No primeiro domingo de outubro de 2022, 156 milhões de brasileiros exerceram o direito de voto numa eleição que, apesar da polarização profunda entre Bolsonaro e Lula, transcorreu em relativa tranquilidade. As autoridades registaram 474 crimes eleitorais — incluindo compra de votos, campanha ilegal e porte de armas —, prenderam 184 pessoas e apreenderam quase dois milhões de reais destinados ao suborno de eleitores. O episódio revela que a democracia, mesmo quando pressionada por vícios antigos, pode manter-se de pé — ainda que com cicatrizes visíveis.
Brasil registra 474 crimes eleitorais em votação que transcorre com tranquilidade
O dia estava a passar com calma e segurança
Porque é que 474 crimes eleitorais é considerado um número que permite dizer que tudo correu com "tranquilidade"? Não parece muito?
É uma questão de proporção. Com 156 milhões de eleitores e 577 mil urnas, o número de incidentes fica numa escala muito pequena. A maioria dos crimes foi compra de votos — algo que, infelizmente, é recorrente em eleições brasileiras. O que importa é que não houve caos, não houve violência generalizada.
Mas o relatório foi divulgado ao meio-dia. Faltavam ainda cinco horas de votação. Estes números são parciais, não finais. Não sabemos quantos crimes foram registados no total.
Verdade. Mas o tom das autoridades — incluindo o presidente do Tribunal Superior Eleitoral — sugeria que não havia sinais de deterioração. Se algo grave estivesse a acontecer, teríamos ouvido falar.
E as armas apreendidas? Nove armas num dia de eleições parece preocupante.
Novamente, é um número parcial. E não sabemos o contexto de cada apreensão. Foram apreendidas perto de centros de votação? Foram confiscadas de pessoas que tentavam intimidar? O relatório não especifica.
O que é claro é que o sistema eletrónico funcionou. Menos de 0,3% das urnas precisou de substituição. Isso é um indicador técnico sólido.
Então a "tranquilidade" é mais sobre a ausência de colapso do que sobre a ausência de crime?
Exatamente. Numa eleição polarizada como esta, o sucesso é que o processo decorra sem interrupções graves, mesmo que haja crimes pontuais.
E há ainda a questão de saber se estes números refletem a realidade completa. Quantos crimes não foram reportados? Quantas tentativas de compra de votos passaram despercebidas?
The Pulse
- Com 474 crimes eleitorais registados até ao meio-dia, a jornada eleitoral mais disputada dos últimos anos começou sob vigilância intensa das autoridades federais.
- A compra de votos — 115 casos documentados — e a apreensão de 1,9 milhões de reais expõem a persistência de práticas corruptas enraizadas na política brasileira.
- Apesar das detenções e apreensões, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral declarou que o dia decorria 'com calma e segurança', sinalizando que a ordem democrática resistia.
- Das mais de 577 mil urnas eletrónicas em funcionamento, apenas 0,27% precisaram de substituição, desmentindo meses de desconfiança pública no sistema de votação.
- Com onze candidatos em disputa e uma possível segunda volta a 30 de outubro, o Brasil permanecia suspenso entre a decisão e a incerteza ao cair da tarde.
No primeiro domingo de outubro de 2022, 156 milhões de brasileiros exerceram o direito de voto numa eleição que, apesar da polarização profunda entre Bolsonaro e Lula, transcorreu em relativa tranquilidade. As autoridades registaram 474 crimes eleitorais — incluindo compra de votos, campanha ilegal e porte de armas —, prenderam 184 pessoas e apreenderam quase dois milhões de reais destinados ao suborno de eleitores. O episódio revela que a democracia, mesmo quando pressionada por vícios antigos, pode manter-se de pé — ainda que com cicatrizes visíveis.
No domingo, 2 de outubro, enquanto 156 milhões de brasileiros se dirigiam às urnas para escolher o seu presidente, a Polícia Federal registava 474 crimes eleitorais até ao meio-dia — um número expressivo, mas que não impediu que o dia decorresse em clima de tranquilidade geral.
A natureza dos crimes revelava padrões conhecidos: 115 casos de compra de votos, 76 de campanha ilegal junto às assembleias de voto, 65 crimes cometidos dentro dos próprios centros de votação, e ainda casos de violação do sigilo do voto e transporte irregular de eleitores. As autoridades prenderam 184 pessoas e apreenderam 1,9 milhões de reais — cerca de 360 mil euros — alegadamente destinados ao suborno de votantes, incluindo um caso no estado do Amapá onde um suspeito foi detido com uma quantia substancial de dinheiro.
Do ponto de vista técnico, o processo eleitoral manteve-se praticamente intacto. Apenas 1.420 das 577.125 urnas eletrónicas necessitaram de substituição — uma taxa de 0,27% —, contrariando meses de críticas e desconfiança no sistema. Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, declarou após votar em São Paulo que o dia estava a passar 'com calma e segurança'.
A eleição decorria num contexto de polarização intensa entre os apoiantes de Jair Bolsonaro e os de Luiz Inácio Lula da Silva, com outros nove candidatos também em disputa. Além da presidência, o sufrágio definiria governadores, deputados, senadores e parlamentares regionais. Caso nenhum candidato ultrapassasse os 50% dos votos válidos, uma segunda volta estava marcada para 30 de outubro.
No domingo, 2 de outubro, enquanto 156 milhões de brasileiros se dirigiam às urnas para escolher presidente, a Polícia Federal registava um cenário que, apesar de tudo, permanecia sob controlo. Segundo boletim divulgado pelo Ministério da Justiça por volta do meio-dia, as autoridades haviam identificado 474 crimes eleitorais até àquele momento — um número que, embora significativo, não impediu que o dia transcorresse em clima de tranquilidade geral.
A natureza desses crimes revelava padrões conhecidos da política brasileira. Cento e quinze casos envolviam compra de votos, a prática mais comum. Setenta e seis ocorrências foram registadas como "boca de urna" — campanha junto aos locais de votação. Sessenta e cinco crimes foram cometidos dentro dos próprios centros de votação. Nove tentativas de violação do sigilo do voto foram documentadas, e dezasseis casos envolveram transporte irregular de eleitores. Para além disso, as autoridades apreenderam nove armas, prenderam 184 pessoas e confiscaram 1,9 milhões de reais — cerca de 360 mil euros — que alegadamente seria utilizado para subornar votantes. Um desses casos ocorreu no estado do Amapá, no norte do país, onde uma pessoa foi detida perto de um centro de votação portando uma quantidade substancial de dinheiro.
O funcionamento técnico do processo eleitoral, porém, manteve-se praticamente intacto. De acordo com boletim do Tribunal Superior Eleitoral, apenas 1.420 das 577.125 urnas eletrónicas espalhadas por 5.570 cidades necessitaram de substituição — uma taxa de apenas 0,27%. O sistema de votação, que havia sido alvo de críticas e desconfiança nos meses anteriores, funcionou sem grandes perturbações.
A eleição decorria num contexto de polarização intensa. De um lado, os apoiantes do presidente Jair Bolsonaro, que buscava a reeleição. Do outro, os eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores. Além destes dois candidatos principais, nove outros concorriam à presidência: Ciro Gomes, Simone Tebet, Luís Felipe D'Ávila, Soraya Tronicke, Eymael, Padre Kelmon, Leonardo Pericles, Sofia Manzano e Vera Lúcia. Apesar da tensão política subjacente, Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, declarou aos jornalistas após votar em São Paulo que o dia estava a passar "com calma e segurança".
Uma mudança logística marcava estas eleições: todas as assembleias de voto abriram simultaneamente às 8 da manhã, horário de Brasília, subordinando-se a um único fuso horário nacional. Os eleitores teriam até às 17 horas de Brasília para exercer o seu direito de voto.
Além da presidência, o sufrágio definiria os governadores dos 27 estados, renovaria os 513 membros da Câmara dos Deputados, elegeria 27 senadores e dezenas de parlamentares para as assembleias legislativas regionais. Se nenhum candidato presidencial ultrapassasse 50% dos votos válidos, os dois mais votados regressariam às urnas numa segunda volta marcada para 30 de outubro.
Notable Quotes
O dia estava a passar com calma e segurança— Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral