Biorrepositório brasileiro pode personalizar prevenção do câncer no SUS

Não podemos construir medicina de precisão com uma régua europeia
Pesquisador explica por que estudos genômicos globais não servem para a população brasileira miscigenada.
Mark

Por que isso importa agora? Já não temos testes genéticos disponíveis?

Mimi

Temos, mas a maioria foi desenvolvida para europeus. Quando você aplica um teste feito para uma população em outra completamente diferente, geneticamente falando, os resultados podem não ser confiáveis.

Luke

Espera — o estudo atual já tem um escore pronto para usar no SUS?

Mimi

Não. O que publicaram agora é a descrição da infraestrutura, do banco de dados. Os escores ainda estão sendo desenvolvidos.

Mark

Então quanto tempo até estar pronto?

Mimi

Não há prazo definido. Precisam validar em mais pessoas, depois em outros centros. Reis fala em anos, não meses.

Luke

E esses testes que já vendem no mercado — por que não usar?

Mimi

Porque não foram validados para a população brasileira. Reis é bem claro: você não pode levar para a prática clínica sem evidências próprias.

Mark

Qual é a vantagem de ter dados de estilo de vida junto com os genéticos?

Mimi

Câncer não é só genética. É genética mais alimentação, obesidade, tabagismo, exposição ambiental. Entender como tudo isso interage é o diferencial.

Luke

Mas o projeto ainda está pequeno — 4 mil participantes. Isso é representativo do Brasil?

Mimi

É por isso que a meta é 8 mil nos próximos dois anos. E depois querem expandir para outras regiões remotas.

Mark

Se funcionar, como muda a vida de uma pessoa?

Mimi

Se você souber que tem risco alto de câncer colorretal, pode fazer colonoscopia mais cedo, mudar hábitos, ser monitorado diferente. Prevenção personalizada.

  • Mais de 90% dos estudos genômicos mundiais foram construídos com populações europeias, deixando brasileiros mal representados nas ferramentas que deveriam protegê-los.
  • O biorrepositório já reúne 4.062 participantes e quase 40 mil amostras de sangue, com meta de dobrar esse número em dois anos para dar robustez estatística aos modelos de risco.
  • Escores poligênicos — que somam centenas de pequenas variações no DNA para estimar predisposição ao câncer — precisam ser recalibrados para a miscigenação brasileira antes de qualquer uso clínico.
  • A escolha estratégica de câncer de mama, colorretal e colo do útero aponta para tumores onde rastreamento e prevenção já existem, tornando a ferramenta potencialmente aplicável no SUS.
  • Testes genéticos de risco já circulam no mercado brasileiro, mas sem validação local — o projeto quer produzir evidências próprias antes que essas promessas cheguem à prática clínica.

No coração do interior paulista, pesquisadores do Hospital de Amor constroem um arquivo genético que pode redefinir como o Brasil enfrenta o câncer — não com ferramentas importadas de outras populações, mas com uma régua feita à medida de sua própria miscigenação. O projeto reconhece que a medicina de precisão só cumpre sua promessa quando os dados que a sustentam refletem a diversidade real de quem precisa ser cuidado. É um esforço para que os avanços científicos globais não passem ao largo de uma das populações mais geneticamente diversas do mundo.

No Hospital de Amor, em Barretos, um biobanco com mais de 420 mil amostras biológicas acumuladas desde 2006 serviu de alicerce para algo novo: um repositório focado em medicina de precisão, onde dados genéticos se cruzam com informações sobre alimentação, profissão e estilo de vida. O objetivo é responder uma pergunta que a ciência global ainda não soube responder para os brasileiros — como identificar, com precisão, quem tem maior risco de desenvolver câncer de mama, colorretal ou do colo do útero.

O problema de fundo é estrutural. Mais de 90% dos grandes estudos genômicos sobre risco de câncer foram construídos a partir de populações de ancestralidade europeia. Para o coordenador do estudo, Rui Manuel Reis, usar essas ferramentas no Brasil é como tentar medir algo com uma régua calibrada para outra realidade — a população brasileira carrega contribuições europeias, africanas, indígenas e asiáticas em proporções que variam entre indivíduos e regiões.

A ferramenta que os pesquisadores pretendem desenvolver é o escore poligênico de risco. Diferente dos testes que buscam mutações hereditárias conhecidas, como as dos genes BRCA1 e BRCA2, o escore poligênico soma centenas de pequenas variações espalhadas pelo DNA — cada uma com efeito mínimo isolado, mas que juntas compõem uma estimativa de predisposição. O resultado não prevê se alguém terá câncer, mas permite distinguir quem carrega maior ou menor risco genético.

Os três cânceres escolhidos não são aleatórios: todos contam com estratégias estabelecidas de rastreamento e prevenção. É aí que os escores poligênicos poderão, no futuro, ter aplicação no SUS — orientando quem deve ser monitorado com mais atenção ou encaminhado mais cedo para exames como a colonoscopia. Mas Reis é cauteloso: a ferramenta ainda precisa ser testada em maior escala e validada em outros centros antes de chegar à prática clínica.

O estudo publicado na iScience não entrega um escore pronto — descreve a infraestrutura construída para que as respostas possam ser obtidas. Os resultados mais avançados, relacionados ao câncer colorretal, devem ser divulgados em breve. O grupo também planeja ampliar o biorrepositório para incluir outros tumores e pacientes de regiões remotas ainda ausentes dos grandes estudos genômicos. Para Reis, construir essa base de dados é uma forma de garantir que a população brasileira não fique de fora dos avanços que a medicina de precisão promete ao mundo.

No Hospital de Amor, em Barretos, São Paulo, está em construção um arquivo de material genético que pode mudar a forma como o Brasil previne câncer. Desde 2006, a instituição mantém um biobanco com mais de 420 mil amostras biológicas de 55 mil doadores. Agora, aproveitando essa infraestrutura robusta, os pesquisadores criaram um novo repositório focado especificamente em medicina de precisão — um espaço onde dados genéticos, epidemiológicos e informações sobre estilo de vida se cruzam para responder uma pergunta fundamental: como identificar quem tem maior risco de desenvolver câncer de mama, colorretal ou do colo do útero?

O projeto já reúne 4.062 participantes e quase 40 mil amostras derivadas de sangue. A meta é chegar a 8 mil pessoas nos próximos dois anos, metade com diagnóstico de câncer e metade sem a doença. Esse trabalho, publicado na revista iScience com financiamento da FAPESP, representa mais do que um simples banco de dados. Ele tenta preencher uma lacuna crítica na medicina de precisão global: mais de 90% dos grandes estudos genômicos que investigam risco de câncer foram construídos a partir de populações de ancestralidade europeia. Rui Manuel Reis, diretor científico do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Amor e coordenador do estudo, resume o problema com clareza. Não é possível construir medicina de precisão usando uma régua feita para uma população europeia, com genética europeia e estilo de vida europeu, quando se precisa medir o risco em uma população tão miscigenada quanto a brasileira.

O instrumento que os pesquisadores pretendem desenvolver chama-se escore poligênico de risco. Diferente dos testes que identificam mutações hereditárias bem conhecidas — como alterações nos genes BRCA1 e BRCA2, que aumentam significativamente o risco de câncer de mama — o escore poligênico funciona de forma distinta. Na maioria dos casos de câncer, não existe uma única alteração genética responsável pelo risco aumentado. Em vez disso, há centenas ou milhares de pequenas variações espalhadas pelo DNA. Cada uma, isoladamente, tem efeito mínimo. Algumas aumentam ligeiramente o risco, outras o diminuem. O escore reúne essas informações e calcula o efeito combinado, chegando a uma estimativa da predisposição genética de uma pessoa. É como somar pequenas parcelas de risco para chegar a um total. O resultado não prediz se alguém desenvolverá câncer, mas permite identificar indivíduos com predisposição genética mais baixa ou mais alta.

Escores poligênicos não são novidade. Já vêm sendo desenvolvidos em grandes estudos genômicos internacionais e começam a ser utilizados para estimar risco de algumas doenças, inclusive câncer. O problema permanece: a maioria foi construída e testada principalmente em pessoas de ancestralidade europeia. Antes de aplicar essas mesmas ferramentas no Brasil, é preciso saber se funcionam adequadamente em uma população tão miscigenada. Reis insiste que não se pode simplesmente importar uma régua feita para europeus e esperar que meça corretamente a população brasileira.

Um detalhe crucial diferencia este projeto: além das amostras de sangue, os pesquisadores reúnem informações abrangentes sobre estilo de vida, alimentação, profissão e possíveis fatores de risco através de questionários detalhados. Câncer resulta de uma combinação entre predisposição genética e outros fatores — obesidade, tabagismo, atividade física, exposições ambientais. Os dados coletados até agora confirmam a grande miscigenação da população brasileira, com contribuições das ancestralidades europeia, africana, indígena e asiática. A composição genética varia entre indivíduos e entre regiões. A proposta agora é investigar como essa ancestralidade está associada ao risco de tumores específicos e como influencia o desempenho dos escores poligênicos. O objetivo é construir modelos de risco mais adequados à realidade brasileira, compreendendo como predisposição genética interage com fatores ambientais e de estilo de vida.

A escolha dos três cânceres não foi aleatória. Além de terem grande importância no país, são tumores para os quais existem medidas estabelecidas de prevenção, rastreamento ou detecção precoce. Mamografia, rastreamento do colo do útero e exames colorretais podem permitir que a doença seja evitada em alguns casos ou diagnosticada em fases mais iniciais. É nesse ponto que os escores poligênicos poderão, no futuro, ter aplicação no SUS. Se for possível identificar quem apresenta maior predisposição para determinado câncer, essa informação pode ser combinada a outros fatores de risco para orientar estratégias de prevenção e rastreamento personalizadas. Uma pessoa classificada em faixa de risco mais elevada para câncer colorretal, por exemplo, poderia receber atenção maior aos fatores de risco modificáveis e, se estudos futuros demonstrarem benefício, ter uma estratégia de rastreamento diferente — como encaminhamento para colonoscopia mais cedo.

Por enquanto, essa ferramenta ainda não está pronta para implementação no sistema público de saúde. Os escores precisam ser definidos, testados em número maior de pessoas e validados em outros centros. Reis pondera que o objetivo é subsidiar uma ferramenta que possa ser disseminada por todo o SUS, mas antes disso ela tem de ser validada. Já existem no mercado brasileiro vários testes que prometem estimar riscos a partir da genética, mas muitos são baseados em pesquisas feitas no exterior e não foram validados na população do país. Quando se trata de câncer, é preciso produzir evidências próprias antes de levar essas ferramentas para a prática clínica. O estudo publicado ainda não apresenta um escore de risco brasileiro pronto para uso — por enquanto, descreve a infraestrutura criada para que essas respostas possam ser obtidas. Os resultados mais avançados são os relacionados ao câncer colorretal e deverão ser apresentados em breve. O grupo também pretende ampliar o biorrepositório para estudar outros tipos de tumores e incluir pacientes de regiões remotas ainda pouco representadas em estudos genômicos. Para Reis, criar uma base de dados própria é uma maneira de garantir que a população brasileira não seja excluída dos avanços da medicina de precisão.

Não podemos construir uma medicina de precisão com uma régua que foi feita para uma população europeia, com uma genética europeia e um estilo de vida europeu
— Rui Manuel Reis, diretor científico do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Amor
Quando se trata de uma doença como o câncer, é preciso produzir evidências próprias antes de levar essas ferramentas para a prática clínica
— Rui Manuel Reis
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