Argentinos se espantam com rejeição global à seleção na final da Copa

Torcem para qualquer um só para não torcer para a gente
Estudante argentina reflete sobre a rejeição global ao seu país na final da Copa.
Mark

Por que você acha que a Argentina virou tão impopular justamente quando chegou à final?

Mimi

Porque ganhar atrai rejeição, especialmente quando você já ganhou antes. Mas não é só isso. Há rivalidades antigas, suspeitas sobre arbitragem, e agora essas denúncias de racismo que explodiram nas redes.

Mark

A questão do racismo parece ser o que mais incomoda as pessoas fora da Argentina.

Mimi

É. Porque não é só um episódio isolado. É uma canção que voltou, é um padrão que as pessoas começaram a documentar. E tem a omissão também — Messi não se pronunciou sobre isso.

Mark

Os argentinos se sentem injustiçados por essa rejeição?

Mimi

Alguns sim. Acham que estão sendo julgados por critérios que não se aplicam a outros países. Que a Espanha, a Inglaterra, a França têm suas próprias histórias de racismo e colonização.

Mark

Então é hipocrisia?

Mimi

Talvez. Ou talvez seja que o futebol permite que as pessoas escolham seus vilões de forma mais simples do que lidar com a história real dos países.

Mark

E o que muda se a Argentina ganhar?

Mimi

Talvez nada. Ou talvez tudo. Porque um país em desenvolvimento ganhando duas Copas seguidas é raro. Isso poderia significar algo para outros países que também sonham.

  • Um mapa viral mostra a Argentina cercada por adversários de todos os continentes, com países preferindo torcer até pela impopular Inglaterra a apoiar Messi e companhia.
  • No Brasil, o medo de ver o rival histórico conquistar sua quarta estrela — e um bicampeonato inédito para a América do Sul — transforma a torcida contrária em questão de honra nacional.
  • Denúncias de racismo envolvendo jogadores e torcedores argentinos, incluindo um vídeo de Enzo Fernández em 2024, amplificam a rejeição e pressionam Fifa e AFA por investigações formais.
  • Especialistas apontam que o embranquecimento ideológico da população argentina desde o século 19 criou um ambiente onde insultos raciais se naturalizaram, alimentando o estereótipo do argentino que se vê como europeu na América Latina.
  • Dentro da Argentina, torcedores e intelectuais oscilam entre a defesa apaixonada da seleção e o reconhecimento incômodo de que há um problema real a ser enfrentado além dos gramados.

Na véspera de uma final histórica entre Argentina e Espanha, o mundo do futebol revela algo mais do que rivalidade esportiva: uma rejeição coletiva que mistura ciúme continental, desconfiança arbitral e acusações de racismo sistêmico. O isolamento argentino no mapa das torcidas globais não é apenas curiosidade viral — é o reflexo de tensões identitárias profundas que o futebol, como sempre, traz à superfície com brutalidade e clareza.

A Argentina chegou à final da Copa do Mundo contra a Espanha carregando um peso incomum: a rejeição de boa parte do planeta. Nas redes sociais, um mapa-múndi viralizou mostrando o país isolado, cercado por bandeiras de adversários — incluindo a Inglaterra, que poucos apoiariam em circunstâncias normais. A pergunta que circulou foi direta: quanta maldade seria preciso para fazer o mundo torcer pelos ingleses?

As razões se entrelaçam. No Brasil, a rivalidade histórica explica tudo: muitos torcedores temem ver a Argentina com quatro estrelas, apenas uma a menos que a seleção brasileira, e conquistar dois títulos consecutivos seria feito que só Brasil e Itália já realizaram. Fora do continente, pesa o estereótipo do argentino arrogante — aquele que se enxerga como europeu em solo latino-americano — e a desconfiança sobre uma arbitragem supostamente favorável a Messi.

Mas há uma questão mais incômoda: as denúncias de racismo. Em 2024, o volante Enzo Fernández foi filmado em um ônibus onde atletas cantavam música com insultos raciais contra jogadores franceses. O historiador Douglas Belchior tem documentado esses episódios e cobrado investigações da Fifa, sem generalizar, mas apontando uma escalada preocupante de episódios envolvendo jogadores e torcedores argentinos.

Alguns argentinos reconhecem o desconforto. A psicóloga Albertina Ímas, comemorando nas ruas de Buenos Aires, defendeu a garra do time mas admitiu que a Argentina merecia mais apoio sul-americano. O professor Alí Emmanuel Delgado, que leciona sobre questão negra na Universidade de Buenos Aires, oferece contexto histórico: o embranquecimento ideológico do país no século 19, que promovia imigração europeia para diluir a população negra, criou um ambiente onde insultos raciais se tornaram corriqueiros.

Para Delgado, porém, o avanço argentino poderia ser lido como oportunidade — o futebol como espaço onde países em desenvolvimento competem de igual para igual com potências. A estudante Valentina Siccardi resume a frustração de muitos argentinos: é uma pena que a região não apoie um time latino-americano contra um europeu. "Torcem para qualquer um só para não torcer para a gente. É porque estamos cansados de ganhar."

A Argentina chegou à final da Copa do Mundo contra a Espanha no domingo 19 de julho carregando um peso inusitado: a rejeição de boa parte do planeta. Nas redes sociais, uma imagem em particular capturou o sentimento. Um mapa-múndi mostrava a Argentina sozinha, cercada por bandeiras de seus adversários — Cabo Verde, Egito, Suíça, e até mesmo a Inglaterra, um país que poucos torceriam em circunstâncias normais. Um internauta resumiu a situação com uma pergunta retórica: quanto de maldade seria preciso para fazer as pessoas torcerem pela Inglaterra?

As razões para essa rejeição são múltiplas e se entrelaçam de formas complexas. No Brasil, a explicação é mais simples: rivalidade histórica entre as duas potências do futebol sul-americano. Muitos torcedores brasileiros temem ver a Argentina com quatro estrelas na camisa — apenas uma a menos que a seleção brasileira. Além disso, conquistar duas Copas consecutivas seria um feito que apenas Brasil e Itália já realizaram. Fora do Brasil, a rejeição toma outras formas. Há quem questione se a arbitragem estaria favorecendo a seleção de Lionel Messi. Há também o estereótipo do argentino arrogante, aquele que se vê como europeu em solo latino-americano.

Mas há uma questão mais profunda e incômoda que atravessa a conversa: denúncias de racismo envolvendo jogadores e torcedores argentinos. Em 2024, o volante Enzo Fernández filmou uma comemoração dentro de um ônibus onde atletas cantavam uma música ofensiva sobre jogadores franceses. A canção, que ganhou popularidade entre torcedores argentinos na Copa do Qatar em 2022, continha insultos raciais. O historiador Douglas Belchior, diretor do Instituto de Referência Negra Peregum, tem documentado esses episódios em suas redes sociais e pedido investigação da Fifa e da Associação do Futebol Argentino. Ele é cuidadoso em sua crítica: não diz que todo argentino seja racista, mas que há uma escalada de episódios praticados por torcedores e integrantes do futebol argentino.

Alguns argentinos reconhecem o problema. A psicóloga Albertina Ímas, 28 anos, comemorava a vitória sobre a Inglaterra na avenida Corrientes em Buenos Aires quando foi questionada sobre a impopularidade do time. Ela negou que a seleção estivesse sendo favorecida, atribuindo o desempenho à garra e paixão do time. Mas reconheceu que a Argentina deveria receber mais apoio da América do Sul. O escritor Marcelo Rubens Paiva também se posicionou, dizendo que adora os argentinos, exceto aqueles racistas desagradáveis que existem em qualquer lugar do mundo.

O advogado e professor Alí Emmanuel Delgado, que leciona a primeira disciplina completamente voltada à questão negra na Universidade de Buenos Aires, oferece uma perspectiva histórica. Segundo ele, o embranquecimento da população argentina, baseado em uma ideologia racista do final do século 19 que promovia miscigenação através da imigração europeia, invisibilizou a população negra no país. Isso criou um ambiente onde insultos raciais se tornaram comuns. Delgado também aponta um padrão: países centrais usam mecanismos históricos para limpar sua imagem — associar o Reino Unido ao chá e sofisticação, por exemplo, em vez de pensar em colonização. O que o surpreende é o nível de rejeição que a Argentina alcançou.

Para Delgado, porém, o avanço da Argentina poderia ser uma oportunidade. O futebol, ele argumenta, distribui felicidade de forma mais equitativa do que outras áreas. É possível ter um país em desenvolvimento competindo em igualdade de condições, e até com vantagem, contra potências. A estudante Valentina Siccardi, 19 anos, compartilha essa frustração. Para ela, é uma pena que outros países da região não estejam apoiando a Argentina. Apoiariam muito mais uma seleção latino-americana do que uma europeia, diz ela. Torcem para qualquer um só para não torcer para a gente. É porque estamos cansados de ganhar.

Não é verdade que estamos sendo favorecidos. O que se vê em campo é a essência do time: a garra e a paixão que dedicamos a cada jogo
— Albertina Ímas, psicóloga argentina
Há uma escalada de episódios racistas praticados por torcedores e integrantes do futebol argentino. A Fifa e a Associação do Futebol Argentino têm o dever de investigar
— Douglas Belchior, historiador e diretor do Instituto de Referência Negra Peregum
Contact Us FAQ