Em Melbourne, pesquisadores da RMIT encontraram no resíduo mais cotidiano das cidades — a borra de café — uma resposta inesperada para dois problemas que a construção civil carrega há décadas: a dependência de areia de rio e o peso ambiental do concreto. Ao carbonizar a borra a 350°C, transformaram um descarte em biochar capaz de substituir 15% da areia e aumentar a resistência do concreto em quase 30%. A descoberta não resolve tudo de uma vez, mas aponta para aquilo que a engenharia sustentável busca há anos: um ciclo em que o refugo de uns se torna o alicerce de outros.
Borra de café carbonizada aumenta resistência do concreto em 29,3%
Resíduo que vai para o aterro vira material mais resistente
Por que a temperatura de 350 graus é tão importante? Parece um detalhe técnico, mas o resultado muda completamente em 500 graus.
Porque a carbonização é um processo muito específico. A 350 graus, a borra se transforma em um biochar poroso e quimicamente estável. A 500 graus, o material fica frágil, com microfissuras. É a diferença entre um material que funciona e um que não funciona.
Mas quem garante que essa temperatura é replicável em escala industrial? O laboratório consegue controlar isso perfeitamente, mas uma fábrica de biochar operando 24 horas por dia, com variações de umidade e tipo de café? Isso ainda não foi testado.
E quanto ao Brasil? Temos café de sobra e borra de café de sobra. Por que isso não está sendo feito aqui?
O Brasil tem o potencial, mas falta a infraestrutura de coleta e processamento. A borra está espalhada em milhões de cafeterias, padarias e casas. Reunir isso tudo, transportar, processar — exige um sistema que ainda não existe.
Além disso, o estudo foi feito na Austrália, com pesquisadores australianos. Não há nenhuma confirmação de que o processo funciona igual com café brasileiro, que tem composição diferente.
Os números de redução de carbono são impressionantes. 26% de corte nas emissões. Isso é suficiente para justificar a mudança?
É um ganho real, mas precisa ser colocado em contexto. Estamos falando de substituir 15% da areia. A construção civil usa bilhões de toneladas de concreto por ano. Mesmo que 26% de redução soe bem, o impacto global depende de quanto dessa tecnologia consegue ser adotado.
E ninguém está medindo o custo energético de carbonizar 10 bilhões de quilogramas de borra de café por ano. Se você precisa queimar combustível fóssil para aquecer a borra a 350 graus, quanto desse ganho de carbono você está realmente conseguindo?
Qual é o próximo passo? Quando vamos ver isso em obras de verdade?
Já começou. Eles testaram em uma calçada real em Melbourne. Mas agora é questão de tempo e durabilidade. Precisam de anos de dados, não de meses.
E mesmo que a calçada em Melbourne funcione perfeitamente, isso não prova nada sobre como o material vai se comportar em um clima tropical como o do Brasil, ou em estruturas de alta carga, como pontes ou edifícios. O laboratório testou compressão. Ninguém testou tração ou cisalhamento ainda.
The Pulse
- A borra de café in natura destrói o concreto — libera compostos orgânicos que sabotam a reação do cimento, tornando a mistura mais fraca em vez de mais forte.
- A carbonização controlada a 350°C é o passo crítico que transforma o problema em solução, produzindo um biochar estável que se integra à matriz do concreto sem interferir na pega.
- Com 15% de areia substituída pelo biochar, o concreto ganha 29,3% de resistência à compressão e corta 26% das emissões de carbono — números que chamaram atenção da indústria global.
- O Brasil, maior produtor mundial de café, tem volume expressivo de borra descartada sem aproveitamento, mas a logística de coleta em escala industrial ainda não existe.
- O primeiro teste em calçada pública já foi realizado, mas durabilidade em décadas, variabilidade da matéria-prima e viabilidade energética da carbonização em larga escala ainda aguardam confirmação.
Em Melbourne, pesquisadores da RMIT encontraram no resíduo mais cotidiano das cidades — a borra de café — uma resposta inesperada para dois problemas que a construção civil carrega há décadas: a dependência de areia de rio e o peso ambiental do concreto. Ao carbonizar a borra a 350°C, transformaram um descarte em biochar capaz de substituir 15% da areia e aumentar a resistência do concreto em quase 30%. A descoberta não resolve tudo de uma vez, mas aponta para aquilo que a engenharia sustentável busca há anos: um ciclo em que o refugo de uns se torna o alicerce de outros.
Pesquisadores da Universidade RMIT em Melbourne descobriram que a borra de café, submetida a carbonização controlada, pode substituir parte da areia no concreto e aumentar sua resistência em 29,3%. O estudo, publicado no Journal of Cleaner Production em 2023, partiu de um obstáculo concreto: misturar borra in natura ao cimento simplesmente não funciona, pois os compostos orgânicos liberados interferem na reação de endurecimento e enfraquecem a mistura.
A solução foi aquecer a borra a 350°C em ambiente sem oxigênio — um processo de carbonização que produz biochar, material rico em carbono, poroso e quimicamente estável. Esse biochar se integra bem à matriz do concreto e, na proporção de 15% em substituição à areia, entrega o melhor desempenho. A temperatura importa: biochar produzido a 500°C apresentou microfissuras e desempenho inferior.
Substituir areia não é detalhe menor. A construção civil depende da areia de rio — com grãos angulares que aderem ao cimento — extraída em escala que já preocupa organismos internacionais. O mundo consome 50 bilhões de toneladas de areia natural por ano. Ao mesmo tempo, só a Austrália descarta 75 mil toneladas de borra de café anualmente em aterros; globalmente, o volume chega a 10 bilhões de quilogramas. O Brasil, maior produtor mundial de café, tem potencial expressivo, embora a logística de coleta em escala industrial ainda precise ser estruturada.
Um estudo de ciclo de vida divulgado em 2025 acrescentou que a substituição de 15% da areia pelo biochar reduz em 26% as emissões de carbono da mistura. A equipe já realizou o primeiro teste em calçada pública do mundo com esse material, expondo-o a tráfego real, intempérie e variação de temperatura. Ainda assim, os próprios pesquisadores reconhecem que durabilidade em décadas, comportamento sob diferentes tipos de carga, variabilidade da composição da borra e viabilidade energética da carbonização industrial precisam ser confirmados antes que o concreto de café chegue às obras em larga escala.
Pesquisadores da Universidade RMIT em Melbourne descobriram que um resíduo descartado diariamente em aterros sanitários pode tornar o concreto significativamente mais resistente. A borra de café, quando submetida a um processo específico de carbonização, substitui parte da areia na mistura de concreto e aumenta sua resistência à compressão em 29,3%. O estudo, publicado no Journal of Cleaner Production em 2023, transformou uma ideia que parecia improvável em um resultado mensurável e já testado em condições reais.
O desafio inicial era simples: misturar borra de café diretamente ao concreto não funciona. A borra in natura libera compostos orgânicos que interferem na reação química entre o cimento e a água, justamente o processo que faz o concreto endurecer e ganhar resistência. O resultado seria uma mistura mais fraca, não mais forte. A solução veio de um passo que parecia pequeno, mas foi crítico: a carbonização controlada. Os pesquisadores aqueceram a borra a 350 graus Celsius em um ambiente sem oxigênio. Sem oxigênio, o material não queima; ele carboniza, produzindo um biochar, um material rico em carbono, poroso e quimicamente estável. Esse biochar não interfere na pega do cimento, integra-se bem à matriz do concreto e, na proporção correta, melhora as propriedades mecânicas da mistura. A temperatura foi um fator crítico: biochar produzido a 500 graus apresentou microfissuras e estrutura mais frágil, resultando em desempenho inferior.
A proporção que produziu o melhor resultado foi a substituição de 15% do volume de areia pelo biochar. Nessa configuração, o concreto apresentou resistência à compressão 29,3% superior à mistura de controle sem biochar. Proporções menores também trouxeram ganhos, mas menores. A substituição de 5% e 10% de areia resultou em cortes de emissão de carbono de 15% e 23%, respectivamente, segundo um estudo de ciclo de vida conduzido pela mesma equipe em 2025. Substituir areia importa mais do que parece à primeira vista. A areia parece ser um recurso abundante, mas a construção civil não usa qualquer tipo de areia. A areia de deserto tem grãos arredondados demais para aderir bem ao cimento, então a indústria depende da areia de rio, com grãos angulares. Essa areia é extraída de leitos e margens de rios em escala enorme, e o impacto ambiental e a disponibilidade crescente de escassez já são reconhecidos por organismos internacionais. A RMIT cita o consumo global de 50 bilhões de toneladas de areia natural por ano na construção civil.
O volume de borra de café disponível para esse processo é relevante para avaliar o potencial real da descoberta. Só a Austrália produz cerca de 75 mil toneladas de borra de café por ano, a maioria descartada em aterros. No mundo todo, o volume é de aproximadamente 10 bilhões de quilogramas anuais. No Brasil, o cenário é igualmente significativo. O país é o maior produtor e o segundo maior consumidor de café do mundo. O volume de borra gerado em cafeterias, padarias, restaurantes, empresas e residências é expressivo e quase integralmente descartado sem aproveitamento. O potencial de captação desse resíduo para processamento industrial, embora exija logística de coleta ainda não estruturada, representa uma oportunidade concreta caso o processo escale para uso comercial.
Os próprios pesquisadores são cuidadosos ao avaliar o que ainda precisa ser comprovado antes de o concreto de café chegar às obras. O estudo mede resistência à compressão após 28 dias em condições de laboratório, que é o teste padrão da indústria para concreto fresco. Mas o desempenho real de um material estrutural se avalia em décadas, não em semanas, e sob condições que o laboratório não reproduz completamente. Durabilidade ao longo do tempo, com ciclos de molhagem, secagem e variação de temperatura que ocorrem em estruturas reais, ainda precisa ser confirmada. O comportamento sob diferentes tipos de carga, incluindo tração e cisalhamento, não apenas compressão, também permanece em questão. A variabilidade do material é outra incógnita: a borra de café muda de composição dependendo do tipo de grão, do processo de extração e da umidade na hora do descarte. A viabilidade energética do processo de carbonização em escala industrial também precisa ser verificada, para garantir que o calor necessário para produzir o biochar não cancele o ganho ambiental da substituição de areia.
A pesquisa já saiu do laboratório. A equipe da RMIT conduziu um teste em calçada real, o primeiro no mundo com concreto de biochar de café em condições de uso público. A iniciativa coloca o material em contato com variáveis reais de tráfego de pedestres, intempérie e variação de temperatura que o laboratório não consegue simular completamente. O estudo de ciclo de vida divulgado em novembro de 2025 acrescentou dados relevantes sobre emissões: substituir 15% da areia pelo biochar de café resultou em corte de 26% nas emissões de carbono da mistura, com redução também no uso de combustíveis fósseis ao longo de toda a cadeia de produção. Esses números, combinados com o ganho de resistência, posicionam o material como uma das apostas mais promissoras da construção civil sustentável para a próxima década, desde que os testes de durabilidade em campo confirmem o que o laboratório demonstrou.
Notable Quotes
A areia de rio é extraída em escala enorme, e o impacto ambiental e a disponibilidade crescente de escassez já são reconhecidos por organismos internacionais— Pesquisadores da RMIT, conforme relatado no estudo