Body positive perde força: ativistas que emagreceram enfrentam críticas do próprio movimento

Me cobram para seguir uma cartilha que elas próprias criaram
Beta Boechat explica como foi criticada por antigos apoiadores após emagrecer.
Mark

Por que as fundadoras do movimento decidiram emagrecer justamente quando ele estava em seu auge?

Mimi

Não foi uma decisão simultânea ou coordenada. Beta Boechat chegou a 220 quilos e perdeu mobilidade — era uma questão de saúde pessoal urgente. Alexandra Gurgel seguiu caminho diferente, mas ambas chegaram a um ponto onde o ativismo deixou de fazer sentido para suas vidas. O movimento exigia uma coerência que se tornou insuportável.

Mark

Elas foram traídoras do movimento ou o movimento as traiu?

Mimi

Talvez nenhuma das duas coisas. Beta e Alexandra dizem que nunca defenderam que as pessoas não pudessem emagrecer — o body positive era sobre liberdade, não sobre obrigação de permanecer gordo. O problema foi que muitos seguidores reinterpretaram a mensagem como um imperativo.

Mark

Como as marcas saíram do jogo?

Mimi

Quando Trump chegou ao poder, cortou verbas e apoio a iniciativas de diversidade nas empresas americanas. Isso ecoou globalmente, afetando filiais brasileiras. As marcas simplesmente pararam de investir. É mais fácil voltar ao padrão quando a pressão política muda.

Mark

As canetas emagrecedoras salvam ou matam o body positive?

Mimi

Salvam, segundo os médicos. Quebram o estigma de que gordura é fraqueza moral. Mas também tornam a conversa menos sobre aceitação e mais sobre solução farmacológica. É uma mudança de paradigma.

Mark

O movimento realmente morreu?

Mimi

Não. Apenas se transformou. Deixou de ser revolta nas ruas e virou autoestima no TikTok. Menos disruptivo, mais liberal. Dani Rudz continua falando sobre isso, mas o tom mudou.

Mark

E as pessoas que não conseguem acessar essas canetas?

Mimi

Continuam esperando. O medicamento é caro. Para elas, o body positive ainda é necessário — porque o estigma não desapareceu só porque as influenciadoras emagreceram.

  • Beta Boechat atingiu 220 quilos e realizou cirurgia bariátrica
  • Apenas 0,9% dos looks em desfiles de 2026 eram plus size, versus 4,4% em 2023
  • Movimento body positive teve auge entre 2019 e 2022 no Brasil
  • Políticas de Trump cortaram verbas para iniciativas de diversidade em empresas

Influenciadoras como Beta Boechat e Alexandra Gurgel, fundadoras do movimento Corpo Livre no Brasil, emagrecerem e deixaram de falar sobre body positive nas redes sociais. Passarelas reduziram drasticamente a inclusão de corpos plus size: apenas 0,9% dos looks em desfiles de 2026 eram plus size, versus 4,4% em 2023, refletindo fortalecimento do conservadorismo.

O movimento body positive, que pregava aceitação corporal, perdeu força nos últimos anos. Influenciadoras que fundaram o movimento no Brasil decidiram emagrecer e enfrentaram críticas de seguidores, enquanto marcas reduzem apoio à diversidade.

Dez anos atrás, enquanto influenciadoras exibiam dietas restritivas e corpos cada vez mais magros, um movimento contrário começou a ganhar força nas redes sociais de todo o mundo: o body positive, a ideia de que todos os corpos merecem aceitação e amor próprio, independentemente do tamanho ou forma. No Brasil, o movimento teve seu auge entre 2019 e 2022, com vozes diversas e corpos variados ocupando espaços que antes eram vedados. As marcas viram oportunidade de lucro e passaram a investir em campanhas de diversidade corporal. Mas nos últimos anos, especialistas apontam um enfraquecimento significativo do movimento em escala global. As passarelas oferecem menos espaço para corpos fora do padrão, e as empresas reduzem seu apoio a iniciativas sobre diversidade.

O que tornou a crise do body positive particularmente complexa foi o que aconteceu com seus próprios fundadores. Influenciadoras que construíram suas carreiras pregando aceitação corporal começaram a emagrecer, e quando o fizeram, enfrentaram críticas severas de seus antigos apoiadores. Nos Estados Unidos, Thubten Donme, modelo plus size e uma das vozes mais proeminentes do movimento, viu seus seguidores a atacarem quando começou a perder peso em 2023. No Brasil, Beta Boechat, de 36 anos, foi uma das primeiras a passar por essa experiência. Cofundadora do Corpo Livre, uma interpretação brasileira do movimento, Beta realizou uma cirurgia bariátrica após atingir 220 quilos, momento em que perdeu completamente sua mobilidade. Ela justificou a decisão publicamente, mas rapidamente se tornou alvo de críticas daqueles que a acompanhavam.

Beta argumenta que muitas pessoas nunca compreenderam realmente o que o body positive defendia. "Me cobram para seguir uma cartilha que elas próprias criaram para tentar me enquadrar", disse ela. "Eu nunca falei que as pessoas não poderiam emagrecer, muito pelo contrário." Para Beta, o movimento foi distorcido em uma mensagem de que engordar era o objetivo final, quando na verdade tratava-se de liberdade e aceitação. Ela deixou de falar sobre body positive nas redes e encontrou novo público com vídeos de humor e reações. Este ano, tornou-se apresentadora de um programa na Dia TV. Alexandra Gurgel, de 37 anos, outra cofundadora do Corpo Livre, viveu trajetória semelhante. Lançou dois livros sobre o tema, foi capa de revistas e se tornou uma das principais vozes do movimento no país. Mas também parou de falar sobre body positive. "Eu de fato achava que eu estava fazendo alguma diferença e eu sinto que eu fiz legal. Eu me senti culpada por um bom tempo quando eu saí disso. Mas chegou uma hora em que isso não fazia mais sentido pra minha vida", contou. Alexandra descreveu a experiência como cansativa, dizendo que se tornou "a militante perfeita, que não podia errar".

Os números das passarelas revelam a dimensão do recuo. Um relatório da Vogue Business analisando os principais desfiles de primavera e verão de 2026 mostrou que tamanhos padrão (34 a 40 no Brasil) corresponderam a 97,1% dos looks. Tamanhos médios representaram apenas 2%, enquanto roupas plus size ficaram em 0,9%. Comparado a 2023, quando havia cerca de 4,4% de inclusão de tamanhos médios e grandes, o retrocesso é evidente. A Vogue aponta que uma mudança cultural nos últimos dois anos, marcada pelo fortalecimento do conservadorismo, explica essa redução. A influenciadora Dani Rudz, de 50 anos, que trabalha com consultoria sobre diversidade para empresas, conecta isso diretamente às políticas do presidente americano Donald Trump. "Assim que o Trump assumiu, ele trabalhou fortemente para retirar verbas e apoio aos posicionamentos políticos com relação à diversidade nas empresas", explicou. "E isso afetou as empresas internacionais com sede no Brasil."

O pesquisador Dario Caldas, fundador da consultoria Observatório de Sinais, aponta que o body positive já vinha sendo afetado desde o fim da pandemia de covid-19. Naquele período, as pessoas buscaram vidas mais saudáveis e a obesidade foi ainda mais associada a práticas ruins como sedentarismo. "O problema do body positive é que ele esbarra na questão da saúde, da obesidade, então é aí que as coisas se chocam", disse. Para os ativistas, porém, sempre houve interpretação errônea do movimento. Dani Rudz explica que havia um segmento mais radical dentro do body positive, liderado por ativistas que adotavam postura disruptiva, mas que isso não representava o movimento como um todo. "O body positive em si é a aplicação de um respeito balanceado a diferentes corpos e tamanhos", afirmou.

Um novo fator entrou em cena: as canetas emagrecedoras. Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP, vê esses medicamentos como aliados da liberdade corporal. "Agora, as pessoas com dificuldades para emagrecer vão ter a possibilidade de chegar a um corpo, digamos, mais normalizado pela sociedade", disse. Ele argumenta que esses medicamentos ajudam a quebrar estigmas que acompanham pessoas gordas, como a ideia de que não emagrecem por falta de vontade. A endocrinologista Maria Edna de Melo, coordenadora da comissão de políticas públicas da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica, classifica o body positive como importante para pessoas gordas que enfrentam estigma constante. Ela defende que membros do movimento possam emagrecer. "Tem uma hora em que a doença pode pesar mais. E essas pessoas, como todo mundo, devem ter as suas decisões respeitadas", afirmou.

Os influenciadores que foram referência no body positive insistem que o movimento não acabou, apenas mudou de forma. Alexandra Gurgel observa que o que ensinaram ainda existe, mas sob nomes diferentes. "Se você olhar no TikTok, por exemplo, ele tem outro nome. Virou algo sobre a autoestima, sobre você se sentir bem consigo mesmo. É uma coisa mais liberal", disse. Dani Rudz continua como referência no body positive mesmo após emagrecer, publicando dicas sobre o mercado plus size. Ela nota que agora tem dois grupos de seguidores: aqueles que já usam as canetas emagrecedoras e os que almejam acesso ao medicamento, que ainda tem custo alto para a maioria dos brasileiros. "O body positive continua, ele sempre existiu e precisa existir, porque nós não somos iguais, somos diferentes e lutamos pelo respeito", afirmou. O que era um movimento de revolta parece ter se transformado em algo mais próximo de uma conversa sobre liberdade e escolha individual.

Eu nunca falei que as pessoas não poderiam emagrecer, muito pelo contrário. Mas o simples fato de alguém ir a público falar 'hoje eu estou bem com o meu corpo' era tão agressivo que as pessoas entendiam: por favor, almoce pizza e jante hambúrguer todo dia ou engorde.
— Beta Boechat, influenciadora e cofundadora do Corpo Livre
O body positive continua, ele sempre existiu e precisa existir, porque nós não somos iguais, somos diferentes e lutamos pelo respeito.
— Dani Rudz, influenciadora e consultora de diversidade
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