Em São Paulo, onde o espaço urbano raramente foi pensado para quem não enxerga, um projeto chamado Blind Sports transforma bicicletas de dois lugares em pontes entre mundos — unindo pessoas cegas e voluntários que se tornam, literalmente, seus olhos sobre o asfalto. Nascido em 2020 da necessidade e da teimosia de uma mulher que recusou deixar a deficiência ditar seus limites, o projeto desafia a suposição silenciosa de que corpos cegos devem permanecer quietos. Pedalar juntos, descobriu-se, é também um ato filosófico: exige confiança absoluta no outro, e devolve, em troca, autonomia e presença
Blind Sports leva pessoas cegas para pedalar por São Paulo em bicicletas tandem
Ou você confia ou você confia — não há meio termo
Como é possível uma pessoa cega pedalar com segurança em uma bicicleta?
A bicicleta tandem tem dois ciclistas — um na frente, que vê e conduz, e outro atrás, que não enxerga. Os pedais estão conectados, então ambos pedalam juntos. O guia fala o tempo todo, descrevendo o caminho, avisando sobre obstáculos, dando comandos. É como se a pessoa cega emprestasse os olhos do guia enquanto usa sua própria força nas pernas.
E como se constrói essa confiança entre duas pessoas em uma bicicleta?
No treinamento, os guias aprendem a se comunicar de forma clara e constante. Alguns voluntários até treinam de olhos vendados para entender o que é pedalar sem enxergar. Um guia resumiu bem: "ou você confia ou você confia" — não há meio termo. Depois que a pessoa relaxa, a experiência muda completamente.
Qual é o impacto real disso na vida de quem participa?
Vai muito além do exercício físico. As pessoas desenvolvem consciência corporal, aprendem a se guiar pelo som, ganham autonomia. Uma mulher que participava desde o início do ano falou que aprende a se virar com o próprio corpo, do jeito que ele é. Um homem que pedalou até Aparecida depois de perder a visão disse que foi diferente de todas as outras vezes — só quem passa por isso sabe.
Por que o projeto teve dificuldade em crescer se a ideia é tão boa?
O desafio não é encontrar pessoas cegas interessadas. É recrutar guias. A rotatividade é grande. Mas quando alguém encontra seu lugar ali, como um coordenador que estava se recuperando de dependência química, o impacto é profundo. Ele disse que fazer parte do grupo foi um dos pilares da sua recuperação.
Isso muda a forma como a cidade funciona para essas pessoas?
Completamente. Não é só sobre pedalar. É sobre ocupar a cidade de forma diferente, sobre fazer o que qualquer ciclista faz — subir ladeiras íngremes, sentir cansaço, descobrir ruas novas. É sobre dizer que a pessoa cega não precisa ficar sentada, que vai cair às vezes, e que isso faz parte do esporte, não da cegueira.
Der Puls
- Pessoas cegas e com baixa visão são sistematicamente excluídas de atividades físicas urbanas, como se a deficiência fosse sinônimo de imobilidade — e o Blind Sports existe para contestar exatamente isso.
- A escassez de guias voluntários é o gargalo que ameaça o crescimento do projeto: sem quem conduza, as bicicletas ficam paradas e a fila de espera de participantes cegos só aumenta.
- Cada saída noturna pelas ruas de São Paulo exige comunicação constante, treinamento específico e uma entrega de controle que desafia tanto o ciclista cego quanto o guia — 'ou você confia ou você confia', resumiu um voluntário.
- O projeto já levou participantes a cicloviagens até Aparecida e Santa Catarina, transformando o que era lazer negado em conquista pessoal profunda e em nova forma de habitar a cidade.
Em São Paulo, onde o espaço urbano raramente foi pensado para quem não enxerga, um projeto chamado Blind Sports transforma bicicletas de dois lugares em pontes entre mundos — unindo pessoas cegas e voluntários que se tornam, literalmente, seus olhos sobre o asfalto. Nascido em 2020 da necessidade e da teimosia de uma mulher que recusou deixar a deficiência ditar seus limites, o projeto desafia a suposição silenciosa de que corpos cegos devem permanecer quietos. Pedalar juntos, descobriu-se, é também um ato filosófico: exige confiança absoluta no outro, e devolve, em troca, autonomia e presença no mundo.
Toda quarta e quinta-feira, pouco depois das sete da noite, um grupo parte da estação Marechal Deodoro e percorre São Paulo de bicicleta. Metade dessas pessoas não enxerga. Esse é o Blind Sports, projeto que desde 2020 reúne pessoas cegas e com baixa visão com guias voluntários para pedalar em bicicletas tandem — máquinas de quase dois metros e meio, com dois bancos e pedais sincronizados, que exigem força combinada e comunicação constante.
A fundadora, Bia Santana, perdeu a visão aos 27 anos por complicações do diabetes. Durante a pandemia, com os parques fechados e os treinos de patinação interrompidos, ela adaptou uma bicicleta antiga e pesada — apelidada de Frankenstein — e começou a pedalar com sua guia de longa data. Daquelas pedaladas difíceis nasceu a ideia de um grupo. Hoje o projeto conta com dez tandems e reúne cerca de trinta pessoas por semana.
Os voluntários passam por treinamento no Minhocão, inclusive de olhos vendados, para compreender a experiência de quem pedala sem enxergar. Aprendem a descrever o caminho em tempo real — uma árvore baixa na descida da Rebouças exige o comando 'cabeça' no momento certo. Para a engenheira Geisa Farini, 38 anos, o maior desafio inicial foi entregar o controle a outra pessoa. Com o tempo, veio a recompensa: melhor orientação pelo som, consciência corporal e nova forma de ocupar a cidade.
José Dilson, 49 anos, cego desde um acidente de trabalho, já pedalou até Aparecida e por Santa Catarina. Mas a primeira chegada após perder a visão foi a mais marcante. 'Só quem passa por isso sabe', diz ele, que hoje aponta o pedalar como sua maior alegria. O guia Antonio Gabriel, 33 anos, encontrou no grupo um pilar de sua recuperação de uma dependência química. 'Ser literalmente os olhos de alguém é muito bacana', afirma.
O projeto sobrevive de doações e enfrenta como maior obstáculo não a falta de interessados cegos, mas a rotatividade de guias. Quem quiser participar — como guia ou como ciclista — pode se inscrever pelo site do Blind Sports.
Toda quarta e quinta-feira, pouco depois das sete da noite, um grupo de ciclistas sai da estação Marechal Deodoro, no centro de São Paulo, e segue pelas ruas da cidade. Numa semana sobem a Angélica e descem a Rebouças. Na outra, atravessam a Paulista até o Ibirapuera. À primeira vista, parece um passeio de bicicleta como tantos outros que acontecem pela cidade. Mas metade dessas pessoas não enxerga.
Esse é o Blind Sports, um projeto nascido em 2020 que reúne pessoas cegas e com baixa visão com voluntários para pedalar juntos. A ideia é simples e radical ao mesmo tempo: fazer exatamente o que qualquer ciclista faz em São Paulo. Subir ladeiras íngremes, sentir o cansaço nos músculos, enfrentar o trânsito, descobrir a cidade sobre duas rodas. Bia Santana, fundadora do projeto, perdeu a visão aos 27 anos por complicações do diabetes. Ela fala com a clareza de quem já ouviu todas as objeções: "Vivemos em uma sociedade em que a pessoa com deficiência não pode realizar nada. As pessoas acham que o cego tem que ficar sentado. 'Ah, um skate? Você vai cair.' Eu vou cair e você também vai. Isso faz parte do esporte e do equilíbrio, não da cegueira."
O projeto nasceu durante a pandemia, quando os parques fecharam e Bia, que era patinadora de velocidade, precisou interromper seus treinos. Ela havia passado por um transplante na época, e a bicicleta tandem — aquela projetada para dois ciclistas — era a atividade que conseguia fazer. Comprou uma bicicleta antiga, montada em casa, e começou a pedalar com Renata Melo, sua guia na patinação desde 2017. A máquina era pesada, rangia, exigia esforço enorme em qualquer ladeira. Ganharia o apelido de Frankenstein. Mas daquelas pedaladas complicadas nasceu a ideia de um grupo. No começo havia apenas uma tandem para três ciclistas com deficiência visual, o que significava esperar quase um mês para pedalar novamente. Aos poucos, doações chegaram, novas bicicletas foram compradas, e o projeto cresceu. Hoje conta com dez tandems e reúne cerca de trinta pessoas por semana — pessoas cegas, guias e equipe de apoio.
As bicicletas do projeto têm quase dois metros e sessenta de comprimento — quase um metro a mais que um modelo comum — e pesam cerca de vinte e cinco quilos. Têm dois bancos, dois guidões e dois pares de pedais conectados, que movem a máquina pela força combinada dos dois ciclistas. Exigem curvas mais abertas e comunicação constante entre quem conduz e quem vai atrás. Os voluntários passam por treinamento no Minhocão, onde aprendem a falar com a pessoa cega, a orientá-la, a se aproximar da bicicleta. Os comandos e a saída são os pontos mais críticos. Os pedais do guia e do ciclista cego estão sincronizados — se um mexe, o outro mexe também. Dá-se o comando "três, dois, um, vai" e os dois começam a pedalar juntos. Os guias descrevem o caminho o tempo todo. Descendo a Rebouças, por exemplo, há uma árvore baixa. Quem enxerga abaixa a cabeça automaticamente. O ciclista cego precisa ouvir o comando "cabeça". Parte do treinamento dos voluntários acontece de olhos vendados, para que entendam a experiência de quem pedala atrás. Um dos guias, após esse exercício, resumiu a experiência em uma frase: "Nossa, ou você confia ou você confia".
Para a engenheira de software Geisa Farini, 38 anos, participante desde o início do ano, essa confiança é uma etapa delicada. "É diferente porque você está no controle do pedal, mas não da direção. O primeiro medo é entregar o seu controle na mão de outra pessoa, mas depois você começa a relaxar." Os benefícios vão além da atividade física. "A gente aprende melhor a se guiar pelo som e desenvolve consciência corporal e noção do espaço", diz ela, o que amplia a autonomia e muda a forma como pessoas cegas ocupam a cidade. José Dilson Pereira dos Santos, 49 anos, aposentado, cego desde um acidente de trabalho aos 29 anos, já pedalou até Aparecida na Volta da Fé e por Santa Catarina. Mas a primeira cicloviagem após perder a visão continua sendo a mais marcante. "Eu pedalei até Aparecida várias vezes enquanto ainda enxergava. Mas a primeira vez que cheguei pedalando, depois de perder a visão, foi diferente. Só quem passa por isso sabe." No grupo há quase dois anos, afirma que pedalar é sua maior alegria hoje. "Ganhei autoestima e mais autonomia."
O Blind Sports é mantido por doações de pessoas físicas e apoios pontuais de instituições para manutenção das bicicletas. O maior desafio não é encontrar pessoas com deficiência visual interessadas, mas guias. A rotatividade é grande. Antonio Gabriel Evangelista, 33 anos, coordenador de qualidade, conheceu o Blind Sports enquanto se recuperava de uma dependência química. Guia voluntário há nove meses, diz ter encontrado no grupo novas relações sociais. "Estar com uma pessoa sendo literalmente os olhos dela é muito bacana. Às vezes, você guia uma pessoa mais simples; às vezes, alguém com cargo de liderança numa empresa, um atleta ou alguém que pedala por hobby." A experiência foi transformadora para ele. "Fazer parte desse grupo foi um dos pilares da minha recuperação." Interessados em atuar como guias podem se inscrever pelo site do Blind Sports. Pessoas cegas também podem se cadastrar, mas há fila de espera para participar das pedaladas.
Bemerkenswerte Zitate
Vivemos em uma sociedade em que a pessoa com deficiência não pode realizar nada. As pessoas acham que o cego tem que ficar sentado. Eu vou cair e você também vai. Isso faz parte do esporte e do equilíbrio, não da cegueira.— Bia Santana, fundadora do Blind Sports
Eu pedalei até Aparecida várias vezes enquanto ainda enxergava. Mas a primeira vez que cheguei pedalando, depois de perder a visão, foi diferente. Só quem passa por isso sabe.— José Dilson Pereira dos Santos, participante do projeto