Aquecimento global acelera sexta extinção em massa, alerta paleontólogo

A crise atual de biodiversidade afeta dezenas de espécies desaparecendo por ação humana direta ou mudanças ambientais, com potencial impacto existencial para a humanidade.
Nós não estaremos aqui para ver a recuperação
Benton rejeita interpretações otimistas sobre extinções como justificativa para continuar destruindo a biodiversidade.
Mark

Por que o senhor insiste que as extinções passadas foram principalmente causadas por aquecimento, não por asteroides? Parece contra-intuitivo.

Mimi

Porque quatro das cinco grandes extinções têm a mesma assinatura: vulcanismo massivo, CO₂ na atmosfera, temperatura subindo, oceanos acidificando. O asteroide do Cretáceo foi espetacular, mas foi a exceção. O padrão real é o hipertermal — mudança ambiental prolongada.

Mark

E por que isso importa para agora?

Mimi

Porque estamos vivendo exatamente esse padrão. Não é um impacto súbito. É aquecimento global causado por nós, mudando o planeta de forma que a vida não consegue acompanhar.

Mark

O senhor disse que humanos são a única espécie pavimentando seu próprio caminho para extinção. Isso não é um pouco dramático?

Mimi

Não é dramático, é factual. Outras espécies desaparecem por eventos fora de seu controle. Nós estamos conscientes do que estamos fazendo e continuamos fazendo.

Mark

Mas a vida sempre se recupera, certo? Novas espécies evoluem?

Mimi

Sim, mas não em tempo para nós. O Permiano levou cinco milhões de anos para se recuperar. Estamos acelerando tudo em décadas. Não há tempo evolutivo para adaptação.

Mark

Então qual é a mensagem do seu livro?

Mimi

Olhar para trás não é para assustar. É para entender o padrão e reconhecer que desta vez somos nós o vulcão.

  • Quatro das cinco grandes extinções foram causadas por aquecimento global massivo, e a atual crise climática replica esse padrão com uma diferença aterradora: a velocidade é muito maior do que qualquer evento anterior.
  • Dezenas de espécies desaparecem todos os dias — por ação humana direta ou por mudanças ambientais que se sucedem rápido demais para que qualquer processo evolutivo possa acompanhar.
  • Benton alerta que interpretar a resiliência da vida após extinções passadas como permissão para continuar destruindo é um erro fatal: 'Nós não estaremos aqui para ver' a eventual recuperação.
  • A acidificação dos oceanos — consequência direta do aumento de temperatura — já está em curso, tornando visível em tempo real o mesmo mecanismo que eliminou 95% das espécies no Permiano.
  • A única saída que o registro fóssil sugere é a que ainda não foi tomada: desacelerar o aquecimento antes que a transformação ambiental ultrapasse qualquer limiar de retorno.

Por quatro vezes na história profunda da Terra, o aquecimento global — não asteroides — foi o algoz das grandes extinções em massa. O paleontólogo Michael Benton, da Universidade de Bristol, olha para esse padrão de 4,5 bilhões de anos e reconhece, com a sobriedade de quem lê fósseis como epitáfios, que a humanidade está escrevendo o sexto capítulo dessa história — mas numa velocidade sem precedentes, que não deixa margem para a lenta misericórdia da evolução.

Michael Benton, paleontólogo da Universidade de Bristol, dedicou a vida a ler a história da Terra nos fósseis — e o que ele encontrou deveria nos inquietar profundamente. Em seu livro recém-publicado no Brasil, ele revisita as cinco grandes extinções que varreram a vida do planeta e lança um aviso: estamos construindo a sexta.

A extinção mais brutal ocorreu ao final do Permiano, há 252 milhões de anos, quando 95% de todas as espécies desapareceram. A vida levou cinco milhões de anos para se recuperar. O que une quatro dessas cinco catástrofes não são asteroides, mas eventos hipertermais — aquecimento global provocado por erupções vulcânicas que lançaram dióxido de carbono na atmosfera, elevaram temperaturas e acidificaram os oceanos. Para Benton, esse padrão é o espelho do presente.

Mas há uma diferença decisiva: a velocidade. Enquanto o Permiano se desenrolou ao longo de milhões de anos — tempo suficiente para que alguns organismos se adaptassem —, a transformação climática atual ocorre em décadas. Dezenas de espécies desaparecem todos os dias, sem que a evolução tenha tempo de fazer seu trabalho. Benton é direto ao recusar qualquer leitura otimista que justifique a inércia: 'O erro seria imaginar que podemos continuar matando as espécies porque tudo dará certo depois.'

O paleontólogo reconhece que prever datas é impossível, mas o padrão está legível: o aumento de temperatura já provoca acidificação dos oceanos, o mesmo mecanismo que selou o destino de civilizações inteiras de organismos no passado. Desta vez, porém, há um acelerador que nunca existiu antes — nós mesmos. Benton não é alarmista por natureza; é alguém que aprendeu a maravilhar-se com a extraordinária riqueza da vida fóssil. É precisamente essa perspectiva histórica que torna seu aviso mais perturbador: ele não está inventando um apocalipse. Está relendo um livro já escrito cinco vezes e percebendo que as páginas do sexto capítulo estão virando muito mais rápido do que antes.

Michael Benton, paleontólogo da Universidade de Bristol, olha para trás 4,5 bilhões de anos e vê um padrão que deveria nos assombrar. Em seu livro recém-publicado no Brasil, ele revisita as cinco grandes extinções que moldaram a vida no planeta — e avisa que estamos construindo a sexta com as próprias mãos.

A vida na Terra passou por cataclismos antes. Há 444 milhões de anos, uma era glacial devastadora fez os mares recuarem e eliminou cerca de 85% das espécies. Milhões de anos depois, no período Devoniano, uma crise prolongada de mudanças climáticas e redução de oxigênio nos oceanos apagou três quartos de tudo que existia. Mas nenhuma dessas foi tão brutal quanto o que aconteceu ao final do Permiano, há 252 milhões de anos: 95% de todas as espécies desapareceram. A vida levou cinco milhões de anos para se recuperar.

O que une quatro dessas cinco extinções não é o que a maioria imagina. Não foram asteroides caindo do céu — embora um tenha causado a extinção dos dinossauros há 66 milhões de anos. Foram eventos hipertermais: aquecimento global massivo, provocado principalmente por erupções vulcânicas gigantescas que lançaram dióxido de carbono na atmosfera, aumentaram a temperatura do planeta e acidificaram os oceanos. Para Benton, essa conexão é crucial para entender o presente. O modelo que explica o Permiano — não um ataque súbito, mas uma transformação ambiental prolongada — é o que mais se parece com o que vivemos agora.

Mas há uma diferença fundamental, e é aqui que o alerta de Benton ganha peso. Os humanos são a única espécie que está pavimentando seu próprio caminho para a extinção. Quando perguntado se seu livro oferecia algum otimismo — afinal, as extinções passadas abriram espaço para novas formas de vida evoluírem — Benton foi claro: não devemos interpretar isso como permissão para continuar destruindo. "Nós não estaremos aqui para ver", disse à Folha. "O erro seria imaginar que podemos continuar matando as espécies porque tudo dará certo depois."

A crise atual de biodiversidade é diferente das anteriores em um aspecto crítico: a velocidade. Dezenas de espécies desaparecem todos os dias, seja por ação humana direta ou por mudanças ambientais que não dão tempo para adaptação. Benton explica que algumas espécies conseguem viver em condições extremas de calor e seca — há animais especializados em desertos — mas eles não prosperam. Prefeririam climas mais úmidos e amenos, com mais recursos. O problema é que não há tempo para a evolução fazer seu trabalho. Enquanto o Permiano levou milhões de anos para se desenrolar, permitindo que alguns organismos se adaptassem, a atual transformação climática ocorre em décadas.

O paleontólogo reconhece que prever quando a próxima extinção acontecerá é impossível. Mas o padrão está claro: aumento de temperatura leva à acidificação dos oceanos, e isso já estamos observando. Os ciclos da Terra continuam, muitos deles provocados por vulcanismo natural, mas desta vez temos um acelerador adicional — nós mesmos. Benton não é alarmista por natureza. Desde criança apaixonado por geologia, depois zoologia e paleontologia, ele vê na história fóssil não apenas sinais de catástrofes futuras, mas também a extraordinária riqueza da vida que existiu. "Uma das funções da paleontologia é maravilhar", diz. "Achamos que conhecemos a vida olhando para o presente, mas quando olhamos para o passado encontramos coisas para as quais não existe nada parecido hoje."

O que torna seu aviso mais perturbador é justamente essa perspectiva histórica. Ele não está inventando um cenário apocalíptico. Está lendo um livro que já foi escrito — cinco vezes — e notando que estamos no começo do sexto capítulo, com a velocidade das páginas virando muito mais rápido do que antes.

O erro seria imaginar que podemos continuar matando as espécies porque tudo dará certo depois
— Michael Benton, paleontólogo
Muitos estudiosos dirão que vivemos algo parecido com os eventos passados, com um agravante: a taxa de intensidade e a velocidade hoje são muito maiores
— Michael Benton
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