Enche-me de tanta repugnância que não o suporto
Durante quase duas décadas, Rex Heuermann levou uma vida dupla entre os arranha-céus de Manhattan e as margens sombrias de Gilgo Beach, onde oito mulheres desapareceram sem que o mundo prestasse grande atenção. Hoje, aos 62 anos, o arquiteto foi condenado a prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional — uma sentença que encerra um longo silêncio e devolve, ainda que parcialmente, um sentido de justiça às famílias que esperaram décadas. O caso lembra-nos que a invisibilidade das vítimas não é acidente, mas condição, e que a verdade, quando finalmente emerge, carrega o peso de tudo o que foi adiado.
- Durante 17 anos, oito mulheres foram assassinadas e desmembradas sem que a investigação avançasse — a sua marginalização social tornava os seus desaparecimentos fáceis de ignorar.
- O caso permaneceu estagnado por mais de uma década até que uma côdea de pizza descartada num caixote do lixo em Manhattan forneceu o ADN que ligou Heuermann aos restos mortais das vítimas.
- Em tribunal, familiares confrontaram o assassino diretamente: uma irmã pediu-lhe que a olhasse enquanto lhe dizia que esperava que ele sofresse, recordando uma chamada telefónica provocatória recebida quando tinha 15 anos.
- Heuermann declarou-se culpado de sete homicídios e admitiu um oitavo, recebendo hoje a sentença máxima — prisão perpétua sem liberdade condicional.
- No âmbito do acordo, comprometeu-se a cooperar com o FBI na identificação de outros assassinos em série, abrindo a possibilidade de que outros casos sem resolução possam finalmente ser esclarecidos.
Rex Heuermann, arquiteto de 62 anos, foi condenado hoje a prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional pelo assassinato de oito mulheres ao longo de 17 anos — um caso que transformou uma série de desaparecimentos esquecidos num dos mistérios criminais mais perturbadores de Nova Iorque.
Tudo começou de forma quase invisível. Jovens trabalhadoras do sexo desapareciam sem conexão aparente e com pouca atenção mediática. Em 2010, enquanto investigadores procuravam pistas sobre o desaparecimento de Shannan Gilbert, começaram a encontrar restos mortais espalhados ao longo da Ocean Parkway, perto de Gilgo Beach em Long Island. O padrão de um assassino em série que operara durante décadas começou a tomar forma — mas a investigação ficaria estagnada por mais de dez anos.
A viragem chegou em 2022, quando os detetives associaram Heuermann a uma carrinha vista no momento do desaparecimento de uma das vítimas. A partir daí, tudo se abriu: ADN recolhido de uma côdea de pizza que ele deitara fora em Manhattan foi associado a fragmentos de cabelo encontrados nos restos mortais, e dados de telemóvel confirmaram que ele marcara encontros com as vítimas pouco antes de desaparecerem.
Em abril, Heuermann declarou-se culpado de sete homicídios, admitindo ainda em tribunal a morte de uma oitava mulher. Na audiência de sentença, com as mãos entrelaçadas sobre a mesa, ouviu as famílias das vítimas falarem diretamente para ele. Jasmine Robinson, prima de Jessica Taylor, disse não o suportar. Amanda Funderburg, irmã de Melissa Barthelemy, pediu-lhe que a olhasse enquanto falava — recordando uma chamada telefónica provocatória que recebera dele dias após o desaparecimento da irmã, quando tinha apenas 15 anos.
No âmbito do acordo de confissão, Heuermann comprometeu-se a cooperar com a unidade de análise comportamental do FBI para ajudar a identificar outros assassinos em série. A condenação encerra um capítulo longo e doloroso, mas abre outro — a possibilidade de que o seu silêncio, finalmente quebrado, possa iluminar outros casos que ainda aguardam resposta.
Rex Heuermann, um arquiteto de 62 anos que viveu uma vida dupla durante quase duas décadas, foi condenado hoje a prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. A sentença encerra uma investigação que resolveu um dos casos mais perturbadores de Nova Iorque — a morte de oito mulheres entre 1993 e 2010, cuja descoberta transformou um mistério esquecido em documentários, livros e podcasts que capturaram a atenção nacional.
Tudo começou de forma invisível. Jovens trabalhadoras do sexo desapareciam, uma após a outra, sem conexão aparente e com pouca atenção da imprensa. Mas em 2010, quando investigadores procuravam pistas sobre o desaparecimento de Shannan Gilbert, começaram a encontrar restos mortais espalhados ao longo da Ocean Parkway, perto de Gilgo Beach em Long Island, a cerca de 80 quilómetros de Manhattan. O que emergiu foi o padrão de um assassino em série que tinha operado durante 17 anos sem ser descoberto.
A investigação permaneceu estagnada durante mais de uma década. Não havia avanços significativos, nenhuma ligação clara. Mas em 2022, os detetives conseguiram associar Heuermann a uma carrinha de caixa aberta que uma testemunha tinha visto no momento do desaparecimento de uma das vítimas. O que pareceu um detalhe menor abriu tudo. Os investigadores recolheram ADN de uma côdea de pizza que Heuermann tinha deitado fora num caixote do lixo em Manhattan e conseguiram associá-lo a fragmentos de cabelo encontrados nos restos mortais. Dados de telemóvel e localização mostraram que ele tinha marcado encontros com as vítimas pouco antes desaparecerem. Nos ficheiros do seu computador, os procuradores encontraram o que descreveram como um plano pormenorizado dos homicídios.
Em abril, Heuermann declarou-se culpado de sete homicídios: Melissa Barthelemy, Mack, Jessica Taylor, Megan Waterman, Amber Lynn Costello, Maureen Brainard-Barnes e Sandra Costilla. Em tribunal, admitiu também ter matado Karen Vergata, embora nunca tenha sido formalmente acusado pela sua morte. Disse ter estrangulado as vítimas e desmembrado alguns dos corpos. Muitas delas eram trabalhadoras do sexo — mulheres cuja morte tinha passado despercebida durante anos.
Na sala de tribunal no leste de Long Island, com as mãos entrelaçadas sobre a mesa da defesa, Heuermann manteve o olhar fixo enquanto as famílias das vítimas falavam. Jasmine Robinson, prima de Jessica Taylor, dirigiu-se diretamente a ele: "Enche-me de tanta repugnância que não o suporto. Um milhão de anos não seria suficiente. Nada alguma vez poderá reparar isto." Amanda Funderburg, irmã de Melissa Barthelemy, pediu-lhe que a olhasse enquanto falava. Ele virou-se na sua direção mas manteve os olhos ligeiramente baixos. "Espero que sofra", disse ela, recordando uma chamada telefónica provocatória que tinha recebido dele poucos dias depois do desaparecimento de Melissa, quando tinha apenas 15 anos.
A ex-mulher e os dois filhos adultos de Heuermann não compareceram na audiência. Os seus advogados indicaram que optaram por não estar presentes por respeito às famílias das vítimas. Heuermann, que se manteve praticamente em silêncio ao longo das várias comparências em tribunal desde a sua detenção em 2023, teve oportunidade de falar ainda durante a audiência de sentença.
No âmbito do acordo de confissão, Heuermann comprometeu-se a cooperar com a unidade de análise comportamental do FBI para ajudar na identificação de outros assassinos em série. Segundo o xerife Errol Toulon, nos últimos três anos Heuermann passou sozinho numa cela da prisão do condado de Suffolk, a ler romances policiais, a receber ocasionalmente visitas dos advogados ou da família, e a manter uma breve correspondência com o notório assassino conhecido como "Happy Face Killer". A condenação de hoje encerra um capítulo, mas abre outro — a possibilidade de que a sua cooperação com as autoridades federais possa esclarecer outros casos que permaneceram sem resolução.
Notable Quotes
Enche-me de tanta repugnância que não o suporto. Um milhão de anos não seria suficiente.— Jasmine Robinson, prima de Jessica Taylor
Espero que sofra— Amanda Funderburg, irmã de Melissa Barthelemy
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como é que um homem consegue viver uma vida tão dupla durante tanto tempo — arquiteto respeitável de dia, assassino em série à noite — sem ser descoberto?
Porque as vítimas eram invisíveis. Trabalhadoras do sexo, mulheres marginalizadas cuja desaparição não gerava alarme público. Ninguém estava à procura delas com a mesma urgência.
Mas a polícia não tinha nenhuma pista durante décadas?
Tinham pistas, mas desconexas. Restos mortais espalhados ao longo de uma estrada costeira, nenhuma ligação óbvia. Levou 12 anos desde a primeira descoberta até conseguirem associá-lo a uma côdea de pizza.
Uma côdea de pizza. É quase absurdo.
É. Mas é também a realidade da investigação moderna — o ADN não mente, mas tem de estar lá para ser encontrado. Ele cometeu um erro pequeno, e foi suficiente.
E agora ele vai cooperar com o FBI para identificar outros assassinos?
Sim. É parte do acordo. Ninguém sabe o que ele sabe ou o que pode revelar. Mas há outras famílias à espera de respostas.
As famílias que compareceram em tribunal — como é que se confronta alguém que matou alguém que amava?
Com raiva, com dor, com a necessidade de ser visto. Amanda Funderburg pediu-lhe que a olhasse enquanto falava. Ele quase não conseguiu.