Um ano após o Brasil enfrentar uma das maiores crises de incêndios de sua história, o território registrou em 2025 uma redução de 58% na área queimada, chegando a 127 mil quilômetros quadrados. A melhora, documentada pelo MapBiomas, reflete a convergência de chuvas mais regulares, menor desmatamento e protocolos de controle forjados na urgência da crise anterior — um sinal de que políticas e clima podem, juntos, alterar trajetórias destrutivas. Ainda assim, pesquisadores lembram que mais da metade das áreas queimadas voltam a arder em até quatro anos, e que a memória do fogo é mais longa do qu
Área queimada no Brasil cai 58% em 2025, após incêndios históricos de 2024
Nem mesmo as plantas resistentes às chamas conseguem sobreviver
Por que a queda foi tão dramática? Choveu muito mais em 2025?
Não foi apenas chuva. O padrão mudou — as chuvas chegaram mais tarde, mas se mantiveram até maio em muitos lugares. Isso importa porque quebra o ciclo de seca extrema que alimentava os incêndios. Mas também houve menos desmatamento, o que reduz as fontes de fogo.
Menos desmatamento significa menos áreas secas para queimar?
Exatamente. Quando você tem uma floresta intacta, ela retém umidade. Quando você desmata, cria clareiras que secam rapidamente. Menos desmatamento em 2025 significou menos combustível pronto para arder.
E a Amazônia caiu 80%. Por quê?
Porque a Amazônia é floresta — não é um bioma que historicamente queima. Quando chove, ela fica úmida e resistente ao fogo. Em 2024, a seca foi tão severa que até a floresta pegou fogo. Em 2025, com chuvas regulares, voltou ao seu estado natural de resistência.
Mas o Cerrado ainda queimou muito mais. Por quê?
O Cerrado evoluiu com fogo natural durante milhares de anos. Mas hoje o fogo ali é principalmente humano — pessoas queimam para limpar pastagens, e isso acontece fora da estação natural. O resultado é fogo mais frequente e mais intenso do que o bioma consegue suportar.
Então a chuva ajudou a Amazônia, mas não resolveu o Cerrado?
A chuva ajuda, mas o Cerrado tem um problema diferente. Mesmo com mais umidade, se as pessoas continuam usando fogo para manejo de terras, ele vai queimar. É uma questão de comportamento humano, não apenas clima.
Vocês estão preocupados com 2026?
Muito. Se vier um El Niño forte, o impacto máximo será em 2027. E 52% das áreas que queimaram em 2025 podem queimar novamente em quatro anos. Precisamos estar preparados agora.
The Pulse
- Após o ano mais devastador em décadas, com 302 mil km² queimados em 2024, o Brasil reduziu a área afetada pelo fogo em 58% — mas o território equivalente a quase metade do estado de São Paulo ainda ardeu em 2025.
- A Amazônia registrou seu menor índice histórico de queimadas desde 1985, com queda de 80% em relação ao ano anterior, impulsionada por chuvas prolongadas e redução do desmatamento.
- O Cerrado concentrou 69% de toda a área queimada no país, revelando que biomas adaptados ao fogo natural estão sendo submetidos a regimes de ignição humana cada vez mais intensos e frequentes.
- Pesquisadores alertam para o ciclo de reincidência: 52% das áreas queimadas voltam a pegar fogo em até quatro anos, e na Amazônia esse retorno pode ocorrer em apenas dois — tornando o alívio de 2025 frágil diante de um possível El Niño.
Um ano após o Brasil enfrentar uma das maiores crises de incêndios de sua história, o território registrou em 2025 uma redução de 58% na área queimada, chegando a 127 mil quilômetros quadrados. A melhora, documentada pelo MapBiomas, reflete a convergência de chuvas mais regulares, menor desmatamento e protocolos de controle forjados na urgência da crise anterior — um sinal de que políticas e clima podem, juntos, alterar trajetórias destrutivas. Ainda assim, pesquisadores lembram que mais da metade das áreas queimadas voltam a arder em até quatro anos, e que a memória do fogo é mais longa do que qualquer alívio momentâneo.
Doze meses após incêndios históricos devastarem o Brasil, o país registrou em 2025 uma queda expressiva: 127 mil quilômetros quadrados queimados, redução de 58% em relação aos 302 mil km² de 2024. Os dados, divulgados pelo MapBiomas, revelam uma melhora significativa — mas o patamar ainda equivale à soma de Santa Catarina e Rio Grande do Norte.
A Amazônia foi o destaque positivo: atingiu seu menor índice histórico desde 1985, com 31,4 mil km² queimados, contra 158,2 mil no ano anterior. Segundo Ane Alencar, do Instituto de Pesquisa da Amazônia e coordenadora do MapBiomas Fogo, a combinação de chuvas mais prolongadas, menor desmatamento e protocolos de controle criados após a crise de 2024 foi decisiva. Operações de fiscalização intensificadas e pressão do Supremo Tribunal Federal para que os estados elaborassem planos de preparação também contribuíram.
O Cerrado, por sua vez, concentrou 69% da área queimada no país. A pesquisadora Vera Arruda explica que, ao contrário da Amazônia — floresta que não evoluiu com o fogo —, o Cerrado tem história milenar com queimadas naturais provocadas por raios. O problema é que hoje as ignições são predominantemente humanas, fazendo o bioma queimar com maior frequência e extensão. O Pantanal foi proporcionalmente o mais atingido, com 69% de sua área afetada.
Um padrão preocupante atravessa quatro décadas de dados: 52% das áreas queimadas voltam a arder em até quatro anos. Na Amazônia, 31,6% retornam às chamas em apenas dois. Alencar ressalta que o El Niño tende a amplificar os incêndios não apenas no ano em que ocorre, mas sobretudo no seguinte — exatamente o que tornou 2024 tão catastrófico. Com a possibilidade de novo fenômeno no horizonte, os pesquisadores alertam que o alívio de 2025, embora real, exige vigilância contínua.
Doze meses depois que incêndios devastadores varreram o Brasil e estabeleceram recordes históricos de destruição, o país registrou uma queda acentuada no tamanho das áreas consumidas pelo fogo. Em 2025, 127 mil quilômetros quadrados foram queimados — uma redução de 58% em relação aos 302 mil quilômetros quadrados que arderam em 2024, quando meses de seca extrema e queimadas descontroladas assolaram o território nacional. Os números vêm do segundo relatório anual lançado pela rede de pesquisadores MapBiomas, divulgado na noite de segunda-feira.
Mesmo com essa melhora significativa, o patamar permanece elevado. A área queimada em 2025 equivale a quase metade da extensão de São Paulo ou à soma combinada de Santa Catarina e Rio Grande do Norte. A redução mais expressiva ocorreu na Amazônia, que atingiu seu menor índice desde que a plataforma começou a registrar dados em 1985. O bioma perdeu 31,4 mil quilômetros quadrados para as chamas, comparado aos 158,2 mil do ano anterior — uma queda de aproximadamente 80%.
Segundo Ane Alencar, diretora de Ciências do Instituto de Pesquisa da Amazônia e coordenadora do MapBiomas Fogo, a melhora resultou de uma combinação de fatores. O padrão de chuvas mudou entre 2024 e 2025: o período chuvoso atrasou e se estendeu até abril e maio em grande parte da região, com algumas áreas recebendo precipitação contínua. Esse regime de umidade foi crucial para conter a propagação do fogo. Além disso, a redução nos índices de desmatamento diminuiu as fontes potenciais de ignição, um efeito particularmente visível em anos mais úmidos. Alencar também aponta os protocolos de controle e prevenção de queimadas estabelecidos após a crise de 2024, operações de fiscalização intensificadas e a pressão do Supremo Tribunal Federal para que os estados desenvolvessem planos de preparação.
O Cerrado respondeu por 69% da área queimada em 2025, enquanto a Amazônia representou 25%. Os demais biomas — Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa — somaram apenas 6%. Quando se observa as últimas quatro décadas, um padrão preocupante emerge: mais da metade das áreas que pegam fogo voltam a arder em até quatro anos. Na Amazônia, esse ciclo é ainda mais curto: 31,6% das áreas queimadas retornam às chamas em apenas dois anos.
Vera Arruda, pesquisadora do Instituto de Pesquisa da Amazônia, destaca que o fogo se comporta de maneiras radicalmente diferentes conforme o bioma. A Amazônia é um ecossistema florestal que não evoluiu historicamente com o fogo; os incêndios florestais ali têm aumentado e deixam a floresta degradada e mais vulnerável a novos eventos. O Cerrado, por contraste, desenvolveu-se ao longo de milhares de anos com queimadas naturais provocadas por raios durante a estação chuvosa. Porém, hoje as fontes de ignição são predominantemente humanas, alterando fundamentalmente o regime do fogo no bioma — áreas queimam com maior frequência e em extensões maiores. O Pantanal também depende historicamente do fogo em seu ciclo natural, e em 2025 foi proporcionalmente o bioma mais atingido, com 69% de sua área afetada.
Quando o fogo ocorre no período e intensidade adequados em biomas adaptados a ele, o fenômeno pode ser benéfico. Mas quando as condições são severas ou recorrentes, nem mesmo a vegetação resistente consegue sobreviver. Nos últimos anos, os períodos de seca tornaram-se muito mais intensos, gerando incêndios de maior magnitude mesmo quando não iniciados naturalmente. Alencar observa que a série histórica revela claramente o impacto do El Niño na dinâmica do fogo brasileiro: quando o fenômeno começa, as áreas queimadas tendem a ser grandes, mas é no ano seguinte que o impacto máximo se manifesta. Essa dinâmica torna essencial a preparação antecipada para evitar repetir o cenário de 2023-2024.
Historicamente, pouco mais de dois terços do fogo no Brasil — 71,5% na média de 1985 a 2025 — atinge vegetação nativa, enquanto o restante se espalha por áreas antropizadas como pastagens e lavouras. Em 2025, porém, 79% da área queimada correspondeu a florestas, campos, savanas e áreas pantanosas, totalizando 100 mil quilômetros quadrados. A maior parte dessa queima de vegetação nativa ocorreu no Cerrado, representando 86% de tudo que ardeu naquele bioma. Os pesquisadores alertam que, embora 2025 tenha trazido alívio, a vigilância permanece crítica — especialmente diante da possibilidade de novo El Niño e da tendência de áreas queimadas retornarem às chamas em ciclos curtos.
Notable Quotes
O período chuvoso atrasou de 2024 para 2025 e foi até abril, maio, em grande parte da região. Isso foi importante para segurar o processo de queima.— Ane Alencar, diretora de Ciências do Ipam
A amazônia é um bioma mais florestal, que não é historicamente adaptado ao fogo e os incêndios florestais têm aumentado no bioma. Isso traz degradação para a floresta, deixa as áreas mais suscetíveis a novos incêndios.— Vera Arruda, pesquisadora do Ipam