Quem já se considera abaixo do cocô do cavalo não negocia
A derrota da seleção brasileira no último domingo ecoa, para o colunista Reinaldo Azevedo, muito além dos gramados: é o sintoma de uma nação que, por décadas, aprendeu a se submeter antes de negociar, a venerar a celebridade antes do talento, e a entregar seus recursos mais vivos — humanos e econômicos — às lógicas de um mercado que nunca foi seu. Com Marx e Freud como bússolas, Azevedo propõe que o futebol não é exceção ao Brasil, mas seu espelho mais fiel.
- A substituição de Martinelli por Neymar condensou em um gesto técnico toda a hierarquia invertida do futebol brasileiro: a marca sobreposta ao mérito, a celebridade engolindo o futuro.
- Endrick, jovem com potencial real, foi reduzido a coadjuvante de uma fraude publicitária que ainda hipnotiza comissões técnicas, patrocinadores e a própria imprensa.
- O Brasil exporta craques na infância como exportou pau-brasil na colônia — e os grandes clubes europeus já sabem onde estão nossos talentos antes que eles próprios o saibam.
- A CBF contratou Ancelotti sem exigências, porque quem se percebe abaixo de qualquer patamar não negocia: a submissão antecede qualquer cláusula.
- O jornalismo esportivo e econômico brasileiro pratica uma sujeição voluntária exemplar — chama o técnico de 'mister' sem questionar, e defende privatizações sem conseguir manter um craque sequer em solo nacional.
A derrota do último domingo, para Reinaldo Azevedo, não foi uma noite ruim — foi a manifestação visível de décadas de capitulação silenciosa. O colunista parte do jogo, mas rapidamente o abandona como tema central: o que lhe interessa é o que o jogo revela sobre a nação.
Ancelotti colocou Endrick em campo e a seleção pareceu despertar. Então tirou Martinelli e colocou Neymar. O futuro saiu; a marca ficou. Azevedo descreve Neymar como uma fraude publicitária que mesmeriza colegas e comissões técnicas há anos, enquanto Endrick — talento real, potencial acima da mediocridade — se torna seu subordinado simbólico.
Mas o argumento central é estrutural. O Brasil tem recursos para manter seus melhores jogadores no país. Não o faz porque está submetido a uma lógica internacional que compra nossos talentos na infância, como se fossem matéria-prima colonial. Marx explica a economia; Freud explica a psique. E Nelson Rodrigues, invocado duas vezes, fornece o diagnóstico cultural: o 'complexo de vira-lata', a vocação para 'ganir de humildade' antes mesmo de entrar em campo.
A CBF contratou Ancelotti sem exigir nada. Quem já se percebe abaixo de qualquer patamar não negocia — a submissão vem primeiro, as exigências nunca chegam. Azevedo chama isso de 'pacto com o fracasso': a certeza antecipada de que a redenção virá por meio de alguém cuja fortuna crítica se construiu mais fora do campo do que dentro.
A crítica se estende ao jornalismo econômico, que defende privatizações sem conseguir organizar a permanência de um craque sequer em solo nacional, e ao jornalismo esportivo, que chama Ancelotti de 'mister' sem questionar o peso colonialista da palavra. Entre a autonomia e a submissão, conclui Azevedo, não existe meio-termo — e o Brasil, por ora, escolheu o lado errado.
A derrota da seleção brasileira no último domingo não foi apenas um fracasso tático ou uma noite ruim em campo. Foi, segundo a lógica que o colunista Reinaldo Azevedo desenvolve ao longo de sua reflexão, a manifestação visível de algo muito mais profundo: uma nação que vendeu sua alma, peça por peça, ao longo de décadas.
Azevedo começa onde muitos colunistas terminam — com o jogo em si. Ancelotti, técnico contratado até 2030, colocou Endrick em campo e por um momento a seleção pareceu despertar. Mas então o treinador fez uma substituição que resumiu tudo: tirou Martinelli e colocou Neymar. O atacante que deveria ser o futuro desapareceu do jogo. O que permaneceu foi a celebridade que há anos vive mais da própria marca do que do talento dentro das quatro linhas. Endrick, um jovem atacante com potencial acima da mediocridade, tornou-se subordinado de uma fraude publicitária que, segundo Azevedo, mesmeriza seus colegas de time.
Mas por que isso importa além do futebol? Porque, argumenta o colunista, a economia e a conformação psíquica de uma nação determinam seu destino. Marx e Freud — dois pensadores que a extrema direita abomina — oferecem as chaves para entender o colapso brasileiro. O Brasil tem recursos econômicos suficientes para manter seus melhores jogadores no país, para construir uma estrutura que os mantivesse aqui. Não faz isso porque está submetido a uma lógica internacional de mercado que compra nossos talentos na infância, como se fossem pau-brasil sendo extraído da colônia. Os grandes clubes europeus já sabem onde estão nossos craques antes mesmo deles saberem quem são.
Há também a questão psicológica, aquela que Nelson Rodrigues chamou de "complexo de vira-lata". Quando a CBF contratou Ancelotti, não exigiu que ele mantivesse a seleção no patamar em que estava. Quem já se considera abaixo do cocô do cavalo do bandido, como escreve Azevedo com sua característica brutalidade, não tem condições nem de negociar. A submissão vem primeiro; as exigências, nunca. É o que Azevedo chama de "pacto com o fracasso", uma certeza antecipada de que a redenção virá depois, talvez através de um sujeito acusado de craque cuja fortuna crítica se fez mais fora do campo do que dentro dele.
O colunista invoca Nelson Rodrigues duas vezes. Na primeira, a crônica de 31 de maio de 1958, quando o Brasil embarcava para a Suécia e seu primeiro título mundial. Rodrigues escreveu sobre a "pátria de chuteiras", aquele momento em que sessenta milhões de brasileiros estariam de ouvido colado ao rádio, sofrendo cada jogada. Depois, na mesma crônica, Rodrigues fala da nossa vocação para "ganir de humildade". Azevedo contrasta isso com o momento presente: temos um técnico europeu contratado até 2030, temos Neymar com 34 anos ainda sendo chamado de "Menino Ney" pela imprensa, temos a submissão mascarada de profissionalismo.
A crítica se estende para além do futebol. O jornalismo econômico brasileiro, com raras exceções, paga pau para Faria Lima sem nem mesmo ser remunerado por isso. É um exemplo notável de sujeição voluntária. Os supostos economistas que opinam na imprensa grande querem privatizar tudo, mas não conseguem se organizar para manter talentos brasileiros no Brasil. Querem vender as chuteiras da pátria, e depois venderiam a própria pátria descalça. Azevedo, provocativamente, sugere que até o BNDES deveria ser mobilizado em favor da seleção, que a estatização da CBF seria preferível ao modelo atual onde patrocinadores ditam escolhas através de vias oblíquas.
No final, Azevedo volta a Ancelotti. O técnico afirmou em entrevista que é 100% certo que não é um gênio, mas também 100% certo que não é tonto. Azevedo apela à Bíblia: conhece-se a árvore pelos frutos. Não há dúvida de que Ancelotti não é um gênio. Mas há razões suficientes para duvidar que não seja um idiota. Sobre os brasileiros que respondem pelo desastre, não há dúvida nenhuma. E enquanto isso, o jornalismo esportivo nativo continua chamando Ancelotti de "mister", uma palavra europeia carregada de carga colonialista, sem nem questionar. Entre a autonomia e a submissão, não existe instância intermediária.
Notable Quotes
A economia e a conformação psíquica determinam o destino das nações— Reinaldo Azevedo
É 100% certo que não sou um gênio. Mas é 100% certo que não sou tonto— Carlo Ancelotti, em entrevista à Folha
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que você insiste em conectar a derrota de um jogo de futebol com economia política e Marx?
Porque a derrota não é sobre futebol. É sobre uma nação que não consegue manter seus próprios talentos. Isso é economia. É também psicologia — a forma como nos vemos a nós mesmos determina o que fazemos.
Mas Neymar marcou um gol. Endrick é jovem demais. Não é possível que um técnico experiente tenha cometido um erro tático simples?
Claro que é possível. Mas o erro tático é apenas a superfície. O que importa é por que um técnico contratado até 2030 acha que pode colocar uma celebridade de 34 anos acima de um talento emergente. Porque sabe que ninguém vai questionar. Porque estamos acostumados a nos submeter.
Você fala de "sujeição voluntária". Mas os jogadores querem sair do Brasil. Neymar ganhou muito mais na Europa. Como você força alguém a ficar?
Você não força. Você constrói uma estrutura econômica que torna possível ficar. O Brasil tem dinheiro. Tem recursos. Não faz isso porque está submetido a uma lógica internacional que já comprou nossos talentos antes deles nascerem.
E Ancelotti? Ele é realmente um idiota, ou você está sendo injusto?
Não estou sendo injusto. Estou sendo rigoroso. Nelson Rodrigues chamou Pelé de rei aos 17 anos porque Pelé se sentia rei. Ancelotti colocou Neymar em campo e Endrick desapareceu. Os frutos falam.
O que você quer que mude?
Que paremos de chamar técnico estrangeiro de "mister". Que o BNDES financie futebol como financia indústria. Que a CBF seja estatizada. Que deixemos de vender a pátria descalça. Que tenhamos autonomia em vez de submissão.