Diante do avanço das ilhas de calor nas cidades brasileiras, pesquisadores da Unesp encontraram nas árvores uma resposta ao mesmo tempo ancestral e urgente: a sombra de uma copa pode reduzir em até 30°C a temperatura do asfalto, transformando ruas em espaços habitáveis. Marília, no interior paulista, tornou-se referência nacional ao arborizá 94,9% de suas vias públicas, superando metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. O que esse dado revela não é apenas uma conquista municipal, mas um convite a repensar como as cidades brasileiras se preparam — ou deixam de se preparar — para os extremos
Arborização urbana reduz calor extremo em até 30°C, aponta pesquisa da Unesp
As árvores reduzem o calor extremo em até 30°C
Por que uma redução de 30°C faz tanta diferença? Parece um número grande, mas o que muda na prática?
Muda tudo. Quando você está em um asfalto a 70°C versus 40°C sob uma árvore, não é só conforto — é segurança. Idosos, crianças, pessoas com problemas de saúde: o calor extremo mata. E cidades inteiras ficam mais habitáveis.
Mas esses 30°C são medidos em condições específicas, certo? Um dia de sol forte, por volta das 13 horas. Não é a redução média ao longo do dia.
Verdade. É o pico. Mas mesmo assim, reduzir o pico é crucial. Ilhas de calor funcionam assim — os picos extremos é que causam danos.
E por que as podas drásticas são um problema? As cidades não precisam podar as árvores?
Precisam, mas com cuidado. Uma poda severa força a árvore a rebrotar com mais intensidade, gastando nutrientes que ela não tem. As folhas envelhecem rápido e caem. Você fica com um tronco nu que não oferece sombra.
Então a questão é: as cidades estão podando errado? Ou não têm conhecimento sobre como fazer certo?
Provavelmente os dois. Por isso os pesquisadores insistem que os dados científicos precisam chegar aos gestores públicos e às comunidades.
Marília tem 94,9% de cobertura arbórea. Como uma cidade consegue isso?
Planejamento de longo prazo e envolvimento dos moradores. O projeto "Planta Aí" mostra que quando você oferece as mudas e a informação, as pessoas plantam.
Mas 170 residências em quanto tempo? Desde fevereiro. Quantas casas tem Marília no total?
Não sabemos. O projeto é novo. É um começo.
Exato. É um começo promissor, mas ainda é um começo. Não podemos dizer que Marília resolveu o problema.
O que seria necessário para que outras cidades replicassem isso?
The Pulse
- Ondas de calor cada vez mais intensas tornam o asfalto das cidades brasileiras uma superfície que pode atingir 70°C ao meio-dia, ameaçando a saúde e o bem-estar de milhões de pessoas.
- Pesquisas da Unesp em Tupã e Adamantina comprovam que a sombra das árvores reduz essa temperatura em mais de 30°C, mas podas drásticas e má gestão urbana sabotam esse potencial antes que ele se realize.
- Marília lidera o ranking nacional de arborização entre cidades com mais de 100 mil habitantes, com 94,9% de cobertura nas vias públicas, enquanto São Paulo e Rio de Janeiro ficam abaixo dos 75%.
- O projeto 'Planta Aí' mobiliza moradores a plantar mudas nativas e adaptadas em seus próprios terrenos, com mais de 170 residências aderindo desde fevereiro — transformando a adaptação climática em ação comunitária.
- Especialistas alertam que calçadas estreitas, fiação aérea e projetos urbanos que ignoram as árvores desde o início continuam sendo os maiores obstáculos para expandir essa solução a outras cidades.
Diante do avanço das ilhas de calor nas cidades brasileiras, pesquisadores da Unesp encontraram nas árvores uma resposta ao mesmo tempo ancestral e urgente: a sombra de uma copa pode reduzir em até 30°C a temperatura do asfalto, transformando ruas em espaços habitáveis. Marília, no interior paulista, tornou-se referência nacional ao arborizá 94,9% de suas vias públicas, superando metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. O que esse dado revela não é apenas uma conquista municipal, mas um convite a repensar como as cidades brasileiras se preparam — ou deixam de se preparar — para os extremos climáticos que já chegaram.
As cidades brasileiras enfrentam ondas de calor cada vez mais intensas, e pesquisadores da Unesp encontraram nas árvores uma resposta poderosa. Estudos em bairros de Tupã e Adamantina, no interior de São Paulo, mostram que a arborização urbana pode reduzir o calor extremo em até 30°C: enquanto o asfalto nu atinge cerca de 70°C em um dia de sol forte, a sombra de uma copa derruba esse número de forma dramática. Mais do que conforto, trata-se de adaptação climática concreta contra o fenômeno das ilhas de calor.
Os pesquisadores, porém, alertam para um problema silencioso: as podas drásticas comprometem esse benefício. Quando cortadas de forma severa, as árvores reagem com brotações excessivas, consomem mais nutrientes, envelhecem mais rápido e perdem as folhas — restando apenas o tronco exposto. Para que a arborização funcione como ferramenta climática, é preciso que as árvores se desenvolvam plenamente, o que exige tanto manejo adequado quanto legislação municipal que vá além do plantio inicial.
Marília, cidade de médio porte no interior paulista, oferece um modelo concreto. Com 94,9% de suas vias públicas cobertas por árvores, ela ocupa a 12ª posição no ranking nacional entre municípios com mais de 100 mil habitantes — superando São Paulo, com 74,8%, e Rio de Janeiro, com 70,5%. Ainda assim, a distribuição interna não é uniforme: calçadas estreitas, redes aéreas e o crescimento urbano contínuo criam obstáculos reais para expandir o plantio.
Para enfrentar esses limites, a cidade lançou em fevereiro o projeto 'Planta Aí', que estimula moradores a plantar mudas em seus próprios terrenos. Mais de 170 residências já aderiram. As mudas, produzidas no Bosque Municipal, são espécies nativas e exóticas adaptadas, escolhidas com base em estudos que avaliam quais plantas causam menos conflitos com a infraestrutura urbana. O que emerge desse conjunto de iniciativas é uma visão integrada: a arborização como questão de planejamento urbano, saúde pública e adaptação climática — e o desafio agora é levar essas práticas para muito além de Marília.
As cidades brasileiras enfrentam um desafio crescente: ondas de calor cada vez mais intensas, secas prolongadas e chuvas torrenciais que testam a capacidade dos municípios de se adaptar. Pesquisadores da Unesp encontraram uma resposta simples e poderosa nas árvores. Estudos realizados em bairros de Tupã e Adamantina, no interior de São Paulo, revelam que a arborização urbana reduz o calor extremo em até 30°C — uma diferença que transforma a experiência de viver nas cidades.
Os números falam por si. Em um dia de sol forte, por volta das 13 horas, o asfalto nu atinge temperaturas próximas aos 70°C. No mesmo local, mas sob a sombra de árvores, o termômetro marca uma diferença superior a 30°C. Essa redução não é apenas conforto: é adaptação climática em ação. As árvores oferecem sombra, reduzem a exposição direta à radiação solar e criam ambientes mais habitáveis — uma estratégia essencial contra o fenômeno das ilhas de calor, aquelas zonas urbanas onde as temperaturas sobem dramaticamente em comparação com áreas menos densas.
Mas há um detalhe que os pesquisadores não deixam passar. As podas drásticas — aquelas que cortam as árvores de forma severa — prejudicam o desenvolvimento das plantas. Quando uma árvore sofre esse tipo de poda, ela rebrota com mais intensidade, gerando uma quantidade maior de brotos que exigem mais nutrientes. A consequência é previsível: as folhas envelhecem mais rapidamente e caem, deixando apenas o tronco exposto. Rodrigo Shioda, pesquisador e gestor ambiental da Unesp, explica esse ciclo prejudicial. Para que a arborização funcione como ferramenta de adaptação climática, é preciso que as árvores se desenvolvam plenamente — o que significa repensar como as cidades as tratam.
Os pesquisadores têm claro que dados científicos precisam sair dos laboratórios. Angélica Gois Morales, também da Unesp, aponta que comunidades e gestores públicos precisam receber essas informações e agir sobre elas. Não basta plantar árvores; é necessário que as comunidades as preservem e que as administrações municipais criem leis que pensem no manejo adequado, não apenas no plantio inicial.
Marília, uma cidade de médio porte no interior paulista, oferece um modelo de como isso pode funcionar na prática. Segundo dados do Censo do IBGE, 94,9% das vias públicas de Marília contam com cobertura de árvores — um índice que supera cidades muito maiores. São Paulo, a maior metrópole do país, tem 74,8% de cobertura arbórea nas ruas. Rio de Janeiro, 70,5%. Marília ocupa a 12ª posição no ranking nacional de cidades mais arborizadas entre municípios com mais de 100 mil habitantes.
Essa liderança, porém, não significa que a distribuição seja uniforme. Algumas regiões da cidade têm menor cobertura vegetal. Calçadas estreitas, redes aéreas, tubulações e o crescimento urbano contínuo criam obstáculos para expandir o plantio. Por isso, especialistas defendem que a arborização seja pensada desde o início de qualquer novo projeto urbano. Pedro Paulo Diniz Epiphanio, engenheiro florestal, explica que as cidades precisam ser preparadas para receber árvores — muitos projetos de construção, loteamentos e avenidas não preveem adequadamente onde as árvores irão crescer, perdendo a oportunidade de oferecer conforto térmico desde o começo.
Marília implementou uma estratégia que envolve diretamente os moradores. O projeto "Planta Aí", lançado em fevereiro, estimula residências a plantar árvores em seus próprios terrenos. Até agora, mais de 170 casas aderiram à iniciativa. As mudas são produzidas no Bosque Municipal e incluem espécies nativas e exóticas adaptadas, de pequeno e médio porte, escolhidas com base em estudos que identificam quais plantas causam menos problemas — como quebra de calçadas ou invasão de fiação elétrica. Rodrigo Mas, secretário adjunto de Meio Ambiente e Serviços Públicos de Marília, descreve a escolha como resultado de uma análise cuidadosa das relações entre a árvore e a composição urbana.
O que emerge desse trabalho é uma visão integrada: a arborização não é apenas uma questão ambiental, mas de planejamento urbano, saúde pública e adaptação climática. As pesquisas da Unesp fornecem a base científica. As cidades como Marília demonstram que é possível implementar essas soluções envolvendo a comunidade. O desafio agora é expandir essas práticas para outras regiões, garantindo que mais cidades se preparem para os extremos climáticos que já batem à porta.
Notable Quotes
A gente precisa levar esses dados científicos para comunidade e para gestão pública. É a comunidade que preserva sua árvore, mas também a gestão pública com leis que pensem no manejo e não só no plantio dela.— Angélica Gois Morales, pesquisadora da Unesp
As cidades precisam ser preparadas para receber arborização. Muitas vezes, um projeto de construção, loteamento ou avenidas não prevê exatamente a locação de árvores, que vão trazer principalmente conforto térmico.— Pedro Paulo Diniz Epiphanio, engenheiro florestal