BCE sobe juros, moção de censura e novo iPhone marcam semana de volatilidade nos mercados

Um país forte significa uma taxa de juro mais baixa
Donald Trump exige redução de juros na rede Truth Social, interpretando dados de emprego de forma diferente dos investidores.
Mark

Porque é que esta semana é tão importante? Parece haver muitas coisas a acontecer ao mesmo tempo.

Mimi

Porque os mercados estão num ponto de viragem. O BCE vai apertar os juros, os EUA estão a tentar estabilizar a sua dívida, e Portugal está a ser testado — tanto nos mercados como na política.

Luke

Mas o upgrade da Fitch para Portugal é realmente significativo? Uma agência de notação mudou de opinião.

Mimi

É um sinal de confiança internacional, especialmente quando os mercados de dívida estão sob pressão. Mas o teste real é o leilão de quarta-feira — vamos ver se os investidores realmente acreditam.

Mark

E quanto ao BCE? Todos sabem que vai aumentar os juros. Há algo de novo?

Mimi

A questão é o que vem depois. Os mercados já estão a precificar um aumento em dezembro. E isto vai afectar as hipotecas dos portugueses.

Luke

Mas o Deutsche Bank diz que há menos risco em apertar ainda mais. Isso é consenso ou é apenas uma opinião?

Mimi

É uma análise de um banco importante, mas há sempre vozes diferentes. O que importa é o que Christine Lagarde disser na conferência de imprensa.

Mark

E nos EUA? O plano de Bessent para as Treasuries é uma boa ideia?

Mimi

Depende de quem pergunta. Bessent diz que está apenas a gerir a liquidez. Os críticos dizem que é uma intervenção nos mercados que não resolve o problema de fundo — a dívida americana está a crescer.

Luke

Qual é o número exato da dívida americana?

Mimi

Atingiu 40 biliões de dólares e o FMI prevê que suba para 140% do PIB nos próximos anos.

Mark

E o Trump quer que a Fed baixe as taxas?

Mimi

Sim, ele interpretou os dados de emprego de forma diferente. Vê força na economia e quer juros mais baixos. Mas os investidores estão a precificar um aumento.

Luke

Portanto há uma divergência clara entre o que o Trump quer e o que os mercados esperam.

Mimi

Exatamente. E isso vai ser importante para a decisão da Fed a 16 de setembro.

  • Fitch sobe rating de Portugal para A+ com outlook estável
  • Portugal leiloa 1.500 a 1.750 milhões de euros em obrigações em três maturidades
  • BCE aumenta juros em 25 pontos base, levando taxa de depósito para 2,50%
  • Dívida americana atinge recorde de 40 biliões de dólares
  • EUA criam 162 mil empregos em agosto, muito acima das expectativas de 56 mil
  • Apple lança novo iPhone dobrável sob liderança de John Ternus

Portugal beneficia de upgrade da Fitch para A+, mas enfrenta volatilidade nos mercados de dívida com leilão de 1.750 milhões de euros. BCE aumenta juros em 25 pontos base enquanto EUA ampliam recompra de Treasuries; inflação nos EUA será decisiva para próxima decisão da Fed.

A semana traz subida de juros do BCE, moção de censura ao Governo português, lançamento do novo iPhone e volatilidade nos mercados de dívida soberana europeia e americana.

A semana que se aproxima concentra três forças que vão agitar os mercados e a política: o Banco Central Europeu vai apertar a torneira do crédito, o Governo português enfrenta um teste parlamentar e a Apple apresenta o seu telefone mais ambicioso em anos. No meio disso tudo, a volatilidade que já sacudiu os mercados de dívida soberana em várias continentes não dá sinais de arrefecer.

Portugal chega a esta semana com uma notícia que chegou no momento certo. A agência de notação Fitch subiu o rating do país de A para A+, reconhecendo o fortalecimento das contas públicas e uma trajetória de redução da dívida que supera a dos seus pares europeus. O ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, chamou-lhe "mais uma grande vitória de Portugal", a quarta em dois anos. O timing é relevante porque, na quarta-feira, o Tesouro vai lançar um leilão de obrigações entre 1.500 e 1.750 milhões de euros em três maturidades diferentes — 2030, 2034 e 2035. Depois de uma semana em que as dívidas soberanas sofreram pressão em vários continentes, o upgrade da Fitch pode ajudar a atrair investidores. Na sexta anterior, a obrigação de referência a dez anos negociava nos 3,67%, uma taxa que deverá beneficiar da melhoria de notação.

Na mesma quarta-feira, mas em Bruxelas, o Banco Central Europeu vai aumentar as taxas de juro em 25 pontos base, levando a taxa de depósito para 2,50%. Não há dúvida entre analistas e investidores sobre esta decisão, mas o que importa é o que vem depois. Sondagens e análises dos futuros nos mercados já apontam para uma repetição da medida em dezembro. Os analistas do Deutsche Bank resumem o cenário: a crise no Médio Oriente continua por resolver, os preços do gás na Europa atingiram novos máximos, a atividade económica revelou-se resiliente apesar dos choques no abastecimento energético, e o crédito mantém-se firme. Isto significa que há menos risco em apertar ainda mais a política monetária. Para os portugueses, o aperto desta quinta-feira vai afectar as mensalidades do crédito à habitação e outros empréstimos. As atenções vão estar centradas nas pistas que Christine Lagarde possa dar sobre as decisões seguintes.

Nos Estados Unidos, a situação é mais complexa. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou em agosto um plano para ampliar as recompras de Treasuries destinadas a apoiar a liquidez nos segmentos de prazos longos. A partir de quarta-feira, o volume das operações relativas aos títulos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos vai duplicar, com o volume máximo por operação a aumentar de 2 mil milhões para, pelo menos, 4 mil milhões de dólares. O plano tem sido criticado como uma intervenção nos mercados com efeitos meramente paliativos, especialmente quando a dívida americana atingiu um recorde de 40 biliões de dólares e o Fundo Monetário Internacional prevê que suba para 140% do PIB nos próximos anos. Bessent rejeita a acusação e diz que está apenas a gerir a escassez de liquidez.

Na sexta-feira, o índice de preços no consumidor dos EUA de agosto será o último conjunto de dados sobre inflação antes da próxima decisão da Reserva Federal, marcada para 16 de setembro. Os analistas do Deutsche Bank prevêem um IPC global de +0,38% em relação ao mês anterior, contra +0,07% em julho, e um IPC subjacente de +0,21%. O contexto é importante: na sexta anterior, o Bureau of Labor Statistics anunciou que o número de empregos nos setores não-agrícolas subiu em 162 mil em agosto, muito acima da expectativa de 56 mil postos de trabalho. Isto levou os investidores a reforçarem a aposta numa subida das Federal Funds Rates em 25 pontos base para o intervalo 3,75%-4%, com os futuros a apontarem a uma probabilidade de 58%. O presidente Donald Trump interpretou os dados de forma diferente, festejando a força da economia e exigindo na rede Truth Social que se baixem as taxas de juro, argumentando que "um país forte significa uma taxa de juro mais baixa".

Em Portugal, a política interna oferece o seu próprio teste de estabilidade. Na terça-feira, o Parlamento debate a moção de censura apresentada pelo Chega ao Governo de Luís Montenegro. A moção está condenada ao insucesso devido à falta de apoio do PS, mas o debate será um duro teste ao desgaste do Executivo após um Verão atribulado por polémicas relacionadas com os exames nacionais e, principalmente, os casos que rodeiam o ministro da Administração Interna, Luís Neves. Horas antes do debate, Neves será ouvido pelos deputados da Comissão de Assuntos Constitucionais. O líder do Chega, André Ventura, afirmou que "Luís Neves não é talhado para o cargo de ministro da Administração Interna" e acusou os partidos que vão votar contra a moção de terem "esquizofrenia de coragem". Se a moção for chumbada, Ventura prometeu avançar para uma comissão parlamentar de inquérito à gestão de Neves.

Na quarta-feira, a Apple vai revelar a mais recente série de iPhones e, possivelmente, o tão aguardado telemóvel dobrável. O lançamento marcará o primeiro grande evento do novo CEO da Apple, John Ternus, que assumiu a liderança da empresa a 1 de setembro. Ternus era responsável pela área de hardware e a sua nomeação, anunciada em abril, foi amplamente considerada como um sinal do renovado empenho da Apple em reforçar o seu ponto forte principal: os dispositivos. Os analistas afirmam que os iPhones topo de gama dobráveis serão o principal motor do aumento dos preços de venda e do crescimento das margens da empresa. Atualmente, a Samsung domina o nicho de mercado dos smartphones dobráveis, um segmento em crescimento que as empresas apostam que em breve se tornará mainstream, apesar dos seus preços elevados.

Em Portugal, também na segunda-feira, o INE vai divulgar o Índice de Custos de Construção de Habitação Nova de julho. Este dado é relevante porque foi no início de setembro que entrou em vigor a redução do IVA nos custos de construção, de 23% para 6%, parte de um conjunto de medidas centradas na área da habitação. Em junho, o índice de custos avançou 0,3 pontos percentuais para 7,2%, com o custo da mão de obra a ser o fator que mais contribuiu para esta evolução, ao aumentar 8% depois de uma subida de 7,6% em maio.

Mais uma grande vitória de Portugal
— Joaquim Miranda Sarmento, ministro das Finanças, sobre o upgrade da Fitch
Luís Neves não é talhado para o cargo de ministro da Administração Interna
— André Ventura, líder do Chega, na entrega da moção de censura
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