Cada massacre em solo americano reaviva uma questão que a ciência já respondeu, mas a política recusa enfrentar: o perigo que uma mente perturbada representa para o mundo ao redor é amplificado, de forma decisiva, pela facilidade com que essa mente consegue empunhar uma arma. O tiroteio numa escola primária no Sul do Texas, onde 21 vidas — 19 delas crianças — foram ceifadas por um jovem de 18 anos com um historial de sofrimento e acesso legal a armas, é mais um capítulo de um padrão que os dados confirmam e a sociedade americana ainda hesita em interromper.
Atiradores em massa são desequilibrados com acesso fácil a armas, diz especialista
O acesso a armas é o grande facilitador e responsável por dar omnipotência
Quando o especialista diz que estes indivíduos são "desequilibrados", está a falar de diagnósticos específicos ou é mais uma descrição geral?
Abrunhosa Gonçalves é cuidadoso em não diagnosticar Ramos especificamente — diz que ainda há muito a investigar. Mas a investigação aponta para um padrão: perturbações mentais estabelecidas. Não é apenas "estar triste" ou "ter um mau dia".
Mas aqui está a questão — o estudo que ele cita não especifica quais são essas patologias. Trauma na infância é comum em muitas pessoas que nunca cometem violência. Como é que sabemos que a perturbação mental é a causa e não apenas uma correlação?
Então o argumento dele é basicamente que as armas são o fator decisivo?
Não exatamente. Ele diz que é a combinação. Desequilíbrio mental mais acesso a armas. Sozinhos, nenhum dos dois é suficiente.
Mas ele não tem dados sobre quantas pessoas com perturbações mentais vivem nos EUA e não cometem ataques. Sem esse número, é difícil avaliar se a arma é realmente o fator decisivo ou apenas uma ferramenta que amplifica o que já estava lá.
O exemplo da faca na Universidade do Minho — isso não prova que a arma teria mudado o resultado?
Não prova, é verdade. É um contrafactual. Mas o ponto dele é válido: uma faca tem um alcance e uma lethality muito diferentes de uma arma de fogo. O dano potencial é radicalmente diferente.
Concordo, mas ele está a especular sobre um cenário que não aconteceu. O que sabemos é que o estudante atacou com uma faca e causou ferimentos superficiais. Tudo o resto é imaginação, ainda que razoável.
O estudo do Departamento de Justiça — isso é sólido?
Sim, é um estudo federal americano que analisa décadas de dados. O Violence Project é uma instituição respeitável. Mas note-se que o estudo identifica padrões comuns, não causas definitivas.
E mais de metade obtiveram as armas legalmente — isso é importante porque sugere que não é apenas sobre armas ilegais. É sobre o sistema de acesso legal ser demasiado permissivo. Mas novamente, o estudo não nos diz quantas pessoas obtêm armas legalmente sem nunca as usar para violência.
El Pulso
- Um rapaz de 18 anos com historial de bullying, mãe toxicodependente e crescente isolamento comprou armas legalmente dias após fazer anos — e usou-as para matar 21 pessoas, incluindo 19 crianças.
- Especialistas alertam que o desequilíbrio mental, por si só, não explica os massacres: é o acesso fácil a armas altamente letais que transforma perturbação em carnificina em larga escala.
- Ao contrário de assassinos em série, os atiradores em massa não planeiam fuga nem escolhem vítimas — atiram em quem aparece à frente, numa explosão de impulso sem contenção que termina quase sempre na sua própria morte.
- Dados do Departamento de Justiça dos EUA, compilados desde 1966, mostram que mais de metade dos atiradores obtiveram as armas legalmente, reforçando o argumento de que a regulação é o nó central do problema.
- O debate sobre controlo de armas nos Estados Unidos permanece deliberadamente bloqueado, segundo especialistas, mesmo perante evidências científicas e um custo humano que se repete com regularidade perturbadora.
Cada massacre em solo americano reaviva uma questão que a ciência já respondeu, mas a política recusa enfrentar: o perigo que uma mente perturbada representa para o mundo ao redor é amplificado, de forma decisiva, pela facilidade com que essa mente consegue empunhar uma arma. O tiroteio numa escola primária no Sul do Texas, onde 21 vidas — 19 delas crianças — foram ceifadas por um jovem de 18 anos com um historial de sofrimento e acesso legal a armas, é mais um capítulo de um padrão que os dados confirmam e a sociedade americana ainda hesita em interromper.
Rui Abrunhosa Gonçalves, professor catedrático de Psicologia Forense na Universidade do Minho, tem uma resposta direta para a pergunta que regressa após cada massacre: o perigo que uma pessoa descompensada representa está diretamente ligado à facilidade com que acede a armas de fogo. O caso de Salvador Ramos — 18 anos, historial de gaguez, mãe toxicodependente, bullying persistente — ilustra o padrão com brutalidade: dias depois de fazer anos, comprou legalmente as armas que usaria para matar 21 pessoas numa escola primária no Sul do Texas, 19 das quais crianças.
Para o especialista, o desequilíbrio mental é uma condição necessária mas insuficiente. O que transforma potencial em ação é um segundo elemento: o acesso fácil a armas letais com grande capacidade de fogo. Os atiradores em massa distinguem-se de outros criminosos violentos pela ausência de estratégia — não planeiam fuga, não escolhem vítimas com cuidado, e quase sempre morrem às mãos da polícia ou por suicídio. É a expressão crua de um impulso sem contenção.
Abrunhosa Gonçalves recorre a um modelo simples: para que um crime aconteça, é preciso uma lei, um criminoso, uma vítima e uma oportunidade. Nos tiroteios em massa, a oportunidade é o acesso a armas — e nos Estados Unidos essa oportunidade existe em abundância. Para ilustrar, recorda um incidente na Universidade do Minho em que um estudante descompensado atacou um professor com uma faca de cozinha, causando apenas ferimentos superficiais. Com uma arma de fogo, o desfecho teria sido outro.
Um estudo do Departamento de Justiça dos EUA, compilado pelo Violence Project com dados desde 1966, confirma o padrão: trauma na infância, crise pessoal, exposição a modelos de violência — e, sempre presente, acesso a armas. Mais de metade dos atiradores obtiveram-nas legalmente. O especialista é claro: é uma questão que os Estados Unidos deliberadamente não querem resolver.
Rui Abrunhosa Gonçalves, professor catedrático de Psicologia Forense na Universidade do Minho, tem uma resposta simples para uma pergunta que assombra o mundo depois de cada massacre: o perigo que uma pessoa descompensada representa para os outros está diretamente ligado a uma coisa — a facilidade com que consegue acesso a armas de fogo.
O caso que o motivou a falar publicamente é o de Salvador Ramos, um rapaz de 18 anos que entrou numa escola primária no Sul do Texas e matou 21 pessoas, entre elas 19 crianças e duas professoras. Amigos e familiares descrevem Ramos como alguém que sofreu desde cedo: gaguez na infância, uma mãe toxicodependente, bullying persistente que o tornava cada vez mais violento. Dias depois de fazer 18 anos, comprou as armas que usaria no massacre.
Para Abrunhosa Gonçalves, ainda há muito a investigar sobre os antecedentes específicos de Ramos, mas a investigação aponta para um padrão claro: quem comete este tipo de crimes é tipicamente alguém com desequilíbrio mental ou uma perturbação já estabelecida. Mas isso sozinho não explica tudo. Há um segundo elemento que transforma potencial em ação — o acesso fácil a armas de fogo, particularmente nos Estados Unidos.
O que distingue os atiradores em massa de outros criminosos violentos é a sua falta de estratégia. Ao contrário de um assassino em série, que planeia fugas e esconde-se, estes indivíduos raramente têm um plano de saída. Geralmente morrem às mãos da polícia ou suicidam-se. Também não escolhem as vítimas com cuidado — simplesmente atiram em quem aparece à sua frente. É a manifestação crua de um impulso sem contenção.
Abrunhosa Gonçalves recorre a um modelo simples para explicar como um crime acontece: é preciso uma lei, um criminoso, uma vítima e uma oportunidade. Nos casos de tiroteios em massa, a oportunidade é o acesso a armas altamente letais com muita munição, capazes de ferir múltiplas pessoas rapidamente. Nos Estados Unidos, essa oportunidade existe em abundância — e, segundo o especialista, é uma questão que o país deliberadamente não quer resolver.
Para ilustrar o seu ponto, Abrunhosa Gonçalves recorda um incidente na Universidade do Minho, há alguns anos: um estudante gravemente descompensado atacou um professor com uma faca de cozinha, causando ferimentos superficiais. O especialista coloca a questão diretamente — se esse estudante tivesse tido acesso fácil a uma arma de fogo como nos Estados Unidos, nem o professor nem quem tentasse intervir teria sobrevivido para contar a história.
O acesso a armas, defende, é o grande facilitador e, simultaneamente, o responsável por conferir uma sensação de omnipotência aos perpetradores. Quando alguém segura uma arma, sente-se cheio de poder, capaz de fazer o que quiser. Há dois elementos que aparecem consistentemente em quem leva a cabo estes ataques: uma patologia mental, mais ou menos estabelecida, e acesso a armas. O grau de perigo que uma pessoa descompensada representa está diretamente proporcional à oportunidade que lhe é criada.
Um estudo do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que analisa dados desde 1966 e foi compilado pelo Violence Project — um centro dedicado a reduzir a violência através de dados e análise — corrobora exatamente o que Abrunhosa Gonçalves defende. O padrão é consistente: os atiradores tipicamente vivenciaram trauma na infância, enfrentaram uma crise pessoal ou mágoa específica, e encontraram exemplos que validavam os seus sentimentos ou forneciam um mapa para as suas ações. O quarto elemento, sempre presente, é o acesso a armas de fogo. Mais de metade de todos os atiradores na base de dados conseguiram obter as armas legalmente.
Citas Notables
O grau de perigo de uma pessoa descompensada para terceiros está directamente relacionado com a oportunidade que se cria quando há um fácil acesso a armas— Rui Abrunhosa Gonçalves, professor catedrático de Psicologia Forense
Um crime baseia-se sobretudo em quatro coisas: haver uma lei, um criminoso, uma vítima e uma oportunidade— Rui Abrunhosa Gonçalves