No Brasil de 2024, três em cada quatro trabalhadores autônomos seguem operando à margem da formalidade — sem CNPJ, sem nota fiscal, sem acesso pleno ao crédito ou à previdência. Os dados do IBGE revelam não apenas uma estatística, mas uma estrutura: a informalidade persiste onde a escolaridade é baixa, os negócios são pequenos e o Estado chega com pouca clareza. O avanço de 15% para 25,7% em doze anos é real, mas também é um espelho da lentidão com que as transformações econômicas alcançam os mais vulneráveis.
Apenas 25,7% dos trabalhadores por conta própria têm CNPJ em 2024
Três em cada quatro autônomos seguem operando à margem dessa estrutura
Por que apenas um em cada quatro autônomos se formaliza? Parece um número baixo demais para ser só falta de interesse.
Não é falta de interesse. É que a formalização exige conhecimento, custos e uma escala de negócio que a maioria dos autônomos ainda não tem. Quando você vende na rua ou presta um serviço pequeno, a pressão para se formalizar é quase zero.
Mas o CNPJ abre portas — crédito, benefícios previdenciários. Não seria racional se formalizar?
Seria, se você soubesse disso e tivesse capacidade de lidar com os tributos. Mas muitos autônomos têm escolaridade baixa. Não sabem por onde começar. E temem que os impostos consumam o pouco que ganham.
A escolaridade realmente faz tanta diferença?
Faz. Quem tem superior completo tem 48% de formalização. Quem não tem instrução, apenas 11%. É quase uma divisão de dois mundos.
E os setores? Por que a agricultura tem apenas 7% de formalização?
Porque historicamente funcionou assim. A agricultura é pulverizada em pequenos produtores, muitos sem acesso a informação ou recursos. O comércio, que é mais urbano e concentrado, chega a 33%.
Então a solução é educação?
Educação ajuda, mas não é só. Precisa simplificar o processo, reduzir custos iniciais, oferecer apoio técnico. Enquanto isso não acontecer, a informalidade segue sendo a escolha mais fácil.
The Pulse
- De 25,5 milhões de autônomos brasileiros, apenas 6,6 milhões possuem CNPJ — o que significa que a maioria absoluta trabalha sem acesso a crédito formal, benefícios previdenciários ou capacidade de emitir notas fiscais.
- A desigualdade entre setores é alarmante: enquanto o comércio formaliza 33,2% de seus autônomos, a agricultura registra apenas 7,2%, expondo milhões de trabalhadores rurais a uma vulnerabilidade estrutural.
- Escolaridade funciona como o principal divisor: quase metade dos autônomos com ensino superior tem CNPJ, contra apenas 11,2% entre aqueles sem instrução — revelando que a informalidade é também uma herança da exclusão educacional.
- Analistas do IBGE apontam que o tamanho reduzido dos negócios e o desconhecimento sobre os processos de formalização são as barreiras mais concretas, mais do que a simples resistência ao sistema.
- A sindicalização entre autônomos é de apenas 5,1%, contra 8,9% da população ocupada geral — menos voz coletiva, menos acesso à informação e menor capacidade de pressionar por mudanças.
- Especialistas alertam que ampliar a formalização exige ação simultânea em educação, simplificação burocrática e apoio técnico — sem isso, a trajetória de avanço continuará lenta e desigual.
No Brasil de 2024, três em cada quatro trabalhadores autônomos seguem operando à margem da formalidade — sem CNPJ, sem nota fiscal, sem acesso pleno ao crédito ou à previdência. Os dados do IBGE revelam não apenas uma estatística, mas uma estrutura: a informalidade persiste onde a escolaridade é baixa, os negócios são pequenos e o Estado chega com pouca clareza. O avanço de 15% para 25,7% em doze anos é real, mas também é um espelho da lentidão com que as transformações econômicas alcançam os mais vulneráveis.
Uma pesquisa do IBGE divulgada esta semana expõe uma realidade persistente no mercado de trabalho brasileiro: de cada quatro trabalhadores por conta própria, apenas um possui registro formal no CNPJ. Em 2024, isso representa 6,6 milhões de pessoas formalizadas em um universo de 25,5 milhões de autônomos — um grupo que corresponde a um quarto de toda a força de trabalho do país.
O cenário melhorou ao longo do tempo. Em 2012, apenas 15% dos autônomos tinham CNPJ; em 2019, o índice chegou a 20,2%; hoje está em 25,7%. São doze anos de avanço real, mas também de transformação lenta. O registro formal abre portas importantes — emissão de notas fiscais, acesso a crédito bancário, contratação de funcionários e proteção previdenciária — e ainda assim três quartos dos autônomos seguem sem ele.
As diferenças entre setores são profundas. O comércio lidera a formalização com 33,2%, seguido pelos serviços com 31,5%. A construção fica em 15,2%, e a agricultura registra apenas 7,2% — expondo uma vulnerabilidade estrutural em setores que empregam milhões de brasileiros. A escolaridade aprofunda ainda mais esse abismo: entre autônomos com ensino superior completo, 48,4% têm CNPJ; entre aqueles sem instrução, o índice cai para 11,2%.
William Kratochwill, analista do IBGE, aponta que o tamanho pequeno dos negócios reduz a pressão para formalizar, e que a falta de conhecimento sobre os processos é uma barreira concreta — não preguiça, mas ausência de informação e capacidade de navegar a burocracia. A baixa sindicalização entre autônomos, de apenas 5,1%, reforça esse isolamento: menos representação coletiva significa menos acesso a direitos e orientação.
Para analistas, ampliar a formalização exige ação em múltiplas frentes — educação, simplificação de processos, apoio técnico e redução de custos de entrada. Enquanto essas condições não se consolidarem, a maioria dos autônomos brasileiros continuará operando fora do sistema formal, vulnerável e invisível para as redes de proteção social.
De cada quatro trabalhadores autônomo no Brasil, apenas um possui registro formal no CNPJ. Os números, divulgados nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, revelam um cenário de informalidade persistente: 6,6 milhões de pessoas em um universo de 25,5 milhões de conta própria conseguiram dar esse passo em 2024. O registro no CNPJ abre portas — permite emitir notas fiscais, acessar crédito bancário, contratar funcionários formalizados, conquistar benefícios previdenciários. Ainda assim, três em cada quatro autônomos seguem operando à margem dessa estrutura.
O dado não é estático. Comparado com 2012, quando apenas 15% dos conta própria tinham CNPJ, a evolução é inegável. Passaram-se doze anos para chegar aos atuais 25,7%. Em 2019, o percentual estava em 20,2%. A trajetória mostra movimento, mas também revela a lentidão da transformação. A pesquisa, parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE, não coletou dados em 2020 e 2021 por causa da pandemia, mas retomou o acompanhamento desde então.
Os 25,5 milhões de autônomos representam um quarto de toda a força de trabalho brasileira — 25,2% dos 101,3 milhões de trabalhadores do país. Uma década atrás, em 2012, essa proporção era menor: 22,4%. O crescimento do trabalho por conta própria acompanha transformações econômicas, mas a formalização não acompanha no mesmo ritmo.
As desigualdades entre setores são gritantes. O comércio lidera com 33,2% de seus autônomos formalizados. Os serviços vêm logo atrás, com 31,5%. A indústria geral fica em 23,4%. A construção cai para 15,2%. E a agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura — setores que empregam milhões — registram apenas 7,2% de formalização. Essa disparidade revela estruturas econômicas distintas: alguns setores naturalmente demandam mais formalidade; outros, historicamente, funcionaram de outra forma.
William Kratochwill, analista do IBGE, oferece uma explicação simples e reveladora: o tamanho do negócio. Quando o empreendimento é pequeno, o autônomo não sente pressão para se formalizar. Ninguém o demanda. E há mais: alguns consideram que a formalização não compensa. Os tributos, a burocracia, o conhecimento necessário — tudo isso afasta quem não está preparado. A formalização, nessa lógica, é um custo sem benefício imediato.
A escolaridade funciona como divisor de águas. Entre aqueles sem instrução ou com fundamental incompleto, apenas 11,2% têm CNPJ. Quando o ensino fundamental está completo e o médio incompleto, o percentual sobe para 17,6%. Com ensino médio completo ou superior incompleto, chega a 27,9%. E entre os que completaram o ensino superior, 48,4% possuem registro formal. Kratochwill aponta o óbvio que nem sempre é dito: a baixa escolaridade limita o conhecimento sobre como se formalizar. Não é preguiça. É falta de informação e capacidade de navegar processos.
Outro indicador reforça o isolamento dos autônomos: a sindicalização. Enquanto 8,9% de toda a população ocupada está filiada a sindicatos, entre os conta própria esse número cai para 5,1%. Menos proteção, menos voz coletiva, menos acesso a informações e direitos. A informalidade não é apenas uma questão econômica — é também uma questão de poder e representação.
O que esses números sugerem é que a formalização dos autônomos não é um problema que se resolve apenas com incentivos fiscais ou campanhas de conscientização. Está enraizado em estruturas de escolaridade, tamanho de negócio, acesso à informação e capacidade de absorver custos. Expandir a formalização exigiria ação em múltiplas frentes: educação, simplificação de processos, apoio técnico, redução de barreiras. Enquanto isso não acontecer, três em cada quatro autônomos brasileiros seguirão operando fora do sistema formal — perdendo oportunidades, deixando de contribuir, e permanecendo vulneráveis.
Notable Quotes
Como o empreendimento que eles têm ainda é pequeno, não veem essa necessidade, ainda não foram demandados a ter uma formalização da sua atividade— William Kratochwill, analista do IBGE
A baixa escolaridade, às vezes, limita a pessoa em relação ao conhecimento de como fazer para se formalizar— William Kratochwill, pesquisador do IBGE