Clientes pagam mensalidades de 12 a 36 meses e podem devolver, trocar ou comprar o aparelho ao final do contrato, reduzindo a barreira de entrada para produtos caros. Wall Street vê potencial para aumentar a troca de aparelhos, impulsionar modelos mais caros e capturar valor do mercado secundário de smartphones usados.
Apple lança programa de aluguel de iPhones e aposta em mudança radical no consumo
A assinatura muda a referência do consumidor sobre o que pagar
Por que a Apple decidiu fazer isso agora, depois de abandonar o projeto cinco anos atrás?
Porque os preços ficaram insustentáveis. A escassez de memória elevou os custos, e um iPhone dobrável pode custar mais de dois mil dólares. A Apple percebeu que precisava mudar a forma como o consumidor pensa sobre o preço — e a assinatura faz exatamente isso.
Mas não é mais caro alugar do que comprar?
Matematicamente, sim. Se você comprar e revender um iPhone usado, sai mais barato do que alugá-lo por três anos. Mas a Apple aposta que a maioria dos consumidores não fará essa conta. O que importa é a facilidade: uma parcela pequena, a possibilidade de trocar de aparelho rapidinho, sem se preocupar com revenda.
E por que a Klarna? Por que não fazer isso internamente?
Porque a Apple já tentou. Tinha um time dentro do Apple Pay trabalhando nisso, mas desistiu. As dificuldades operacionais e o escrutínio regulatório sobre iniciativas financeiras da Apple ficaram muito pesados. Transferindo para a Klarna, a Apple mantém o relacionamento com o cliente e a experiência de venda, mas passa os riscos financeiros e regulatórios para frente.
Isso muda alguma coisa para o mercado de smartphones usados?
Muda tudo. Hoje, quando você vende seu iPhone usado para outro, a Apple perde essa transação. Com o Apple Upgrade, a Apple participa dessa monetização. Ainda não está claro como o valor residual será dividido, mas a companhia ganha acesso a um mercado que antes era completamente fora de seu controle.
E se isso virar um programa de assinatura total — hardware, AppleCare, iCloud, música, vídeo?
Aí você tem um ecossistema inteiro como assinatura. Não é mais sobre comprar produtos. É sobre pagar mensalmente para estar dentro da Apple. É uma mudança brutal na forma como as pessoas consomem tecnologia.
O Pulso
- iPhone 17 Pro de US$ 1.099 custa US$ 31,99 por mês em contrato de 24 meses
- Programa operado pela Klarna, fintech sueca de buy now pay later
- Cliente pode devolver, trocar ou comprar o aparelho ao final do contrato
- Ação da Apple subiu 51% nos últimos doze meses; empresa vale US$ 4,5 trilhões
Clientes pagam mensalidades de 12 a 36 meses e podem devolver, trocar ou comprar o aparelho ao final do contrato, reduzindo a barreira de entrada para produtos caros. Wall Street vê potencial para aumentar a troca de aparelhos, impulsionar modelos mais caros e capturar valor do mercado secundário de smartphones usados.
A Apple lançou nos EUA o Apple Upgrade, programa de aluguel de iPhones, iPads, Macs e Apple Watches operado pela fintech sueca Klarna, transformando a forma como consumidores acessam produtos premium.
A Apple acaba de lançar nos Estados Unidos um experimento que pode reconfigurar a forma como milhões de pessoas compram eletrônicos premium. O programa se chama Apple Upgrade, e funciona assim: você não compra um iPhone, iPad, Mac ou Apple Watch. Você aluga.
A operação é feita em parceria com a Klarna, uma fintech sueca especializada em financiamento ao consumidor. O cliente escolhe um período de 12 a 36 meses, paga uma mensalidade fixa e, ao final, tem três opções: devolver o aparelho, trocar por um modelo mais recente ou pagar o saldo restante para ficar com ele. Um iPhone 17 Pro que custa US$ 1.099 à vista sai por US$ 31,99 mensais em um contrato de 24 meses — o consumidor desembolsa US$ 767,76 no total, mas precisa devolver o equipamento ou quitar o valor residual para se tornar proprietário. Os preços começam em US$ 17,99 para iPhone, US$ 11,99 para Apple Watch e iPad, e US$ 24,99 para Mac.
Esta não é a primeira vez que a Apple tenta entrar no negócio de assinaturas de hardware. Cinco anos atrás, a empresa desenvolveu um plano interno, administrado pelo time do Apple Pay, mas abandonou o projeto diante das complexidades operacionais e do crescente escrutínio regulatório sobre suas iniciativas financeiras. Desta vez, a estratégia é diferente: a Apple mantém a experiência de venda e o relacionamento com o cliente, enquanto transfere para a Klarna as funções de análise de crédito, cobrança e boa parte dos riscos financeiros e regulatórios.
O timing é estratégico. Os preços dos produtos Apple subiram nos últimos anos — a escassez de memória elevou os custos da indústria, e há expectativa de aparelhos ainda mais caros, como um iPhone dobrável que pode custar mais de US$ 2 mil. O programa muda a psicologia da compra: em vez de o consumidor se questionar se vale a pena desembolsar mil ou dois mil dólares de uma vez, ele avalia se uma mensalidade de algumas dezenas de dólares cabe no orçamento mensal. Num momento em que os americanos sentem o peso da inflação, essa mudança de perspectiva pode ser decisiva.
Wall Street viu com entusiasmo o movimento. O analista Wamsi Mohan, do Bank of America, classificou o programa como "direcionalmente positivo". A estrutura pode acelerar a troca de aparelhos, empurrar consumidores para modelos mais caros e trazer de volta ao ecossistema da Apple a demanda que hoje se perde quando um usuário vende seu celular usado para outro diretamente. Isso abre a possibilidade de a Apple capturar mais valor do mercado secundário de smartphones — embora ainda não esteja claro como o valor residual será dividido entre a empresa e a Klarna. O Bank of America manteve sua recomendação de compra e preço-alvo de US$ 380 para a ação, que negocia atualmente a US$ 309.
Para a Klarna, o impacto pode ser ainda maior. A boutique de investimentos Keefe, Bruyette & Woods avaliou que a parceria fortalece a presença da fintech no financiamento ao consumo e entre os grandes varejistas americanos. A ação da Klarna subiu 10% desde o anúncio da parceria.
Há riscos na tese. Como os aparelhos da Apple preservam bem seu valor, comprar ou financiar um produto e revendê-lo custa menos para os clientes do que alugá-lo indefinidamente. Mas a aposta da companhia é que poucos consumidores farão essa conta — a ideia é que a facilidade de pagar uma parcela menor e conseguir trocar o aparelho de forma mais rápida acelerará a adesão.
O Apple Upgrade pode ser apenas o primeiro passo. Executivos já discutiram a possibilidade de reunir hardware, AppleCare, iCloud, música e vídeo numa única cobrança mensal. Se isso acontecer, todo o ecossistema se tornaria uma assinatura. Tim Cook, em sua última teleconferência de resultados antes de passar a cadeira a John Ternus em setembro, disse que a companhia observará a adesão dos clientes, mas que o retorno inicial tem sido bastante positivo. A ação da Apple subiu 51% nos últimos doze meses. A empresa vale US$ 4,5 trilhões.
Citações Notáveis
Vamos observar qual será a adesão dos clientes, mas o retorno inicial tem sido bastante positivo— Tim Cook, CEO da Apple
Direcionalmente positivo — pode antecipar a troca de aparelhos e levar consumidores para modelos mais caros— Wamsi Mohan, analista do Bank of America