Portugal beneficia de upgrade da Fitch para A+, mas enfrenta volatilidade nos mercados de dívida com leilão de 1.750 milhões de euros. BCE aumenta juros em 25 pontos base enquanto EUA ampliam recompra de Treasuries; inflação nos EUA será decisiva para próxima decisão da Fed.
BCE sobe juros, moção de censura e novo iPhone marcam semana de volatilidade nos mercados
Um país forte significa uma taxa de juro mais baixa
Porque é que esta semana é tão importante? Parece haver muitas coisas a acontecer ao mesmo tempo.
Porque os mercados estão num ponto de viragem. O BCE vai apertar os juros, os EUA estão a tentar estabilizar a sua dívida, e Portugal está a ser testado — tanto nos mercados como na política.
Mas o upgrade da Fitch para Portugal é realmente significativo? Uma agência de notação mudou de opinião.
É um sinal de confiança internacional, especialmente quando os mercados de dívida estão sob pressão. Mas o teste real é o leilão de quarta-feira — vamos ver se os investidores realmente acreditam.
E quanto ao BCE? Todos sabem que vai aumentar os juros. Há algo de novo?
A questão é o que vem depois. Os mercados já estão a precificar um aumento em dezembro. E isto vai afectar as hipotecas dos portugueses.
Mas o Deutsche Bank diz que há menos risco em apertar ainda mais. Isso é consenso ou é apenas uma opinião?
É uma análise de um banco importante, mas há sempre vozes diferentes. O que importa é o que Christine Lagarde disser na conferência de imprensa.
E nos EUA? O plano de Bessent para as Treasuries é uma boa ideia?
Depende de quem pergunta. Bessent diz que está apenas a gerir a liquidez. Os críticos dizem que é uma intervenção nos mercados que não resolve o problema de fundo — a dívida americana está a crescer.
Qual é o número exato da dívida americana?
Atingiu 40 biliões de dólares e o FMI prevê que suba para 140% do PIB nos próximos anos.
E o Trump quer que a Fed baixe as taxas?
Sim, ele interpretou os dados de emprego de forma diferente. Vê força na economia e quer juros mais baixos. Mas os investidores estão a precificar um aumento.
Portanto há uma divergência clara entre o que o Trump quer e o que os mercados esperam.
Exatamente. E isso vai ser importante para a decisão da Fed a 16 de setembro.
O Pulso
- Fitch sobe rating de Portugal para A+ com outlook estável
- Portugal leiloa 1.500 a 1.750 milhões de euros em obrigações em três maturidades
- BCE aumenta juros em 25 pontos base, levando taxa de depósito para 2,50%
- Dívida americana atinge recorde de 40 biliões de dólares
- EUA criam 162 mil empregos em agosto, muito acima das expectativas de 56 mil
- Apple lança novo iPhone dobrável sob liderança de John Ternus
Portugal beneficia de upgrade da Fitch para A+, mas enfrenta volatilidade nos mercados de dívida com leilão de 1.750 milhões de euros. BCE aumenta juros em 25 pontos base enquanto EUA ampliam recompra de Treasuries; inflação nos EUA será decisiva para próxima decisão da Fed.
A semana traz subida de juros do BCE, moção de censura ao Governo português, lançamento do novo iPhone e volatilidade nos mercados de dívida soberana europeia e americana.
A semana que se aproxima concentra três forças que vão agitar os mercados e a política: o Banco Central Europeu vai apertar a torneira do crédito, o Governo português enfrenta um teste parlamentar e a Apple apresenta o seu telefone mais ambicioso em anos. No meio disso tudo, a volatilidade que já sacudiu os mercados de dívida soberana em várias continentes não dá sinais de arrefecer.
Portugal chega a esta semana com uma notícia que chegou no momento certo. A agência de notação Fitch subiu o rating do país de A para A+, reconhecendo o fortalecimento das contas públicas e uma trajetória de redução da dívida que supera a dos seus pares europeus. O ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, chamou-lhe "mais uma grande vitória de Portugal", a quarta em dois anos. O timing é relevante porque, na quarta-feira, o Tesouro vai lançar um leilão de obrigações entre 1.500 e 1.750 milhões de euros em três maturidades diferentes — 2030, 2034 e 2035. Depois de uma semana em que as dívidas soberanas sofreram pressão em vários continentes, o upgrade da Fitch pode ajudar a atrair investidores. Na sexta anterior, a obrigação de referência a dez anos negociava nos 3,67%, uma taxa que deverá beneficiar da melhoria de notação.
Na mesma quarta-feira, mas em Bruxelas, o Banco Central Europeu vai aumentar as taxas de juro em 25 pontos base, levando a taxa de depósito para 2,50%. Não há dúvida entre analistas e investidores sobre esta decisão, mas o que importa é o que vem depois. Sondagens e análises dos futuros nos mercados já apontam para uma repetição da medida em dezembro. Os analistas do Deutsche Bank resumem o cenário: a crise no Médio Oriente continua por resolver, os preços do gás na Europa atingiram novos máximos, a atividade económica revelou-se resiliente apesar dos choques no abastecimento energético, e o crédito mantém-se firme. Isto significa que há menos risco em apertar ainda mais a política monetária. Para os portugueses, o aperto desta quinta-feira vai afectar as mensalidades do crédito à habitação e outros empréstimos. As atenções vão estar centradas nas pistas que Christine Lagarde possa dar sobre as decisões seguintes.
Nos Estados Unidos, a situação é mais complexa. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou em agosto um plano para ampliar as recompras de Treasuries destinadas a apoiar a liquidez nos segmentos de prazos longos. A partir de quarta-feira, o volume das operações relativas aos títulos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos vai duplicar, com o volume máximo por operação a aumentar de 2 mil milhões para, pelo menos, 4 mil milhões de dólares. O plano tem sido criticado como uma intervenção nos mercados com efeitos meramente paliativos, especialmente quando a dívida americana atingiu um recorde de 40 biliões de dólares e o Fundo Monetário Internacional prevê que suba para 140% do PIB nos próximos anos. Bessent rejeita a acusação e diz que está apenas a gerir a escassez de liquidez.
Na sexta-feira, o índice de preços no consumidor dos EUA de agosto será o último conjunto de dados sobre inflação antes da próxima decisão da Reserva Federal, marcada para 16 de setembro. Os analistas do Deutsche Bank prevêem um IPC global de +0,38% em relação ao mês anterior, contra +0,07% em julho, e um IPC subjacente de +0,21%. O contexto é importante: na sexta anterior, o Bureau of Labor Statistics anunciou que o número de empregos nos setores não-agrícolas subiu em 162 mil em agosto, muito acima da expectativa de 56 mil postos de trabalho. Isto levou os investidores a reforçarem a aposta numa subida das Federal Funds Rates em 25 pontos base para o intervalo 3,75%-4%, com os futuros a apontarem a uma probabilidade de 58%. O presidente Donald Trump interpretou os dados de forma diferente, festejando a força da economia e exigindo na rede Truth Social que se baixem as taxas de juro, argumentando que "um país forte significa uma taxa de juro mais baixa".
Em Portugal, a política interna oferece o seu próprio teste de estabilidade. Na terça-feira, o Parlamento debate a moção de censura apresentada pelo Chega ao Governo de Luís Montenegro. A moção está condenada ao insucesso devido à falta de apoio do PS, mas o debate será um duro teste ao desgaste do Executivo após um Verão atribulado por polémicas relacionadas com os exames nacionais e, principalmente, os casos que rodeiam o ministro da Administração Interna, Luís Neves. Horas antes do debate, Neves será ouvido pelos deputados da Comissão de Assuntos Constitucionais. O líder do Chega, André Ventura, afirmou que "Luís Neves não é talhado para o cargo de ministro da Administração Interna" e acusou os partidos que vão votar contra a moção de terem "esquizofrenia de coragem". Se a moção for chumbada, Ventura prometeu avançar para uma comissão parlamentar de inquérito à gestão de Neves.
Na quarta-feira, a Apple vai revelar a mais recente série de iPhones e, possivelmente, o tão aguardado telemóvel dobrável. O lançamento marcará o primeiro grande evento do novo CEO da Apple, John Ternus, que assumiu a liderança da empresa a 1 de setembro. Ternus era responsável pela área de hardware e a sua nomeação, anunciada em abril, foi amplamente considerada como um sinal do renovado empenho da Apple em reforçar o seu ponto forte principal: os dispositivos. Os analistas afirmam que os iPhones topo de gama dobráveis serão o principal motor do aumento dos preços de venda e do crescimento das margens da empresa. Atualmente, a Samsung domina o nicho de mercado dos smartphones dobráveis, um segmento em crescimento que as empresas apostam que em breve se tornará mainstream, apesar dos seus preços elevados.
Em Portugal, também na segunda-feira, o INE vai divulgar o Índice de Custos de Construção de Habitação Nova de julho. Este dado é relevante porque foi no início de setembro que entrou em vigor a redução do IVA nos custos de construção, de 23% para 6%, parte de um conjunto de medidas centradas na área da habitação. Em junho, o índice de custos avançou 0,3 pontos percentuais para 7,2%, com o custo da mão de obra a ser o fator que mais contribuiu para esta evolução, ao aumentar 8% depois de uma subida de 7,6% em maio.
Citações Notáveis
Mais uma grande vitória de Portugal— Joaquim Miranda Sarmento, ministro das Finanças, sobre o upgrade da Fitch
Luís Neves não é talhado para o cargo de ministro da Administração Interna— André Ventura, líder do Chega, na entrega da moção de censura