Uma mulher de Salvador que sonhava com uma casa para si e para a filha foi atraída por uma promessa de trabalho no exterior e encontrou, no lugar do emprego prometido, o interior de uma rede de tráfico humano. Karine, 30 anos, teve o passaporte confiscado no Camboja, foi forçada a aplicar golpes telefônicos e tentou tirar a própria vida duas vezes antes de ser transferida para Madagascar, onde ela e outros 22 brasileiros foram presos sem documentos, sem comida e sem água. O caso ilumina uma rota silenciosa de exploração que atravessa continentes e captura pessoas comuns pelo fio da esperança.
Baiana vítima de tráfico humano no Camboja e Madagascar clama por retorno ao Brasil
A emergência não espera pela burocracia
Como alguém cai em uma armadilha assim? Parecia uma oportunidade legítima.
Era. O amigo estava realmente no exterior, tinha realmente conseguido um trabalho. A máfia usa pessoas que já caíram na rede para recrutar outras. É um sistema.
E ninguém desconfiou quando chegou lá e viu que era diferente?
Claro que desconfiou. Mas quando você percebe que o passaporte foi confiscado, que não pode sair do alojamento, que há multas e punições — já é tarde. A saída custa mais do que você ganha.
Duas tentativas de suicídio. Isso é o peso de estar completamente presa.
É estar em um lugar onde ninguém sabe onde você está, onde ninguém pode ajudar, onde o dinheiro que você ganha não é seu. É desespero.
Por que Madagascar? Por que transferiram o grupo?
Não está claro. Talvez a operação no Camboja tivesse ficado quente. Mas em Madagascar, as coisas pioraram — a polícia apareceu, houve agressão, prisão.
E agora? Vinte e três pessoas esperando em um aeroporto.
Esperando que alguém as traga para casa. A burocracia se move devagar. A emergência não espera.
Il Polso
- Karine aceitou uma oferta de emprego em dólar feita por um amigo e embarcou para o Camboja em novembro, sem saber que estava sendo recrutada para uma operação criminosa internacional.
- Ao chegar, teve o passaporte confiscado, foi confinada em alojamento vigiado e obrigada a aplicar golpes em brasileiros sob ameaças, multas e pressão psicológica constante — chegando a tentar suicídio duas vezes.
- O grupo de 23 brasileiros foi transferido para Madagascar, onde a polícia local os deteve, apontou armas, agrediu fisicamente ao menos duas mulheres e os manteve sem acesso a alimentos e água.
- Sem documentos, sem dinheiro e sob vigilância policial no Aeroporto de Antananarivo, os brasileiros dependem de uma ONG local e de uma vaquinha online organizada pela advogada Queila Veloso para conseguir passagens de volta.
- O Ministério das Relações Exteriores confirmou ter recebido relatos e age por meio da Embaixada em Maputo, mas a burocracia avança em ritmo incompatível com a urgência vivida por quem está no aeroporto.
Uma mulher de Salvador que sonhava com uma casa para si e para a filha foi atraída por uma promessa de trabalho no exterior e encontrou, no lugar do emprego prometido, o interior de uma rede de tráfico humano. Karine, 30 anos, teve o passaporte confiscado no Camboja, foi forçada a aplicar golpes telefônicos e tentou tirar a própria vida duas vezes antes de ser transferida para Madagascar, onde ela e outros 22 brasileiros foram presos sem documentos, sem comida e sem água. O caso ilumina uma rota silenciosa de exploração que atravessa continentes e captura pessoas comuns pelo fio da esperança.
Karine tinha um sonho concreto: juntar dinheiro para comprar uma casa onde pudesse criar a filha de 11 anos. Em Salvador, formada como bombeira civil, os bicos não eram suficientes. Quando um amigo que estava no Camboja ofereceu emprego em dólar com alojamento incluído, ela pensou por um mês e decidiu aceitar. Deixou a filha com os avós e embarcou em novembro, após tirar o passaporte pela primeira vez.
Ao chegar, a realidade era outra. O passaporte foi confiscado no primeiro dia. O alojamento era uma prisão com regras, multas e punições. O trabalho consistia em ligar para brasileiros, aplicar golpes e encaminhar vítimas para outros criminosos que se passavam por policiais e promotores. Quando não batia as metas, o dinheiro era descontado de um salário que nunca chegaria às suas mãos. A pressão foi implacável. Karine tentou suicídio duas vezes. Quando tentou fugir, foi informada de uma multa impagável. Não havia saída.
Depois de alguns meses, o grupo foi transferido para Madagascar. Lá, a polícia apareceu no hotel exigindo passaportes que ninguém tinha — estavam com os operadores do esquema. Quando dois colegas se recusaram a entregar os celulares, armas foram apontadas. Karine e uma colega tentaram pedir calma e foram agredidas: um tapa no rosto e jogadas ao chão. Os 23 brasileiros foram levados à delegacia, onde ficaram sem comida e sem água.
O grupo — nove baianos, dois sergipanos, um mineiro, oito cariocas e dois alagoanos — está agora no Aeroporto de Antananarivo, acolhido por uma ONG local, mas sem recursos para comprar passagens de volta. A família de Karine só soube da situação nos últimos dias. A advogada Queila Veloso lançou uma vaquinha online e fez apelos a políticos baianos, recebendo respostas lentas ou nenhuma. "A emergência não espera pela burocracia", escreveu ela. O Ministério das Relações Exteriores confirmou que apura os fatos por meio da Embaixada em Maputo. Enquanto isso, Karine segue longe da filha, esperando por um retorno que ainda não tem data.
Karine tinha 30 anos e um sonho simples: juntar dinheiro para comprar uma casa onde pudesse viver com a filha de 11 anos. Em Salvador, apesar de formada como bombeira civil, o trabalho era escasso. Alguns bicos aqui e ali não eram suficientes. Quando um amigo que estava no Camboja lhe ofereceu uma oportunidade — emprego em dólar, com alojamento incluído, trabalho em atendimento ao público — ela viu uma porta se abrindo. Pensou por um mês e decidiu aceitar. Deixou a filha com os avós e embarcou em novembro do ano passado, após providenciar um passaporte que não tinha.
A viagem durou dois dias, com escala na Turquia. Ao chegar no Camboja, Karine percebeu que algo não batia. O trabalho não era o que lhe haviam prometido. Ela estava em um alojamento do qual não podia sair, cercada de regras, multas e punições. O passaporte foi confiscado no primeiro dia. O que ela descobriria depois é que estava presa em um esquema de fraude internacional: seu trabalho era fazer ligações para brasileiros, aplicando golpes, cooptando vítimas para outras linhas de criminosos que fingiam ser policiais e promotores. Havia scripts para memorizar, metas para bater, clientes para encaminhar. Quando não atingia os números, o dinheiro era descontado do seu salário — um salário que, de qualquer forma, nunca chegaria às suas mãos.
A pressão psicológica foi implacável. Ameaças, intimidações, a sensação constante de estar presa. Karine tentou suicídio duas vezes durante aqueles meses no Camboja. "Tentei suicídio duas vezes no Camboja, porque não aguentava mais aquela situação e não podia ir embora. Sou vítima e só quero ir embora", ela contaria depois, em entrevista ao Correio. Quando tentou fugir, foi informada de uma multa astronômica. Não havia saída.
Depois de alguns meses, o grupo foi transferido para Madagascar. Lá, a situação piorou. A polícia apareceu no hotel onde estavam sendo mantidos e pediu os passaportes. Ninguém tinha os documentos — estavam com os responsáveis pela operação. Dois colegas se recusaram a entregar os telefones aos policiais. Armas foram apontadas. Karine e uma colega tentaram intervir, pedindo calma. Um policial as agrediu, dando um tapa no rosto de ambas e as jogando no chão. Os 23 brasileiros foram levados à delegacia, onde ficaram sem acesso a comida e água.
Agora Karine faz parte de um contingente de 23 brasileiros — nove baianos, dois sergipanos, um mineiro, oito cariocas e dois alagoanos — que estão presos em Madagascar, apelando para retornar ao Brasil. Eles estão no Aeroporto de Antananarivo, acolhidos por uma ONG local, mas sem recursos para comprar passagens. A família de Karine só soube da situação nos últimos dias. Uma advogada amiga, Queila Veloso, começou a fazer apelos a políticos baianos e lançou uma vaquinha online para arrecadar o valor da passagem. "Já fiz apelos aos políticos baianos por ajuda financeira, também sem retorno ou com muita burocracia. Mas a emergência não espera pela burocracia", escreveu Queila na divulgação.
Queila tem contatado autoridades e entidades, mas as respostas são lentas. "Não temos tempo para articular com outros órgãos. Quero trazer ela para ontem. Não tem como ela ficar mais no aeroporto porque a polícia está de olho neles. Estou temendo pela segurança dela", disse a advogada. O Ministério das Relações Exteriores informou que recebeu relatos sobre a situação dos 23 brasileiros e, por intermédio da Embaixada do Brasil em Maputo, busca apurar os fatos junto às autoridades locais. Mas enquanto as engrenagens burocráticas se movem lentamente, Karine segue longe de casa, longe da filha, esperando por um retorno que ainda não tem data.
Citazioni salienti
Tentei suicídio duas vezes no Camboja, porque não aguentava mais aquela situação e não podia ir embora. Sou vítima e só quero ir embora— Karine, vítima de tráfico humano
Não temos tempo para articular com outros órgãos. Quero trazer ela para ontem. Não tem como ela ficar mais no aeroporto porque a polícia está de olho neles— Queila Veloso, advogada