Acreditam no valor da igualdade, mas negam as desigualdades que estabelecem
Há uma fratura silenciosa na consciência coletiva brasileira: a maioria reconhece o racismo como força estrutural que molda as desigualdades do país, mas recusa-se a enxergar sua própria participação nesse sistema. Uma pesquisa da Ipec, encomendada pelo Instituto de Referência Negra Peregum e realizada com cerca de dois mil brasileiros em 2023, ilumina esse paradoxo com precisão perturbadora. O que está em jogo não é apenas a negação individual, mas a distância entre compreender uma injustiça em abstrato e ter coragem de reconhecê-la no próprio espelho.
- Oitenta e um por cento dos brasileiros admitem que o racismo existe e estrutura as desigualdades — mas apenas onze por cento reconhecem ter atitudes discriminatórias, revelando uma contradição que paralisa qualquer avanço real.
- A discriminação some quando se aproxima do cotidiano: a maioria não enxerga racismo no trabalho, na escola nem nos espaços de convivência, como se o problema existisse apenas em algum lugar distante e abstrato.
- Especialistas alertam que a invisibilidade da discriminação cotidiana — nos olhares, nas contratações, nos tons de voz — é exatamente o que impede a redução das desigualdades, pois o que não é nomeado não pode ser combatido.
- A educação aparece como o principal divisor: entre os mais velhos e os menos escolarizados, a capacidade de identificar o racismo como causa das desigualdades cai drasticamente, expondo gerações inteiras sem ferramentas críticas para reconhecer a discriminação.
- As cotas raciais têm aprovação de setenta e quatro por cento — um sinal de abertura —, mas pesquisadores advertem que apoiar uma política não equivale a compreender o racismo que a torna necessária.
- O verdadeiro desafio apontado pela pesquisa não é convencer os brasileiros de que o racismo existe, mas fazê-los perceber que eles próprios habitam e reproduzem essa realidade.
Uma pesquisa realizada pela Ipec a pedido do Instituto de Referência Negra Peregum ouviu cerca de dois mil brasileiros e encontrou um paradoxo que desconforta: oitenta e um por cento acreditam que o racismo existe e é o principal motor das desigualdades sociais no país. Mas quando a pergunta se volta para o próprio entrevistado, apenas onze por cento admitem ter atitudes discriminatórias.
Essa fratura se aprofunda quando se olha para os espaços concretos da vida. A maioria não percebe racismo no trabalho, na escola nem nos ambientes de convivência diária. Para a antropóloga Lia Zanotta Machado, da Universidade de Brasília, é como se dois Brasis operassem em paralelo: um que se reconhece racista quando visto de longe, e outro que se nega quando olhado de perto. As pessoas declaram acreditar na igualdade, mas não identificam os gestos cotidianos que reproduzem hierarquias.
Márcio Black, coordenador do Instituto Peregum, aponta que falta à população a capacidade básica de nomear o racismo nas relações pessoais. A violência racial explícita é percebida, mas a discriminação que se esconde em decisões, olhares e tons de voz permanece invisível — e essa invisibilidade, segundo ele, é o maior obstáculo ao avanço real.
A escolaridade revela o tamanho do problema: entre os brasileiros com sessenta anos ou mais, apenas onze por cento identificam o racismo como causa central das desigualdades. Entre os que têm apenas o ensino fundamental, oito por cento. Gerações inteiras cresceram sem acesso a uma formação crítica sobre raça e discriminação.
Há um dado que acende alguma esperança: setenta e quatro por cento aprovam as cotas raciais. Mas os pesquisadores advertem que essa aprovação não dispensa o investimento urgente em educação antirracista, em campanhas de conscientização e na participação efetiva dos movimentos negro, indígena e quilombola na construção de políticas públicas. Fazer as pessoas acreditarem que o racismo existe já não é o desafio — o desafio é fazê-las reconhecer que são parte dele.
Oitenta e um por cento dos brasileiros acreditam que o racismo existe no país e que ele é o principal responsável pelas desigualdades sociais. Mas quando a pergunta muda de direção — quando passa a ser sobre eles mesmos — apenas onze por cento admitem ter atitudes discriminatórias. Esse abismo entre o que se vê nos outros e o que se nega em si é o achado mais perturbador de uma pesquisa encomendada pelo Instituto de Referência Negra Peregum e realizada pela Ipec, que ouviu aproximadamente dois mil pessoas com mais de dezesseis anos em todas as regiões do país.
O paradoxo vai além. A mesma população que reconhece o racismo como problema estrutural não consegue nomeá-lo onde vive. Setenta e sete por cento não percebem racismo no ambiente de trabalho. Sessenta e sete por cento não o veem na escola. Sessenta e um por cento não o identificam nos espaços onde convivem. Existe, portanto, uma desconexão profunda entre a compreensão abstrata de que o Brasil é um país racista e a incapacidade de reconhecer a discriminação nas relações cotidianas, nas interações diárias, nos pequenos gestos que reproduzem hierarquias.
Para a antropóloga Lia Zanotta Machado, professora emérita da Universidade de Brasília, isso representa uma contradição fundamental da consciência brasileira. As pessoas afirmam acreditar no valor da igualdade, no dever moral de tratamento igualitário, mas simultaneamente negam que, no dia a dia, estabeleçam valores desiguais e hierárquicos. É como se houvesse dois Brasis operando em paralelo: um que se reconhece racista quando visto de longe, outro que se nega quando olhado de perto.
Márcio Black, coordenador de projetos do Instituto de Referência Negra Peregum, observa que falta à população uma compreensão básica de como nomear e identificar atos de racismo nas relações pessoais. A violência racial física, quando ocorre em escala ampla ou atinge figuras públicas, é percebida. Mas a discriminação cotidiana, aquela que se reproduz em conversas, em decisões de contratação, em olhares, em tom de voz — essa permanece invisível. E essa invisibilidade, como Black ressalta, dificulta qualquer avanço real na redução das desigualdades.
A pesquisa também revela que a educação funciona como divisor de águas. Quarenta e quatro por cento da população consegue identificar o racismo como principal fator gerador de desigualdade social. Mas entre aqueles com sessenta anos ou mais, apenas onze por cento chegam a essa conclusão. Entre os que completaram apenas o ensino fundamental, oito por cento. Essa geração não recebeu informações sistemáticas sobre questões raciais e sociais durante sua formação escolar e, consequentemente, tem dificuldade em construir uma análise crítica do que seja discriminação pela cor da pele.
Black é enfático: a educação amplia o entendimento sobre racismo, questiona imposições e estruturas de status. Por isso, avançar em políticas de educação antirracista no país é urgente. Curiosamente, quando perguntados se as políticas públicas atuais são suficientes contra a desigualdade social, quarenta e cinco por cento responderam que sim — o que, segundo Black, indica que as pessoas não conseguem entender qual é o papel real das políticas públicas no combate ao racismo.
Há, porém, um ponto de luz nos dados. As cotas raciais, uma das políticas mais conhecidas pela igualdade de oportunidades, têm aprovação de setenta e quatro por cento entre os entrevistados. Ainda assim, a pesquisa aponta que essa aprovação não diminui a necessidade urgente de investir em educação antirracista, de promover campanhas de conscientização sobre as formas de discriminação e de estimular a participação efetiva do movimento negro, indígena e quilombola na criação de políticas públicas. O desafio, portanto, não é apenas fazer as pessoas acreditarem que o racismo existe — elas já acreditam. O desafio é fazer com que vejam a si mesmas dentro dessa realidade.
Notable Quotes
Você acredita no valor da igualdade, no dever, mas, ao mesmo tempo, nega que no dia a dia várias vezes você estabelece valores desiguais e hierárquicos— Lia Zanotta Machado, antropóloga e professora emérita da UnB
A educação amplia o entendimento sobre o racismo, questiona imposições e status. Por isso, é urgente avançar em políticas para ampliar a educação antirracista no país— Márcio Black, coordenador de projetos do Instituto de Referência Negra Peregum
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como explicar que oitenta e um por cento reconheçam o racismo, mas apenas onze por cento admitam ter preconceito?
É uma negação que funciona em camadas. As pessoas conseguem ver o racismo como um problema histórico, estrutural, do país. Mas quando se trata de suas próprias ações, suas próprias escolhas, há uma resistência muito forte em admitir responsabilidade.
Você acha que é má fé ou falta de consciência?
Provavelmente os dois, em proporções diferentes para cada pessoa. Alguns realmente não conseguem nomear o que fazem como racismo porque nunca foram ensinados a reconhecer essas formas de discriminação. Outros sabem, mas preferem não admitir.
A pesquisa mostra que setenta e sete por cento não veem racismo no trabalho. Como isso é possível?
Porque o racismo cotidiano é invisível se você não foi treinado para vê-lo. É um olhar diferente na entrevista, uma promoção que não vem, um tom de voz, uma piada. Coisas que parecem pequenas, mas que se acumulam. Se você nunca aprendeu a nomear isso como racismo, passa despercebido.
Então a educação é realmente a chave?
Parece ser. Os dados mostram que pessoas com mais escolaridade conseguem identificar melhor o racismo como fator de desigualdade. Educação não resolve tudo, mas abre os olhos para ver o que estava ali o tempo todo.
E as cotas raciais têm setenta e quatro por cento de aprovação. Por que isso não está mudando a percepção?
Porque aprovação de uma política não significa compreensão do problema. As pessoas podem apoiar cotas sem entender por que elas são necessárias, sem reconhecer o racismo que as justifica. É um apoio que não vem acompanhado de consciência real.