil hectares. São argilas iônicas, um tipo de solo que facilita a extração, ao contrário das reservas em rocha dura comuns em outros países. Os testes indicaram recuperações de até 81,7% dos óxidos de terras raras — um índice alto para depósitos desse tipo. O conjunto se completa com o Colossus, em Poços de Caldas, descrito como o maior depósito de argila iônica do mundo; o complexo de Barreiro, em Araxá; e os projetos da Atlas Critical Minerals em Minas Gerais e Goiás.

O interesse estrangeiro é concreto e direto. A Development Finance Corporation, braço de financiamento ao desenvolvimento dos Estados Unidos, assinou um acordo de US$ 565 milhões com a mineradora Serra Verde para expandir a mina Pela Ema, em Goiás — a primeira mina de terras raras em operação comercial no Brasil. O caso foi apresentado como exemplar na Reunião Ministerial de Minerais Críticos convocada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, no início de fevereiro. Mas o interesse americano não é isolado. O presidente Lula assinou com o primeiro-ministro Modi um acordo sobre minerais críticos durante visita à Índia, contemplando cooperação no processamento e uso de inteligência artificial para análise de dados geológicos. Na Coreia do Sul, primeira visita de Estado de um presidente brasileiro ao país em 21 anos, foram assinados dez memorandos de entendimento em minerais estratégicos e inteligência artificial. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, viajou a Washington no início de fevereiro para apresentar o potencial mineral do estado e buscar acordos estratégicos. Em reuniões com a DFC e com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, Caiado defendeu parcerias que assegurem a transferência de tecnologia — condição para que Goiás não seja apenas um fornecedor de matéria-prima, mas também realize a separação e o processamento dos materiais localmente.

O abismo tecnológico, porém, é imenso. O Brasil processa cerca de 20 toneladas anuais de óxidos de terras raras separados, enquanto a China processa 270 mil. Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, é direto: ter o minério no chão é apenas 10% do desafio. O Brasil foca no subsolo enquanto o valor está no processamento e no refino. A China tomou uma decisão estratégica há décadas — dominar toda a cadeia produtiva das terras raras. É isso que falta ao Brasil. O entrave é também químico. Henrique Eisi Toma, do Instituto de Química da USP, explica que o termo "raras" se justifica pela dificuldade técnica de separação, não pela escassez física. O problema é que esses elementos estão presentes em concentrações muito baixas e têm grande similaridade química entre si, o que exige tecnologias avançadas para extração e refino. Sem dominar essa etapa, o Brasil segue importando até compostos básicos como o lantânio, insumo essencial para a indústria do petróleo.

Mas os problemas macroeconômicos ameaçam travar qualquer possibilidade de avanço. A taxa Selic está em 15% ao ano, a mais elevada em quase duas décadas, e 69% dos líderes empresariais ouvidos pela Amcham Brasil apontam o desequilíbrio fiscal como o maior risco aos negócios. Com esse custo, nenhuma fábrica que demora anos para dar retorno consegue fechar a conta. O investimento produtivo perde espaço para aplicações financeiras. Christopher Garman alerta que a incapacidade de Brasília em tratar os déficits mantém as taxas de juros reais em níveis proibitivos. Quando o governo busca o equilíbrio das contas apenas por meio do aumento da arrecadação, ele retira recursos que seriam destinados ao investimento privado — a verdadeira formação de capital — para sustentar despesas correntes de uma máquina estatal ineficiente. O dinheiro que deveria financiar infraestrutura vai para o custeio do Estado.

A infraestrutura brasileira também está no limite. O Instituto de Logística e Supply Chain aponta que o Brasil transporta hoje 25% mais carga do que há uma década, utilizando praticamente a mesma estrutura física. Esse quadro alimenta o Custo Brasil — o conjunto de ineficiências estruturais que encarecem a produção nacional — e torna o produto processado localmente menos competitivo do que o importado. Thomas Gautier, CEO da Freto, uma transportadora digital de cargas, alerta que sem estratégias de digitalização e modernização logística que reduzam custos, o país continuará sendo um simples espectador da onda tecnológica. Sem uma estratégia que integre rodovias, ferrovias e hidrovias, a vantagem geológica se anula.

E há ainda o risco externo mais difícil de controlar: a própria China. Pequim pode baixar os preços artificialmente para inviabilizar projetos em outros países, e já o fez no passado. O mercado de terras raras é volátil. A dependência histórica do setor mineral brasileiro em relação ao minério de ferro, que responde por 63% das exportações, mostra que concentração de pauta é um padrão, não uma exceção. Fernando Lins, pesquisador do Centro de Tecnologia Mineral, lembra que o Brasil já tentou a verticalização — a Nuclemon operou entre os anos 1960 e 1980, processando areia monazítica para extrair terras raras e produzir compostos de urânio e tório. A empresa sucumbiu à falta de continuidade política e à inviabilidade econômica frente ao mercado global. Ele afirma que a reorganização das cadeias globais de suprimentos exige mais do que minério: exige domínio tecnológico para agregar valor, algo ainda incipiente no Brasil. Esse movimento coloca o Brasil em posição singular: detentor de recursos que as grandes potências disputam. Tirar proveito disso, porém, exige segurança jurídica e previsibilidade regulatória — condições que o país ainda não oferece.

O Brasil está em uma posição global muito melhor do que o próprio governo em Brasília consegue apreciar
— Christopher Garman, diretor da consultoria Eurasia para o Brasil
A China tomou uma decisão estratégica há décadas: dominar toda a cadeia produtiva das terras raras. É isso que falta ao Brasil
— Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da USP
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