Enquanto a bitcoin ultrapassa os 48 mil dólares e captura a imaginação coletiva, dois economistas de renome lembram-nos que o sucesso de um ativo especulativo não equivale ao cumprimento de uma promessa original. A moeda digital nasceu para libertar as trocas humanas de intermediários, mas tornou-se, paradoxalmente, num objeto de desejo volátil semelhante ao ouro do século passado. O que permanece vivo e potencialmente transformador não é a moeda em si, mas a arquitetura invisível que a sustenta — o blockchain —, capaz de redesenhar a forma como o dinheiro, a confiança e os mercados funcionam.
Bitcoin falhou como moeda, mas blockchain pode revolucionar sistema financeiro
Bitcoin falhou como moeda, mas voa como investimento
Então bitcoin é apenas ouro digital? Porque é que as pessoas continuam a investir se falhou como moeda?
Porque funciona como reserva de valor, como o ouro funcionou. As pessoas compram esperando que o preço suba, não porque planeiem usá-la para comprar café. É especulação pura, mas especulação que gera retornos reais para quem entra cedo.
E Elon Musk? É criminoso ou apenas um influenciador?
Não parece ser criminoso — não teve informação privilegiada. Mas é perigoso porque as pessoas o seguem como um rebanho. Quando és um líder de manadas, ganhas dinheiro às custas delas, mesmo sem fazer nada ilegal.
Então porque é que os economistas estão entusiasmados com blockchain se bitcoin é um fracasso?
Porque são coisas diferentes. Bitcoin é o aplicativo que falhou. Blockchain é a tecnologia subjacente — uma forma de verificar transações sem precisar de um banco no meio. Isso muda tudo.
Como é que isso muda os bancos?
Remove intermediários. Imagina transferências internacionais que levam segundos em vez de dias, sem comissões. Ou liquidações de ações que acontecem instantaneamente. Os bancos deixam de ser necessários para fazer o que fazem agora.
Mas os reguladores não vão parar isto?
Podem, se forem burros. Se tentarem transformar blockchain numa simples base de dados, matam a inovação. Mas se deixarem a descentralização intacta, a tecnologia pode realmente melhorar os mercados financeiros.
O Pulso
- A bitcoin superou os 48 mil dólares esta semana, mas especialistas avisam que o entusiasmo especulativo obscurece um fracasso fundamental: a criptomoeda nunca se tornou uma moeda de troca viável.
- Elon Musk agita o mercado com um investimento de 1,24 mil milhões de euros pela Tesla e com publicações nas redes sociais, levantando alertas sobre manipulação e irresponsabilidade face a seguidores vulneráveis.
- Economistas comparam a bitcoin ao ouro de há 50 anos — um ativo percebido como reserva de valor, mas altamente volátil, sem uso prático real e sem correlação comprovada com a inflação.
- A tecnologia blockchain surge como a verdadeira aposta do futuro: descentralizada, capaz de eliminar intermediários bancários, acelerar liquidações e reduzir comissões em transações financeiras globais.
- O maior perigo identificado não é a especulação, mas uma regulação apressada e mal informada que destrua a componente descentralizada que torna o blockchain genuinamente revolucionário.
- O horizonte mais transformador aponta para moedas digitais ancoradas em divisas existentes, contas diretamente nos bancos centrais e um papel radicalmente redefinido para os bancos tradicionais.
Enquanto a bitcoin ultrapassa os 48 mil dólares e captura a imaginação coletiva, dois economistas de renome lembram-nos que o sucesso de um ativo especulativo não equivale ao cumprimento de uma promessa original. A moeda digital nasceu para libertar as trocas humanas de intermediários, mas tornou-se, paradoxalmente, num objeto de desejo volátil semelhante ao ouro do século passado. O que permanece vivo e potencialmente transformador não é a moeda em si, mas a arquitetura invisível que a sustenta — o blockchain —, capaz de redesenhar a forma como o dinheiro, a confiança e os mercados funcionam.
A bitcoin ultrapassou os 48 mil dólares esta semana, um valor impensável há uma década quando valia apenas um dólar. Mas dois economistas de referência internacional — Ricardo Reis, da London School of Economics, e Gina Pieters, investigadora em Chicago e Cambridge — convergem numa conclusão incómoda: a criptomoeda falhou no seu propósito original de ser uma moeda de troca funcional, tornando-se antes num ativo especulativo comparável ao ouro.
Muito do entusiasmo recente tem o rosto de Elon Musk. A Tesla investiu 1,24 mil milhões de euros em bitcoin, e o empresário continua a promover criptomoedas — incluindo a Dogecoin, criada como piada — através do Twitter. Vítor Constâncio, antigo vice-presidente do BCE, pediu às autoridades americanas que fiscalizassem Musk, comparando a bitcoin a um carro sem rodas. Reis reconhece os riscos da influência de Musk sobre seguidores que seguem modas, mas não vê base legal para investigação por ausência de informação privilegiada. Quanto à proposta da Tesla aceitar bitcoin como pagamento, Reis classifica-a como puro marketing: uma empresa que paga salários e fornecedores em dólares não pode gerir a volatilidade brutal de uma criptomoeda.
O argumento de que a bitcoin protege contra a inflação futura é igualmente rejeitado por Reis como especulativo e sem fundamento empírico — o mesmo raciocínio, recorda, justificava investimentos em ouro há um século, sem correlação comprovada.
Mas onde a bitcoin falhou, o blockchain pode triunfar. Pieters sublinha que esta tecnologia — uma folha de cálculo descentralizada onde os movimentos são verificados de forma segura sem entidade controladora — tem potencial enorme para transformar os mercados financeiros: liquidações mais rápidas, menos intermediários, comissões mais baixas. O risco maior, avisa, é uma regulação precipitada que elimine precisamente a descentralização que torna o blockchain valioso.
Reis partilha este otimismo e vai mais longe: o verdadeiro potencial está nas moedas digitais ancoradas em divisas existentes — dólar, euro, yuan — que usem blockchain para tornar as transações mais diretas e baratas, quase eliminando comissões mesmo entre moedas diferentes. O resultado poderia ser radical: pessoas com contas diretamente nos bancos centrais, e os bancos tradicionais a redefinir completamente o seu papel no sistema financeiro.
A bitcoin atingiu um novo recorde esta semana, ultrapassando os 48 mil dólares pela primeira vez, uma subida vertiginosa desde o valor de um dólar há uma década. Mas dois economistas de renome internacional concordam num ponto fundamental: a moeda digital falhou completamente no seu propósito original. Ricardo Reis, da London School of Economics, resume a contradição de forma clara — a bitcoin voa como investimento, mas fracassou como moeda. Gina Pieters, investigadora em finanças alternativas nas universidades de Chicago e Cambridge, partilha essa conclusão, apesar de reconhecer o crescimento vibrante do setor das criptomoedas nos últimos anos.
Muito do entusiasmo recente deve-se a Elon Musk. A Tesla anunciou na segunda-feira um investimento de 1,24 mil milhões de euros em bitcoin, um movimento significativo que reflete a influência do empresário sobre o mercado. Musk tem sido um apologista vocal das criptomoedas no Twitter, promovendo não apenas a bitcoin mas também moedas como a Dogecoin, criada inicialmente como brincadeira. Vítor Constâncio, antigo vice-presidente do Banco Central Europeu, pediu às autoridades americanas que fiscalizassem Musk, argumentando que a bitcoin nunca será uma moeda verdadeira e comparando-a a um carro da Tesla sem rodas — um ativo sem valor de uso real. Reis concorda que a forma como Musk influencia através das redes sociais pode ser perigosa para os seus seguidores, que tendem a alinhar-se com a moda. No entanto, Reis não acredita que haja base legal para uma investigação, uma vez que Musk não parece ter tido acesso a informação privilegiada. O que está a acontecer agora, explica, é exatamente o que se viu com o ouro há 30 ou 50 anos — um ativo visto como forma de preservar valor, mas altamente volátil e sem uso prático significativo.
A proposta da Tesla de aceitar bitcoin na compra de carros parece a Reis ser puro marketing. O argumento não faz sentido económico: a Tesla paga salários e fornecedores em dólares, e usar uma moeda tão volátil criaria riscos inaceitáveis de perda ou ganho brutal. Um dos argumentos mais comuns entre investidores em bitcoin é que a inflação futura tornará as moedas tradicionais menos valiosas, fazendo da bitcoin uma aposta inteligente. Reis rejeita este raciocínio como fraco e especulativo, lembrando que o mesmo argumento era usado há um século para justificar investimentos em ouro. Não existe correlação comprovada entre inflação e bitcoin, insiste, e a volatilidade real do ativo torna qualquer previsão sobre o seu comportamento futuro mera especulação.
Mas enquanto a bitcoin falhou como moeda, a tecnologia subjacente — o blockchain — pode ser verdadeiramente revolucionária. Pieters recorda que a bitcoin, lançada em 2009, foi a primeira criptomoeda descentralizada, inovando ao evitar a necessidade de uma entidade centralizadora. O blockchain funciona como uma folha de cálculo que ninguém controla individualmente, mas onde os movimentos são verificados de forma relativamente segura. Tem potencial enorme para o futuro. A investigadora observa que o mercado já diferencia entre criptomoedas com objetivo de serem moedas e aquelas usadas principalmente como investimento especulativo — a bitcoin claramente pertence à segunda categoria, e essa distinção tem ajudado a impulsionar os preços em todo o setor.
O maior risco, na perspetiva de Pieters, é que os reguladores intervenham sem compreensão adequada da tecnologia. É melhor não intervir do que cometer erros fatais que matem a inovação. Qualquer regulação deve evitar reduzir o blockchain a uma simples base de dados melhorada — o que o torna especial é precisamente a sua componente descentralizada. Remover essa capacidade diminuiria drasticamente o valor da tecnologia. O blockchain pode fazer uma diferença real nos mercados financeiros, acelerando as liquidações de ações, reduzindo intermediários e cortando comissões. Empresas já começaram a investir em arquiteturas digitais baseadas em blockchain, e mesmo quando usam sistemas centralizados, conseguem ganhos claros em simplicidade, segurança, fiabilidade e eficiência.
Reis concorda que o blockchain pode transformar os mercados financeiros, facilitando liquidações mais rápidas e ágeis, reduzindo o número de intermediários entre comprador e vendedor, e diminuindo comissões. Isto poderia ajudar a prevenir problemas como os que se viram com a especulação em torno das ações da GameStop e dos pequenos investidores. Mas Reis vê maior potencial nas moedas digitais que usam blockchain centralizado — não ambicionam ser novas unidades de medição, mas estão ancoradas em moedas existentes como o dólar, euro ou yuan, semelhante ao que o Facebook tentou com a Libra. O lado verdadeiramente revolucionário não é a moeda digital em si — as pessoas já têm isso há décadas, é fácil deixar de usar notas e cheques. O revolucionário é que o blockchain permite remover intermediários bancários, tornando as transações mais diretas, simples e baratas, mesmo entre moedas diferentes, quase eliminando comissões. Isto poderia levar a que as pessoas tivessem contas diretamente nos bancos centrais, transformando fundamentalmente o papel e a função dos bancos tradicionais no futuro.
Citações Notáveis
A bitcoin falhou como moeda, mas voa como investimento, está ao nível do que o ouro era há 50 anos— Ricardo Reis, economista da London School of Economics
O blockchain pode fazer a diferença e melhorar os mercados financeiros, facilitando liquidações de ações, reduzindo intermediários e reduzindo comissões— Ricardo Reis