Acordo permite conversões diretas entre real e yuan, oferecendo sistema alternativo opcional ao dólar para exportadores brasileiros. China é principal parceiro comercial do Brasil desde 2009, respondendo por 26,8% das exportações brasileiras em 2022.
Brasil e China reduzem uso do dólar; analista alerta para risco de retaliação dos EUA
Agora temos dois sistemas opcionais, não estamos mais totalmente subordinados
Por que exatamente esse acordo com a China é tão importante se as empresas podem simplesmente continuar usando o dólar?
Porque pela primeira vez temos uma escolha real. Enquanto havia apenas um caminho, estávamos presos. Agora, quando você tem opções, muda a dinâmica do poder.
Mas o dólar é mais rápido, mais estabelecido, mais seguro, não é?
Era. O sistema ocidental Swift é lento comparado ao que a China desenvolveu com blockchain. E "seguro" depende de quem controla a moeda. Se os EUA decidem congelar suas transações, você está vulnerável.
Você acha que os EUA vão retaliar?
Não acho, tenho certeza. Eles já fizeram isso antes. O dólar é o último pilar do poder americano. Quando você tira isso, eles reagem.
Como seria essa retaliação?
Ataques à nossa moeda, sabotagem econômica, pressão política. Já aconteceu. O governo precisa estar preparado, ter reservas, ter estratégias.
E o governo Lula está preparado?
Aí está o problema. Eles falam uma língua na economia — seguindo as regras ocidentais — e outra na política externa. Isso cria um choque. Você não pode estar meio dentro e meio fora.
Então o Brasil deveria escolher um lado?
Deveria escolher estar preparado. Seja qual for o lado que escolha, precisa estar pronto para as consequências.
O Pulso
- Acordo firmado em 29 de março permite transações diretas em reais e yuans
- China recebeu 26,8% das exportações brasileiras em 2022
- Banco Industrial e Comercial da China funcionará como câmara de compensação
- Sistema é opcional para empresas brasileiras
Acordo permite conversões diretas entre real e yuan, oferecendo sistema alternativo opcional ao dólar para exportadores brasileiros. China é principal parceiro comercial do Brasil desde 2009, respondendo por 26,8% das exportações brasileiras em 2022.
Brasil e China firmaram acordo permitindo transações comerciais diretas em reais e yuans, reduzindo custos e diversificando riscos geopolíticos, mas analista alerta para possível retaliação dos EUA.
Na quarta-feira de 29 de março, Brasil e China selaram um acordo que muda a forma como seus exportadores e importadores fazem negócios. Pela primeira vez, empresas brasileiras podem realizar transações comerciais diretas em reais e yuans, sem passar pelo dólar. O sistema é opcional — ninguém é obrigado a usá-lo — mas sua existência marca um ponto de inflexão. Onde antes havia apenas um caminho, agora há dois.
O acordo promete benefícios práticos imediatos. Reduz custos de transação entre os países e oferece proteção contra flutuações cambiais, tornando as taxas de câmbio mais previsíveis para ambos os lados. A secretária de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Tatiana Rosito, destacou essa dimensão econômica. Mas há algo maior em jogo, segundo David Deccache, economista formado pela Universidade Federal Fluminense e assessor parlamentar. Para ele, o ganho real é geopolítico: a diversificação do risco. "Agora temos dois sistemas opcionais para realizar operações, e não apenas um. Portanto não estamos mais totalmente subordinados à hegemonia do dólar", afirmou Deccache.
A China é o principal parceiro comercial do Brasil desde 2009. Em 2022, recebeu 26,8% de todas as exportações brasileiras e forneceu 22,3% de nossas importações — números que crescem. O acordo também traz uma dimensão tecnológica. O sistema de pagamentos ocidental Swift, usado há décadas, é lento. A China desenvolveu infraestrutura baseada em moeda digital do seu Banco Central, usando tecnologia blockchain, que oferece maior segurança e velocidade. Deccache vê nisso um avanço significativo: "Isso dá mais segurança e agilidade ao processo."
Mas há um lado sombrio nessa história. Os Estados Unidos usam o dólar como instrumento de poder econômico global — um privilégio que lhes garante vantagens significativas sobre o resto do mundo. Quando esse privilégio é questionado, Washington reage. A China já promove acordos similares com Arábia Saudita, Chile, Argentina e Rússia, parte de uma estratégia de longo prazo para reduzir sua vulnerabilidade ao dólar em um mundo de tensões geopolíticas crescentes. Deccache é direto: "O uso internacional do dólar é um privilégio exorbitante dos EUA [...] e último pilar do imperialismo norte-americano."
O economista alerta que o Brasil deve se preparar para o que virá. "A hegemonia do dólar é uma arma de terrorismo econômico utilizada pelos EUA", disse. "Estratégias de sabotagem econômica, como ataques a nossa moeda, podem voltar a acontecer e o governo precisa se preparar pra isso." Ele vê, porém, uma contradição no governo Lula: adota uma política econômica alinhada às normas ocidentais enquanto persegue uma política externa que questiona essa mesma ordem. "Eles se subordinam às diretrizes econômicas da ortodoxia ocidental, discutindo regras fiscais com base em padrões dos EUA, ao mesmo tempo em que discutem relações internacionais em outro padrão", observou.
O acordo com a China pode ser apenas o primeiro passo. Deccache vê o Brasil em um momento histórico de transição de poder global, onde as escolhas são claras: preparar-se para o conflito que existe ou ser apanhado desprevenido. "Em determinados momentos temos duas opções: ou adiar o conflito, ser pego despreparado para ele, e, logo, acabar sendo destruído; ou encarar que o conflito existe e se preparar para ele." O Banco Industrial e Comercial da China funcionará como câmara de compensação do novo sistema. O que acontece agora dependerá de como o Brasil navega essa encruzilhada geopolítica.
Citações Notáveis
O maior ganho do acordo é a diversificação do risco geopolítico. Agora temos dois sistemas opcionais para realizar operações, e não apenas um.— David Deccache, economista
A hegemonia do dólar é uma arma de terrorismo econômico utilizada pelos EUA. Estratégias de sabotagem econômica podem voltar a acontecer e o governo precisa se preparar.— David Deccache, economista