Brasil lidera opacidade digital em redes sociais, aponta estudo UFRJ-Cambridge

A opacidade digital facilita desinformação e fraudes que afetam toda a população brasileira, comprometendo integridade informacional e confiança pública.
A transparência é a exceção, não a regra
Pesquisa da UFRJ e Cambridge revela que grandes plataformas bloqueiam acesso a dados essenciais sobre conteúdo e publicidade.
Mark

Por que exatamente a falta de dados sobre publicidade importa tanto? Não é só uma questão de privacidade?

Mimi

Não. Privacidade é uma coisa. Auditoria é outra. Se você não consegue ver quem está comprando anúncios, quanto estão gastando e para quem estão direcionando, você não consegue detectar campanhas de desinformação coordenadas ou fraudes financeiras. É como tentar auditar um banco sem ver os registros de transação.

Mark

E por que o Brasil é tão pior que Europa e Reino Unido?

Mimi

Porque lá existem leis que obrigam. A Lei de Serviços Digitais europeia não pede gentilmente às plataformas que sejam transparentes. Ela exige. Aqui, não existe essa obrigação legal. As plataformas fazem o mínimo possível.

Mark

Mas a Meta tem a Biblioteca de Conteúdos. Não é algo?

Mimi

É algo, mas é insuficiente. É como oferecer um catálogo de livros em vez de deixar alguém entrar na biblioteca inteira. Pesquisadores precisam de acesso em larga escala para identificar padrões. Um catálogo curado pela própria empresa não serve para isso.

Mark

E quanto ao X? Ele oferece acesso, certo?

Mimi

Tecnicamente sim. Mas cobrou tanto pelas APIs que tornou a pesquisa independente financeiramente impossível para a maioria das instituições. É transparência de fachada.

Mark

Qual é o risco real para uma pessoa comum?

Mimi

Desinformação que não pode ser rastreada. Fraudes que não deixam pistas. Campanhas políticas que operam nas sombras. Quando ninguém consegue ver o que está acontecendo, quem sofre é o cidadão.

  • O Brasil figura como o pior dos três territórios analisados — atrás da União Europeia e do Reino Unido — em transparência de dados de redes sociais, segundo pesquisa publicada em agosto de 2026.
  • Meta, TikTok, WhatsApp, Kwai, Discord e Threads simplesmente não disponibilizam dados de publicidade ou conteúdo para monitoramento independente no país, enquanto oferecem acesso significativo em outras regiões.
  • A ausência de uma lei equivalente à Lei de Serviços Digitais europeia deixa as big techs sem qualquer obrigação legal de abrir seus dados no Brasil, criando um vácuo regulatório que favorece quem quer operar sem vigilância.
  • Sem acesso a dados, pesquisadores não conseguem rastrear como a desinformação se espalha nem auditar o mercado publicitário — um ambiente ideal para fraudes financeiras e manipulação informacional em larga escala.
  • Apenas Bluesky e YouTube receberam classificação 'significativa' para acesso programático a dados públicos em todas as regiões analisadas, evidenciando o quanto a transparência ainda é exceção no ecossistema digital global.

Em um mundo onde a informação circula em velocidade e escala sem precedentes, um estudo conjunto da UFRJ e da Universidade de Cambridge revela que o Brasil ocupa o lugar mais sombrio no mapa da transparência digital: as grandes plataformas de redes sociais operam aqui como caixas-pretas, sem obrigações legais que as forcem a abrir seus dados. A opacidade não é falha técnica — é escolha deliberada, e suas consequências recaem sobre toda uma sociedade exposta à desinformação e às fraudes que prosperam na ausência de escrutínio.

Uma pesquisa conjunta entre o NetLab da UFRJ e o Minderoo Centre for Technology and Democracy, da Universidade de Cambridge, analisou 15 plataformas de redes sociais na União Europeia, no Reino Unido e no Brasil. O relatório, intitulado "Data Not Found", chegou a uma conclusão incômoda: a transparência é a exceção, não a regra — e o Brasil é onde ela menos existe.

Em praticamente todos os casos estudados, pesquisadores, reguladores e organizações da sociedade civil encontram barreiras severas para acessar dados sobre conteúdo público e publicidade. Os autores chamam isso de "opacidade generalizada" e deixam claro que não se trata de um acidente de design, mas de uma escolha. Uma escolha com consequências: sem rastreamento, a desinformação se espalha mais rápido; sem auditoria, as fraudes prosperam.

O contraste entre regiões é revelador. Na União Europeia e no Reino Unido, regulações como a Lei de Serviços Digitais obrigam as plataformas a abrir seus dados. No Brasil, não existe obrigação legal equivalente. A Meta, por exemplo, oferece acesso "significativo" a dados de anúncios no Reino Unido, mas classifica seu acesso a conteúdo gerado por usuários no Brasil como "insignificante", restringindo tudo à sua própria ferramenta interna. TikTok, Kwai, WhatsApp, Discord e Threads simplesmente não disponibilizam nada. No X, o acesso existe em tese, mas as taxas cobradas tornam a pesquisa independente economicamente inviável.

Apenas Bluesky e YouTube obtiveram classificação consistentemente positiva para acesso programático a dados públicos em todas as regiões. Para um país com mais de 200 milhões de pessoas, isso é pouco. A falta de visibilidade sobre como a informação circula cria um ciclo difícil de romper: sem dados, não há investigação; sem investigação, não há responsabilização; sem responsabilização, o ciclo continua.

Uma pesquisa conjunta entre o NetLab da UFRJ e o Minderoo Centre for Technology and Democracy, da Universidade de Cambridge, mapeou como as grandes plataformas de redes sociais funcionam — ou melhor, como se recusam a funcionar — quando o assunto é transparência. O relatório, intitulado "Data Not Found: Transparência de redes sociais para a integridade da informação", analisou 15 plataformas espalhadas pela União Europeia, Reino Unido e Brasil. O que os pesquisadores encontraram foi um padrão perturbador: a transparência é a exceção, não a regra.

Em praticamente todos os casos estudados, pesquisadores, órgãos reguladores e organizações da sociedade civil enfrentam barreiras severas ou bloqueios totais para acessar dados essenciais sobre conteúdo público e publicidade. Essa "opacidade generalizada", como os autores a chamam, não é um acidente de design. É uma escolha. E essa escolha tem consequências reais. Quando ninguém consegue rastrear como a desinformação se espalha, ela se espalha mais rápido. Quando ninguém consegue auditar o mercado publicitário, fraudes prosperam.

O Brasil emerge do estudo como o pior cenário entre as três regiões analisadas. Enquanto a União Europeia e o Reino Unido contam com regulações robustas — como a Lei de Serviços Digitais europeia — que obrigam as plataformas a abrir seus dados, o Brasil não possui obrigações legais equivalentes. O resultado é que as big techs aqui simplesmente não abrem nada. A Meta, por exemplo, oferece acesso "significativo" a dados de anúncios no Reino Unido, mas classifica seu acesso a conteúdo gerado por usuários no Brasil como "insignificante". A empresa restringe tudo à sua própria ferramenta, a Biblioteca de Conteúdos, impedindo que pesquisadores independentes façam análises em larga escala.

Aplicativos massivos no Brasil — TikTok, Kwai, WhatsApp, Discord e Threads — simplesmente não disponibilizam dados de publicidade ou conteúdo para monitoramento público. Ponto. No X, antigo Twitter, existe a previsão legal de acesso aos dados, mas as taxas cobradas tornaram a pesquisa independente economicamente inviável. Além disso, a maioria dos repositórios de anúncios das grandes plataformas não permite buscas detalhadas por palavras-chave nem fornece informações precisas sobre quem foi atingido por um anúncio específico.

Apenas o Bluesky e o YouTube obtiveram classificação consistentemente "significativa" para acesso programático a dados públicos de conteúdo em todas as regiões. Para uma população de mais de 200 milhões de pessoas, isso é pouco. A falta de visibilidade sobre como a informação circula nas redes sociais cria um vácuo perfeito para a desinformação prosperar e para que fraudes financeiras ocorram sem deixar rastros auditáveis. Sem dados, não há como investigar. Sem investigação, não há responsabilização. E sem responsabilização, o ciclo continua.

A opacidade generalizada cria um ambiente propício para o retrocesso democrático, ao dificultar o rastreamento de redes de desinformação, e para fraudes financeiras
— Pesquisadores do NetLab UFRJ e Minderoo Centre for Technology and Democracy
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