Ativismo de Moraes exige sempre mais heterodoxia judicial

Jair Bolsonaro permanece sob restrições severas de comunicação e movimento enquanto cumpre pena de 27 anos de prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado.
Cada desvio bem-intencionado exige o próximo
Reflexão sobre como o ativismo judicial cria uma espiral de novas flexibilizações para lidar com anomalias das decisões anteriores.
Mark

Por que você acha que um juiz que começa a flexibilizar as regras fica preso nesse ciclo?

Mimi

Porque cada exceção cria um precedente que você tem de justificar de novo. Se você proíbe comunicação uma vez, fica difícil permitir depois sem parecer inconsistente. Então você aperta mais.

Mark

Mas não há casos em que a rigidez das regras é injusta?

Mimi

Claro que há. O problema não é flexibilizar quando é necessário. É fazer isso sem reconhecer que você está flexibilizando, sem admitir o custo institucional.

Mark

Qual é o custo institucional aqui?

Mimi

Quando um ministro do Supremo começa a ditar o que o Tribunal Eleitoral pode ou não fazer, as instituições perdem clareza. Cada órgão tem seu lugar. Se o Supremo invade tudo, ninguém sabe mais quem manda em quê.

Mark

E se o Tribunal Eleitoral não fizer nada?

Mimi

Aí existem recursos. O Supremo pode revisar. Mas tem de esperar. Tem de deixar o processo funcionar. Quando você age antes, você está dizendo que não confia nas outras instituições.

Mark

Isso é sobre Bolsonaro especificamente ou sobre algo maior?

Mimi

É sobre Bolsonaro, sim. Mas é também sobre o que acontece quando um juiz poderoso decide que seus objetivos justificam os meios. Hoje é contra Bolsonaro. Amanhã pode ser contra qualquer um.

  • Moraes proibiu Flávio Bolsonaro de visitar o pai preso em casa após uma carta de apoio familiar ser interpretada como violação de medida cautelar — decisão que vai além do que o direito processual penal canônico permite.
  • Bolsonaro vive sob incomunicabilidade quase absoluta, restrição que nem presos comuns enfrentam e que contrasta com o tratamento dado a Lula quando este esteve preso sem condenação transitada em julgado.
  • Um vídeo gerado por inteligência artificial colocou Moraes diante de um dilema sem saída: se Bolsonaro autorizou o vídeo, volta à prisão; se negou, o ministro sugeriu punições eleitorais ao filho — competência que pertence ao TSE, não ao STF.
  • Cada intervenção heterodoxa exige a próxima para sustentar a anterior, criando uma espiral em que o 'direito criativo' substitui a ortodoxia institucional e fragiliza a credibilidade do próprio Judiciário.

Quando um magistrado decide que o fim justifica os meios, cada exceção abre caminho para a próxima. No Brasil de 2026, o ministro Alexandre de Moraes acumula decisões que restringem visitas familiares, silenciam o condenado e avançam sobre competências do Tribunal Superior Eleitoral — todas em nome de conter Jair Bolsonaro, que cumpre pena domiciliar por tentativa de golpe. O que começa como correção de uma anomalia vai gerando outras, e a pergunta que paira sobre o Supremo Tribunal Federal é até onde a corrente pode ser esticada antes de romper.

Existe um problema clássico que persegue qualquer juiz disposto a contornar regras em nome de um objetivo que lhe parece justo: cada desvio cria novas anomalias que exigem novos desvios. O ministro Alexandre de Moraes parece estar vivendo essa espiral.

Há três semanas, Moraes proibiu Flávio Bolsonaro — candidato à Presidência pelo PL — de visitar seu pai Jair em casa, onde este cumpre pena de 27 anos por tentativa de golpe de Estado. O gatilho foi uma carta do ex-presidente reafirmando apoio ao filho, interpretada como violação de medida cautelar que proibia manifestações públicas de Bolsonaro, inclusive por meio de terceiros.

O problema está na sequência de flexibilizações. A incomunicabilidade é medida excepcionalíssima — nem presos comuns perdem completamente o direito a visitas. Bolsonaro, porém, vive sob essa restrição como se fosse parte da sentença. Que seja punido pelo que disser faz sentido; que seja proibido a priori e indefinidamente de se expressar é outra coisa. Quando Lula cumpriu prisão, ninguém lhe cassou esse direito, ainda que sua condenação não tivesse transitado em julgado — diferentemente da de Bolsonaro.

Um vídeo feito com inteligência artificial, mostrando Jair endossando a candidatura de Flávio em convenção, levou Moraes a agir novamente. O ex-presidente negou ter consentido na produção. O impasse é revelador: se tivesse dito que sim, poderia retornar à prisão; ao dizer que não, Moraes sugeriu que Flávio poderia sofrer punições eleitorais — atribuição que pertence ao Tribunal Superior Eleitoral, não ao Supremo.

A institucionalidade brasileira ganharia se a cúpula do Judiciário voltasse à ortodoxia. Cada desvio bem-intencionado exige o próximo, e em algum ponto a corrente fica tão esticada que não aguenta mais.

Existe um problema clássico que assombra qualquer juiz disposto a contornar as regras em nome de um objetivo que lhe parece justo: cada desvio da ortodoxia cria novas anomalias que exigem novos desvios. É como tentar consertar um vazamento com um remendo que causa dois vazamentos diferentes. O ministro Alexandre de Moraes do Supremo Tribunal Federal parece estar vivendo essa espiral.

Há três semanas, Moraes proibiu Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, de visitar seu pai Jair em casa. Jair cumpre ali uma pena de 27 anos por tentativa de golpe de Estado. O gatilho foi uma carta do ex-presidente reafirmando apoio ao filho — um gesto familiar que Moraes interpretou como violação de uma medida cautelar de julho de 2025 que proibia manifestações públicas de Bolsonaro, inclusive através de terceiros.

Mas observe a sequência de flexibilizações. A incomunicabilidade deveria ser uma medida excepcionalíssima, reservada para casos extremos. Nem presos comuns perdem completamente o direito de receber visitas. Bolsonaro, porém, vive sob essa restrição como se fosse parte de sua sentença. Que ele seja punido pelo que disser ou transmitir faz sentido. Que seja proibido a priori e indefinidamente de se expressar é outra coisa — um vedamento que parece estranho ao direito. Quando Luiz Inácio Lula da Silva cumpriu prisão, ninguém lhe cassou esse direito, ainda que sua condenação não tivesse transitado em julgado, diferentemente da de Bolsonaro.

Proibir um familiar de visitar o preso, especialmente quando esse familiar é seu advogado constituído, também não segue as melhores práticas do direito processual penal. Essas heterodoxias acumuladas produziram uma consequência previsível: mais uma intervenção.

Um vídeo feito com inteligência artificial, mostrando Jair Bolsonaro endossando a candidatura de Flávio em uma convenção, levou Moraes a agir novamente. O ex-presidente negou ao juiz ter consentido na produção. O absurdo está aqui: se tivesse dito que sim, poderia ter voltado para a prisão. Se disse que não, Moraes sugeriu que Flávio poderia sofrer punições eleitorais.

Mas quem julga infrações ao código eleitoral e determina sanções é o Tribunal Superior Eleitoral, não o Supremo. Moraes não integra esse órgão. O Supremo pode julgar recursos de decisões do TSE quando tocam temas constitucionais, mas a ideia de que o STF funciona como corte revisora do tribunal eleitoral é uma construção que seus aliados têm circulado. Seria mais decoroso esperar em silêncio que os recursos chegassem aos gabinetes.

A institucionalidade brasileira ganharia se a cúpula do Judiciário voltasse à ortodoxia. Cada desvio bem-intencionado exige o próximo. E em algum ponto, a corrente fica tão esticada que não aguenta mais.

A incomunicabilidade deveria ser medida excepcionalíssima, inclusive para quem cumpre pena de prisão, mas perdura no caso de Jair Bolsonaro como se fizesse parte de seu castigo
— Colunista da Folha de S.Paulo
A institucionalidade seria beneficiada com a volta à ortodoxia da cúpula do Judiciário brasileiro
— Colunista da Folha de S.Paulo
Contact Us FAQ