Quero uma solução que preserve o mundo, que mantenha o planeta habitável
No cruzamento entre a vulnerabilidade humana e a inação estatal, um austríaco com esclerose múltipla levou ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos uma questão que a civilização contemporânea ainda hesita em responder: pode um indivíduo responsabilizar seu governo pelos danos concretos que o aquecimento global causa ao seu corpo? Mex Müllner, cujos movimentos se dissolvem quando o calor ultrapassa 25 graus, não busca conforto pessoal — busca que a lei reconheça a crise climática como uma violação de direitos, e não apenas como um problema coletivo sem rosto.
- A síndrome de Uhthoff transforma cada onda de calor em uma sentença temporária: acima de 30°C, Müllner perde completamente a capacidade de andar e depende de cadeira de rodas elétrica.
- O caso, apresentado em 2021, desafia a Áustria a provar que sua legislação climática é suficiente para proteger cidadãos em situação de vulnerabilidade específica.
- Uma vitória criaria o primeiro precedente europeu de vítima individual reconhecida pelo aquecimento global, potencialmente desbloqueando dezenas de ações em 46 países sob a jurisdição do tribunal.
- O processo se apoia na condenação histórica da Suíça em 2024, mas avança além dela ao reivindicar responsabilidade estatal sobre impactos diretos à saúde de uma pessoa.
- Müllner deixa claro que não quer adaptações paliativas — quer que o Estado resolva a crise, não que a administre.
Mex Müllner tem esclerose múltipla e, durante as ondas de calor que varreram a Europa nos últimos anos, tomou uma decisão incomum: processou a Áustria no Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Seu argumento é que a inação climática do governo o prejudica de forma específica e mensurável — e que, se vencer, ele se tornará a primeira pessoa reconhecida pela corte como vítima direta do aquecimento global.
A condição que torna o calor tão perigoso para ele chama-se síndrome de Uhthoff. Quando a temperatura corporal sobe, a condução nervosa diminui, os sinais não chegam aos músculos e os movimentos simplesmente deixam de acontecer. A partir de 25°C, ele perde parte da mobilidade. Acima de 30°C, depende inteiramente de uma cadeira de rodas elétrica. Müllner e sua esposa vivem em uma casa projetada para manter a temperatura interna próxima dos 20 graus — mas ele é enfático: soluções individuais não são suficientes diante da escala da crise climática.
Na ação, ele sustenta que a Áustria não adotou legislação capaz de limitar adequadamente o aquecimento global nem de proteger cidadãos vulneráveis, e que o sistema judicial austríaco não oferece mecanismos eficazes para reparar essa omissão. A advogada Michaela Kroemer aponta que uma vitória abriria caminho para processos semelhantes em outros 46 países europeus, ampliando os efeitos da condenação histórica da Suíça em 2024 por falhas em sua política climática.
Quando perguntado sobre o que esperava como solução, Müllner foi direto: não quer ar-condicionado instalado pelo governo em sua casa. Quer que o planeta permaneça habitável. É a diferença entre acomodar-se à crise e enfrentá-la — e é essa distinção que o tribunal europeu agora terá de julgar.
Mex Müllner está em uma cadeira de rodas. Tem esclerose múltipla. E durante as ondas de calor que varreram a Europa nos últimos anos, ele tomou uma decisão que pode mudar o modo como a lei europeia entende a responsabilidade dos governos pelo clima: processou a Áustria.
O austríaco, na casa dos 40 anos, apresentou sua ação ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos em 2021. Seu argumento é direto: o governo não faz o suficiente para combater as mudanças climáticas, e essa inação o prejudica de forma específica e mensurável. Se vencer, Müllner se tornaria a primeira pessoa reconhecida pela corte como vítima direta do aquecimento global — um precedente que poderia abrir caminho para dezenas de processos semelhantes em toda a Europa.
A razão pela qual o calor o afeta tão profundamente está em uma condição chamada síndrome de Uhthoff, que agrava os sintomas de sua esclerose múltipla quando a temperatura corporal sobe. Ele explicou o mecanismo à Agence France-Presse: quando está quente, a velocidade de condução nervosa diminui, os sinais deixam de chegar aos músculos, e os movimentos que ele gostaria de fazer simplesmente não acontecem. A partir dos 25 graus Celsius, ele perde parte da mobilidade e não consegue mais caminhar. Quando os termômetros ultrapassam 30 graus, ele depende inteiramente de uma cadeira de rodas elétrica.
Müllner e sua esposa vivem em uma pequena cidade austríaca, em uma casa especialmente projetada para manter a temperatura interna próxima dos 20 graus durante todo o ano. Mas ele é claro sobre o fato de que soluções individuais — mesmo uma casa bem construída — não são suficientes diante da escala das mudanças climáticas. Na ação judicial, ele sustenta que o governo não adotou legislação capaz de limitar adequadamente o aquecimento global nem de proteger cidadãos vulneráveis. Também argumenta que o sistema judicial austríaco não oferece mecanismos eficazes para reparar essa omissão.
A advogada Michaela Kroemer, que trabalha no caso, observa que uma vitória abriria as portas para ações semelhantes em outros 46 países que fazem parte da jurisdição do tribunal europeu. O processo também se constrói sobre uma decisão histórica da corte de 2024, quando ela condenou a Suíça por falhas em sua política climática. Mas o caso de Müllner vai além: ele busca o reconhecimento de um direito individual de responsabilizar o Estado pelos impactos específicos do aquecimento global sobre a saúde de uma pessoa.
"O governo deveria ter feito mais. Poderia ter feito mais", disse Müllner. Mas quando perguntado sobre o que ele esperava como solução, sua resposta foi clara e reveladora: não quer que o governo instale ar-condicionado em sua casa. Quer uma solução que preserve o mundo, que mantenha o planeta como um lugar habitável para a humanidade. É uma distinção importante — a diferença entre acomodar-se à crise e resolvê-la. O tribunal europeu agora terá de decidir se concorda.
Notable Quotes
O governo deveria ter feito mais. Poderia ter feito mais.— Mex Müllner
Não quero que o governo austríaco instale ar condicionado na minha casa. Quero uma solução que preserve o mundo, que mantenha o planeta como um lugar habitável para a humanidade.— Mex Müllner
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que esse caso importa agora, neste momento específico?
Porque pela primeira vez, alguém está pedindo ao tribunal para reconhecer que o aquecimento global não é apenas um problema ambiental abstrato — é uma lesão pessoal, mensurável, que afeta o corpo de uma pessoa real. Müllner não está pedindo compensação por um dano hipotético. Ele está documentando como o calor o paralisa.
E se ele ganhar, o que muda?
Muda tudo. De repente, 46 países europeus enfrentam o risco de processos semelhantes. Governos teriam de demonstrar que estão fazendo o suficiente para proteger pessoas vulneráveis do calor. Não é mais uma questão de política — vira uma questão de direito.
Mas ele vive em uma casa bem construída, certo? Então por que o calor ainda o afeta tanto?
Porque a síndrome de Uhthoff não respeita paredes bem isoladas. Quando a temperatura sobe, o corpo dele sobe também. E acima de 25 graus, seu sistema nervoso começa a falhar. Nenhuma casa resolve isso. Só um planeta mais frio resolve.
Ele está pedindo que o governo instale ar-condicionado?
Não. Ele deixou isso muito claro. Não quer uma solução individual. Quer que o governo faça o que deveria ter feito há anos — reduzir as emissões, limitar o aquecimento. Quer que o planeta não chegue a 30 graus em primeiro lugar.
E a Suíça? Por que ela foi condenada?
Por não fazer o suficiente para cumprir suas obrigações climáticas. Mas aquela decisão era sobre política climática em geral. O caso de Müllner é diferente — é sobre o direito de uma pessoa específica de não sofrer danos à saúde por causa da inação governamental.
Qual é a chance de ele ganhar?
Ninguém sabe. Mas o tribunal já mostrou que está disposto a condenar países por falhas climáticas. E Müllner tem algo que muitos ativistas climáticos não têm: uma lesão documentada, mensurável, que piora com o calor. Isso é difícil de ignorar.