Segmento de alta renda e private concentra R$ 6,2 trilhões, dois terços de todo investimento de pessoas físicas no Brasil. Bancos expandem serviços para planejamento patrimonial, sucessão, investimentos internacionais e preparação de herdeiros para aumentar relacionamento com clientes.
Bancos ampliam disputa por clientes de alta renda com experiências exclusivas e planejamento sucessório
Fazer com que uma parcela maior da vida financeira do cliente passe pela instituição
Por que os bancos estão oferecendo ingressos para Copa do Mundo e aulas de tênis com Nadal? Parece extravagância.
Não é extravagância, é estratégia. Esses clientes têm R$ 6,2 trilhões em patrimônio. O banco que conseguir manter esse cliente por mais tempo, vendendo mais serviços, ganha muito mais do que com investimentos simples.
Mas o texto diz que esses clientes negociam melhores taxas, o que reduz a margem dos bancos. Então por que o cliente de alta renda é tão valioso se a margem é menor?
Porque o valor não está só na margem de investimentos. Está no funding — os depósitos desses clientes financiam as operações de crédito do banco. E eles consomem múltiplos produtos: crédito, serviços internacionais, planejamento patrimonial.
Entendi. Então é sobre ter o cliente inteiro, não só a carteira de investimentos.
Exatamente. Os bancos chamam isso de principalidade. Quanto mais da vida financeira do cliente passar pelo banco, melhor.
Mas há um problema: a inércia bancária. Trocar de banco é complicado. Então como os bancos conquistam novos clientes de alta renda se a barreira é tão alta?
Gradualmente. O C6, por exemplo, começa transferindo parte dos recursos e amplia o relacionamento ao longo do tempo. É um processo longo.
E os herdeiros? Por que os bancos estão criando programas para os filhos dos clientes?
Porque a transferência de patrimônio entre gerações está aumentando. Se o banco conseguir manter o relacionamento com a próxima geração, mantém o cliente por mais 50 anos.
Mas quanto desse patrimônio realmente sai do Brasil? O texto menciona que o Itaú tem R$ 325 bilhões offshore, mas não diz se isso é tendência ou exceção.
É uma tendência. O Santander tem 20% do private no exterior, e a abertura de contas offshore em Miami cresceu 123%. A internacionalização é uma das frentes principais da disputa.
Le Pouls
- R$ 6,2 trilhões concentrados em alta renda e private banking, dois terços de todo investimento de pessoas físicas
- 208 mil clientes private com patrimônio mínimo de R$ 5 milhões e R$ 2,8 trilhões investidos
- Média de R$ 13,5 milhões investidos por cliente private, contra R$ 14,7 mil no varejo tradicional
- Itaú atende 12,3 mil grupos econômicos com R$ 1,2 trilhão em patrimônio no private
- R$ 325 bilhões em patrimônio offshore de clientes private no Itaú, equivalente a 28% do segmento
Segmento de alta renda e private concentra R$ 6,2 trilhões, dois terços de todo investimento de pessoas físicas no Brasil. Bancos expandem serviços para planejamento patrimonial, sucessão, investimentos internacionais e preparação de herdeiros para aumentar relacionamento com clientes.
Bancos ampliam disputa por clientes de alta renda oferecendo experiências exclusivas além de investimentos, como ingressos para Copa do Mundo e treinamento com Rafael Nadal, visando reter R$ 6,2 trilhões em patrimônio.
Os bancos brasileiros estão transformando a competição pelo cliente abastado em uma disputa por sua vida inteira. Não se trata apenas de gerenciar investimentos. Um banco oferece ingressos para a Copa do Mundo. Outro coloca um lounge em estação de esqui. Há crédito para financiar aviões e iates, e até aulas de tênis na academia de Rafael Nadal. A razão é simples: o dinheiro em jogo é imenso, e quem o controla quer mais do que uma carteira de ações.
Em julho deste ano, o segmento de alta renda reunia 26,4 milhões de contas com R$ 3,4 trilhões investidos. O private banking, voltado a pessoas com patrimônio mínimo de R$ 5 milhões, somava 208 mil clientes e R$ 2,8 trilhões. Juntos, esses dois segmentos concentravam cerca de R$ 6,2 trilhões — dois terços de todo o dinheiro investido por pessoas físicas no Brasil. Para comparação, o varejo tradicional, com 179,7 milhões de contas, tinha apenas R$ 14,7 mil investidos por conta em média. No private, a média era de R$ 13,5 milhões por cliente.
Mas a concentração de patrimônio não explica tudo. Igor Rongel, head de private banking do C6, observa que clientes de alta renda costumam negociar melhores taxas e condições, o que reduz a margem dos bancos sobre os investimentos. O verdadeiro valor está em outra parte: esses clientes mantêm recursos relevantes na instituição, consomem múltiplos produtos — desde investimentos internacionais até crédito e serviços para empresas — e seus depósitos financiam as operações de crédito do banco. A estratégia dos bancos é aumentar a chamada principalidade, fazendo com que uma parcela maior da vida financeira do cliente passe pela instituição.
Essa disputa se estende agora para planejamento patrimonial, sucessão, tributação, investimentos no exterior, serviços para empresas e preparação das próximas gerações. O Banco do Brasil criou o High Estilo para clientes com mais de R$ 1 milhão investido e pretende ampliar sua base de alta renda em 25% nos próximos cinco anos. O XP Private Bank busca ser o principal parceiro do cliente em toda sua jornada financeira, na família e nas empresas, no Brasil e no exterior. O Santander relata que clientes de alta renda geram receitas recorrentes, diversificam as fontes de resultado e têm baixo consumo relativo de capital do banco, tornando-os importantes contribuintes para a rentabilidade.
O comportamento desse público também mudou. Segundo César Chicayban, CEO do XP Private Bank, o cliente ficou mais sofisticado, compara custos e modelos de atendimento, questiona a independência das recomendações. A diversificação internacional ganhou espaço. Mudanças nas regras tributárias aumentaram a importância do planejamento patrimonial. Há também uma questão geracional: a transferência de patrimônio entre gerações aumenta a demanda por serviços relacionados à sucessão, governança e educação financeira dos herdeiros.
Os bancos enfrentam, porém, a chamada inércia bancária. Trocar de relacionamento significa reorganizar débitos automáticos, cartões, crédito e outros serviços, além de romper relações construídas ao longo dos anos. Por isso, a conquista de um novo cliente é muitas vezes gradual. O C6 começa pela transferência de parte dos recursos e amplia o relacionamento ao longo do tempo.
A forma como os bancos analisam seus clientes também mudou. Em vez de olhar apenas para a carteira de investimentos, as instituições tentam acompanhar o patrimônio da família como um todo. No Itaú, o private começa em R$ 10 milhões e atende cerca de 12,3 mil grupos econômicos, com um total de R$ 1,2 trilhão em patrimônio. O banco considera investimentos, crédito, planejamento patrimonial, sucessão, governança familiar e exposição internacional. O Itaú informa ter cerca de R$ 325 bilhões em patrimônio offshore de clientes private, equivalente a aproximadamente 28% do dinheiro do segmento. No Santander, o exterior representa cerca de 20% do volume do private, e a abertura de contas offshore em Miami cresceu 123%.
Os bancos também criaram programas específicos para os herdeiros. O Bradesco lançou o New Gen Hub para preparação das próximas gerações. O Banco do Brasil tem o programa Generations, voltado a educação, sucessão e governança familiar para os filhos de clientes. O C6 oferece o Next Wave, programa de imersão no mundo financeiro e de negócios para filhos de clientes entre 16 e 24 anos, e o Summer Job, que permite aos filhos acompanhar uma área do banco por até três meses. A ideia é estender o relacionamento para além do titular da conta e aproximar o banco das próximas gerações. Entre os bancos digitais, o Nubank busca aumentar a concentração ao combinar conta, investimentos, benefícios e serviços internacionais, tendo lançado em 2026 uma campanha de portabilidade de investimentos com recompensas de até R$ 6 mil em cashback ou 200 mil pontos.
Citations marquantes
Nosso objetivo é ser o principal parceiro do nosso cliente em toda sua jornada financeira: na família e em suas empresas, no ativo e no passivo, no Brasil e no exterior— César Chicayban, CEO do XP Private Bank
O cliente ficou mais sofisticado, passou a comparar custos e modelos de atendimento e a questionar a independência das recomendações— César Chicayban, CEO do XP Private Bank