Ataques coordenados entre houthis e milícias iraquianas revelam aprofundamento do Eixo da Resistência

Mídia alinhada ao Irã lamentou morte de membros da Guarda Revolucionária iraniana, combatentes iraquianos e pelo menos um houthi em resposta aos ataques aéreos sauditas e americanos.
Coordenação direta entre membros do eixo, sem intermediação iraniana
Pesquisador do Chatham House descreve a evolução operacional do Eixo da Resistência.
Mark

Por que exatamente o Iraque se tornou tão importante para essa rede agora?

Mimi

Porque os outros pilares desabaram. Assad caiu na Síria, o Hezbollah foi gravemente enfraquecido no Líbano. O Iraque é o que sobrou — e geograficamente é perfeito. Oitocentos quilômetros de fronteira com a Arábia Saudita, espaço aberto, difícil de vigiar.

Mark

Mas o Iraque tem um governo. Por que não consegue controlar isso?

Mimi

Tem um governo, sim, mas não tem controle real sobre grupos armados que operam em seu território. Ali al-Zaidi quer desarmar essas facções até setembro, mas elas se recusam. É uma ficção legal — o Iraque diz que investiga, que vai resolver, mas na prática não consegue.

Mark

E os houthis? Eles realmente têm capacidade de coordenar operações complexas com grupos iraquianos?

Mimi

Têm. Anunciaram uma sala de operações conjunta em 2024. Têm representantes permanentes em Bagdá. Não é algo improvisado — é estrutura. Treinamento, coordenação direta, confiança mútua.

Mark

O que muda se eles conseguem fazer isso sem depender tanto do Irã?

Mimi

Tudo. Significa que o Irã criou uma rede que agora funciona por conta própria. Mais difícil de desmantelar, mais resiliente. Se você ataca o Irã, a rede continua operando.

Mark

E quanto aos mortos? Quanto custou essa operação?

Mimi

Pelo menos um houthi, membros da Guarda Revolucionária, combatentes iraquianos. Não sabemos números exatos, mas foi o suficiente para que o primeiro-ministro iraquiano cancelasse sua visita à Arábia Saudita. Isso diz algo sobre o peso político do que aconteceu.

  • Caças sauditas e americanos atacaram instalações no Iraque após houthis e milícias iraquianas coordenarem golpes contra refinarias de petróleo na província oriental da Arábia Saudita.
  • A operação revelou uma maturação alarmante do Eixo da Resistência: pela primeira vez, membros da rede agiram em conjunto sem intermediação iraniana constante, sugerindo autonomia operacional inédita.
  • Com o Hezbollah enfraquecido no Líbano e Assad derrubado na Síria, o Iraque assumiu o papel de nó estratégico da aliança, sua fronteira de 800 km com a Arábia Saudita tornando-se corredor de operações secretas.
  • Os ataques deixaram mortos — membros da Guarda Revolucionária iraniana, combatentes iraquianos e pelo menos um houthi — e forçaram o primeiro-ministro iraquiano a cancelar visita diplomática a Riad.
  • O Iraque permanece preso entre a ambição de seu premier de desarmar facções até setembro e a incapacidade demonstrada de impedir que seu território seja usado como plataforma de ataques contra vizinhos do Golfo.

No coração do Oriente Médio, uma aliança que muitos julgavam fragmentada revela sua nova arquitetura: houthis iemenitas e milícias iraquianas alinhadas ao Irã coordenaram ataques a instalações petrolíferas sauditas a partir do solo iraquiano, provocando retaliação aérea conjunta de Riad e Washington. O que emerge não é apenas mais um episódio de violência regional, mas o sinal de uma rede que aprendeu a operar com autonomia crescente — sem depender de ordens diretas de Teerã para agir em concerto. O Iraque, antes periferia desse tabuleiro, tornou-se seu novo centro gravitacional, enquanto o conflito redesenha suas fronteiras invisíveis.

Na quarta-feira, caças sauditas e americanos atacaram instalações no Iraque que, segundo Riad, haviam servido de base para ataques coordenados contra refinarias de petróleo na província oriental saudita. A resposta militar importava menos pelo que destruiu do que pelo que expôs: o Eixo da Resistência — a rede de grupos alinhados ao Irã que se estende do Líbano ao Iêmen — está se reorganizando com uma coesão que preocupa Washington e seus aliados regionais.

Os houthis foram identificados como responsáveis pelos ataques às instalações petrolíferas, mas não agiram sozinhos. Facções armadas iraquianas leais a Teerã coordenaram a operação a partir do território iraquiano, sob supervisão da Guarda Revolucionária Islâmica. O pesquisador Farea al-Muslimi, do Chatham House, destacou o elemento mais perturbador: essa coordenação agora ocorre diretamente entre os membros do eixo, sem necessidade de intermediação iraniana constante — sinal de uma aliança que amadureceu.

O Iraque tornou-se peça central nessa reconfiguração. Com a queda de Assad na Síria e o enfraquecimento do Hezbollah no Líbano, o país emergiu como novo nó estratégico da rede. Sua fronteira de mais de 800 quilômetros com a Arábia Saudita, difícil de vigiar, oferece cobertura ideal para operações secretas. Os houthis mantêm presença permanente em Bagdá, com escritórios e representante oficial que realiza reuniões públicas com partidos xiitas e facções armadas. Em 2024, o líder houthi Abdul Malik al-Houthi já havia anunciado uma sala de operações conjunta com grupos iraquianos.

A retaliação aérea deixou mortos entre membros da Guarda Revolucionária, combatentes iraquianos e pelo menos um houthi. O primeiro-ministro Ali al-Zaidi cancelou visita prevista ao príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman — termômetro da tensão diplomática gerada. Zaidi prometeu colocar todas as armas sob controle do Estado até setembro, mas o Iraque tem demonstrado pouca capacidade de impedir que seu território seja usado como plataforma de ataques contra vizinhos do Golfo. O Eixo da Resistência, ao que tudo indica, não se enfraqueceu com anos de bombardeios — refinando-se através deles.

Na quarta-feira desta semana, caças sauditas e americanos decolaram em direção ao Iraque. O alvo: instalações que, segundo Riad, haviam coordenado ataques contra refinarias de petróleo na província oriental da Arábia Saudita dias antes. O que tornou essa resposta significativa não foi apenas a retaliação em si, mas o que ela revelava sobre como o conflito no Oriente Médio está se reorganizando — e como grupos que antes operavam de forma mais isolada agora trabalham juntos com uma precisão que preocupa Washington e seus aliados regionais.

Os houthis, milícia iemenita alinhada ao Irã, foram os responsáveis pelos ataques às instalações petrolíferas sauditas, de acordo com avaliações da própria Arábia Saudita e de parceiros regionais. Mas não agiram sozinhos. Grupos armados iraquianos, particularmente facções leais a Teerã, coordenaram a operação do território iraquiano sob supervisão da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Essa cooperação reflete algo mais amplo: o aprofundamento dos laços dentro do chamado Eixo da Resistência, a rede de atores alinhados ao Irã que se estende do Líbano ao Iêmen.

O que torna esse desenvolvimento particularmente notável é que a coordenação agora ocorre diretamente entre os membros do eixo, sem necessidade de intermediação iraniana constante. Farea al-Muslimi, pesquisador do think tank Chatham House, observou que há agora treinamento e coordenação diretos entre os próprios membros da rede. Essa autonomia operacional sugere uma maturação da aliança — grupos que aprenderam a trabalhar juntos, que compartilham infraestrutura, que confiam uns nos outros o suficiente para executar operações complexas em conjunto.

O Iraque, neste contexto, tornou-se peça central. Após a queda de Bashar al-Assad na Síria e o enfraquecimento do Hezbollah no Líbano, o país mesopotâmico emergiu como nó estratégico do eixo. Sua geografia ajuda: uma fronteira de mais de 800 quilômetros com a Arábia Saudita, difícil de policiar, oferece cobertura ideal para operações secretas. Centenas de ataques contra o Kuwait, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos foram atribuídos a grupos operando no Iraque — desde dois drones em março contra a embaixada americana em Riad até um ataque em maio à usina nuclear de Barakah nos Emirados.

Os houthis mantêm presença permanente no Iraque, com escritórios e um representante oficial, Ahmed al-Sharafi, que realiza reuniões públicas com partidos xiitas iraquianos e facções armadas. Em 2024, o líder houthi Abdul Malik al-Houthi anunciou a existência de uma sala de operações conjunta com facções iraquianas, e mais tarde naquele ano os dois grupos anunciaram sua primeira operação coordenada contra Israel. Cartazes com o slogan houthi — "Deus é o maior, morte à América, morte a Israel, maldição aos judeus, vitória ao Islã" — pendem em várias partes de Bagdá há anos.

A resposta saudita e americana de quarta-feira deixou mortos. A mídia alinhada ao Irã lamentou a morte de membros da Guarda Revolucionária Islâmica, combatentes iraquianos e pelo menos um houthi. O primeiro-ministro iraquiano, Ali al-Zaidi, cancelou uma visita prevista à Arábia Saudita para se reunir com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman — um sinal da tensão que os ataques provocaram nas relações diplomáticas.

O Iraque, porém, permanece preso em uma contradição. Zaidi traçou um plano ambicioso para colocar todas as armas sob controle do Estado até o final de setembro, apesar da oposição de facções armadas. Mas o país tem demonstrado pouca capacidade de lidar com as alegações de que seu território é usado para ataques contra vizinhos árabes, prejudicando sua credibilidade no Golfo Pérsico. Enquanto isso, o Eixo da Resistência continua se fortalecendo — não apesar dos anos de ataques americanos e israelenses, mas, aparentemente, através deles, refinando suas operações e expandindo sua alcance.

Agora há treinamento e coordenação diretos entre os próprios membros do Eixo da Resistência, não apenas entre eles e o Irã
— Farea al-Muslimi, pesquisador do Chatham House
Want the full story? Read the original at R7 ↗
Contact Us FAQ