Em maio de 2022, o Brasil alcançou um marco paradoxal: o menor número de mortes mensais por Covid-19 desde o início da pandemia, com 3.176 óbitos — um alívio real, mas envolto em sinais de alerta. Enquanto os obituários diminuíam, os casos confirmados aceleravam, com a média móvel crescendo 48% em apenas duas semanas. A história da pandemia raramente se conta em um único número, e especialistas alertavam que a queda nos óbitos não deveria ser confundida com o fim da ameaça.
Brasil registra menor número de mortes por Covid em maio, mas casos sobem
A subnotificação deixou o país no escuro sobre a verdadeira onda
Como é possível celebrar o menor número de mortes em dois anos e ao mesmo tempo estar preocupado?
Porque mortes e casos não andam juntos no mesmo ritmo. Quando você tem muitos casos mas poucos óbitos, significa que as pessoas estão ficando doentes — só que não morrendo. Pode ser pela vacinação, pode ser pela variante ser menos letal. Mas ainda há risco.
E a subnotificação que a epidemiologista mencionou — o que muda com isso?
Muda tudo. Se você não sabe quantas pessoas realmente estão infectadas, não consegue prever o que vem a seguir. Os números oficiais de casos eram menores do que a realidade, então a verdadeira onda era maior do que parecia.
Por que São Paulo teve um aumento de 25% em mortes enquanto o resto do país caía?
São Paulo é o estado mais populoso, com maior densidade urbana. Quando há circulação viral, ela se concentra lá primeiro e com mais força. E o estado foi honesto em reportar — outros lugares podem ter subnotificação ainda maior.
A recomendação de máscaras em maio de 2022 — isso não era um passo para trás?
Não era retrocesso, era ajuste. A pandemia não tinha terminado. Havia sinais claros de que o vírus estava se movimentando novamente. Ignorar isso seria negligência.
E a vacinação? O Brasil estava bem vacinado?
Depende de como você conta. Se você olha para a primeira dose, parecia bem. Mas quando você inclui as doses de reforço — que eram necessárias contra as novas variantes — a cobertura caía muito. Muitos idosos e imunossuprimidos não tinham recebido a quarta dose.
Il Polso
- A média móvel de novos casos cresceu 48% em duas semanas e acumulava cinco dias consecutivos de alta — o maior volume em dois meses.
- São Paulo concentrou 1.061 mortes em maio, um aumento de 25% em relação a abril, tornando-se o único estado a ultrapassar mil óbitos no período.
- A positividade dos testes subia em várias cidades, as internações cresciam e o índice de contágio (Rt) acelerava — três sinais simultâneos de mudança no padrão da pandemia.
- A subnotificação de casos deixava o país operando às cegas sobre a verdadeira dimensão da onda, segundo a epidemiologista Ethel Maciel.
- A cobertura vacinal, quando recalculada para incluir doses de reforço e quarta dose, revelava índices insuficientes para conter a circulação do vírus.
- Diante do cenário, especialistas e o comitê de saúde de São Paulo recomendaram o retorno do uso de máscaras em ambientes fechados.
Em maio de 2022, o Brasil alcançou um marco paradoxal: o menor número de mortes mensais por Covid-19 desde o início da pandemia, com 3.176 óbitos — um alívio real, mas envolto em sinais de alerta. Enquanto os obituários diminuíam, os casos confirmados aceleravam, com a média móvel crescendo 48% em apenas duas semanas. A história da pandemia raramente se conta em um único número, e especialistas alertavam que a queda nos óbitos não deveria ser confundida com o fim da ameaça.
Maio de 2022 trouxe um paradoxo ao Brasil: o menor número de mortes mensais por Covid-19 desde o início da pandemia, com 3.176 óbitos — queda expressiva em relação aos 3.691 de abril. Os dados foram compilados pelo consórcio de veículos de imprensa a partir das secretarias estaduais de Saúde.
Mas a queda nos óbitos escondia uma história mais inquieta. A média móvel de novos casos crescia há cinco dias consecutivos e era 48% maior do que duas semanas antes — o maior volume em dois meses. A positividade dos testes subia, as internações aumentavam e o índice de contágio acelerava. Três indicadores apontando na mesma direção.
As disparidades regionais eram marcantes. O Acre não registrou nenhuma morte em maio; Roraima teve apenas uma. No outro extremo, São Paulo concentrou 1.061 óbitos — aumento de 25% em relação a abril e o único estado a ultrapassar mil mortes no mês. O comitê estadual de saúde recomendou o retorno das máscaras em salas de aula, escritórios e cinemas.
A epidemiologista Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo, apontou dois problemas estruturais: a subnotificação de casos deixava o país sem visibilidade real sobre a onda, e a cobertura vacinal — quando recalculada para incluir doses de reforço e a quarta dose para idosos e imunossuprimidos — revelava índices ainda insuficientes para conter o vírus. Sua conclusão foi direta: a queda nas mortes, embora bem-vinda, não era razão para baixar a guarda.
Maio de 2022 trouxe um marco sombrio e paradoxal para o Brasil: o país registrou seu menor número de mortes mensais por Covid-19 desde o início da pandemia, com 3.176 óbitos. Era menos que abril, que havia marcado 3.691 mortes, e drasticamente menor que março de 2020, quando apenas 202 pessoas haviam morrido — no início, quando ninguém sabia o que era a doença. Os dados foram compilados pelo consórcio de veículos de imprensa a partir das secretarias de Saúde estaduais.
Mas a queda nas mortes esconde uma história mais complexa. Enquanto o país celebrava números menores de óbitos, os casos confirmados estavam subindo. A média móvel de novos casos na última semana de maio era 48% maior do que havia sido apenas duas semanas antes, e continuava crescendo há cinco dias consecutivos. Era o maior volume de casos em dois meses.
A distribuição das mortes revelou disparidades regionais marcantes. O Acre foi o único estado sem registrar uma única morte em maio. Roraima teve apenas um óbito, e o Amazonas, dois. No outro extremo, São Paulo concentrou a maioria dos casos graves: 1.061 mortes, um aumento de 25% em relação a abril, quando havia 849. São Paulo foi o único estado a ultrapassar a marca de mil óbitos no mês. Diante disso, o comitê de saúde estadual recomendou o retorno do uso de máscaras em salas de aula, escritórios e cinemas. Outros estados permaneceram com números baixos: Amapá e Tocantins registraram 4 mortes cada, Maranhão teve 6, Sergipe 5, Alagoas e Piauí 10 cada, e a Paraíba 11.
A epidemiologista Ethel Maciel, professora titular da Universidade Federal do Espírito Santo, ofereceu uma explicação para essa desconexão entre mortes em queda e casos em alta. A subnotificação de casos deixou o país operando às cegas quanto à verdadeira dimensão da onda, disse ela. Mas havia sinais que não enganavam: a positividade dos testes estava subindo, com algumas cidades registrando 40% mais testes positivos. A média móvel de internações também crescia. E o ritmo de contágio — o chamado Rt — estava acelerando. Eram três indicadores apontando para uma mudança no comportamento da pandemia.
Maciel também chamou atenção para um problema na forma como o país media seu sucesso vacinal. Com a implementação de doses de reforço para adolescentes e da quarta dose para idosos e imunossuprimidos, a cobertura vacinal precisava ser recalculada levando em conta essas doses adicionais. Quando feito esse cálculo, os índices caíam significativamente — ainda insuficientes para conter a circulação do vírus.
Diante de todos esses elementos — a subnotificação mascarando a verdadeira escala, a cobertura vacinal inadequada para as doses necessárias por faixa etária, e os três sinais claros de mudança no padrão da pandemia — Maciel foi direta em sua recomendação: o Brasil precisava retomar o uso de máscaras em ambientes fechados. A queda nas mortes, embora real e bem-vinda, não era razão para baixar a guarda.
Citazioni salienti
A subnotificação deixou a gente no escuro, mas a gente já sabia que estava numa subida de casos— Ethel Maciel, epidemiologista da Universidade Federal do Espírito Santo
Tendo todos esses elementos — subnotificação, cobertura vacinal baixa e sinais de mudança no comportamento da pandemia — a gente precisa retomar a máscara em local fechado— Ethel Maciel