Apenas 1 partido tem mais mulheres que homens entre candidatos em 2026

Mulheres enfrentam barreiras estruturais e históricas que limitam sua participação política e acesso a recursos para campanhas eleitorais.
Estar na chapa não é o mesmo que ter poder real de competir
Especialistas apontam que candidaturas femininas muitas vezes carecem de estrutura, recursos e apoio político para campanhas efetivas.
Mark

Por que apenas um partido consegue ter mais candidatas que candidatos?

Mimi

Porque a maioria dos partidos vê a cota de gênero como obrigação legal, não como oportunidade política. Eles preenchem o mínimo de 30% com mulheres que não recebem recursos reais de campanha.

Mark

Mas a lei não deveria impedir isso?

Mimi

A lei existe, mas foi esvaziada. O TSE reconheceu fraudes na aplicação da cota, e a Câmara aprovou uma anistia. Então os partidos aprenderam que podem descumprir sem consequência.

Mark

E as mulheres que conseguem ser candidatas — elas têm as mesmas chances que os homens?

Mimi

Não. Mesmo quando inscritas, muitas não recebem estrutura de campanha, recursos financeiros ou apoio político. Estar na chapa não é o mesmo que ter poder real de competir.

Mark

Como isso aparece na disputa presidencial?

Mimi

De forma clara: em 2022 havia quatro candidatas à presidência, agora são apenas duas. E das sete mulheres nas chapas presidenciais, cinco estão na vice — um cargo historicamente invisível.

Mark

Então o crescimento de 34% para 35% de candidaturas femininas é ilusório?

Mimi

É um crescimento real, mas superficial. Os números melhoram um ponto percentual enquanto as barreiras estruturais permanecem intactas. A questão não é quantas mulheres concorrem, mas com que recursos e apoio elas concorrem.

  • De 20.496 candidaturas registradas para 2026, apenas 7.134 pertencem a mulheres — uma desproporção que persiste mesmo com lei obrigando mínimo de 30% por sexo.
  • A Câmara dos Deputados aprovou anistia aos partidos que fraudaram a cota de gênero, esvaziando o principal mecanismo legal de proteção à participação feminina.
  • Na disputa presidencial, o retrocesso é visível: eram quatro candidatas em 2022, são duas em 2026, e cinco das sete mulheres em chapas presidenciais ocupam a vice — posição historicamente menos poderosa.
  • Cientistas políticas alertam que contar candidaturas é insuficiente: o que falta às mulheres não é apenas presença nas listas, mas recursos financeiros, exposição midiática e apoio real dos partidos.
  • A Unidade Popular permanece como exceção solitária — único entre trinta partidos a apresentar maioria feminina, com 53% de candidatas em sua chapa.

Em cada eleição, uma sociedade revela o quanto acredita em si mesma ao distribuir o poder entre todos os seus membros. No Brasil de 2026, as mulheres — metade da população — representam apenas 35% das candidaturas, um avanço de um ponto percentual em quatro anos. A lei existe, o piso de 30% foi estabelecido, mas fraudes foram anistiadas e especialistas advertem que o número, por si só, esconde mais do que revela: candidaturas sem recursos, sem visibilidade e sem apoio institucional são presenças que se assemelham a ausências.

Entre os trinta partidos que disputarão as eleições de 2026, apenas um apresenta mais mulheres do que homens: a Unidade Popular, com 53% de candidaturas femininas e uma chapa presidencial em que tanto a titular quanto a vice são mulheres. É uma exceção que, por seu isolamento, sublinha a regra.

O panorama nacional registra 35% de candidaturas femininas — 7.134 mulheres contra 13.362 homens, num total de 20.496 registros. O crescimento em relação a 2022 é de apenas um ponto percentual. Alguns partidos, como PC do B, Cidadania e PSOL, se aproximam de uma distribuição mais equilibrada, mas o PRTB ocupa o extremo oposto, com apenas 17% de candidatas.

A lei eleitoral exige que ao menos 30% das candidaturas de cada partido sejam de cada sexo. O Tribunal Superior Eleitoral, porém, documentou fraudes sistemáticas: mulheres inscritas apenas para cumprir o percentual, sem recursos nem apoio real. A resposta institucional foi uma anistia aprovada pela Câmara dos Deputados, que esvaziou o mecanismo de proteção.

Na corrida presidencial, o recuo é concreto: quatro mulheres concorriam em 2022; duas concorrem em 2026. Das sete mulheres em chapas presidenciais, cinco ocupam a vice-presidência.

Para a cientista política Hannah Maruci Aflalo, da USP e do Cebrap, o número de candidaturas é uma medida insuficiente. O que importa é examinar que posições as mulheres ocupam, se têm estrutura, financiamento e visibilidade — ou se são presenças estatísticas que equivalem, na prática, a ausências. Luciana Santana, da Universidade Federal de Alagoas, vai na mesma direção: o problema não está na disposição das mulheres em concorrer, mas na forma como os partidos recrutam, distribuem recursos e decidem quem recebe apoio. A estrutura do sistema, não a vontade individual, é o fator limitante.

A Unidade Popular é um partido solitário. Entre os trinta partidos que lançam candidatos para as eleições de 2026, apenas ela apresenta mais mulheres do que homens em suas chapas. São 100 mulheres e 88 homens — 53% de participação feminina entre os 188 nomes que a UP levará às urnas para disputar vagas nas assembleias legislativas, câmara federal, senado, governos estaduais e a presidência. A chapa presidencial do partido reforça esse padrão: tanto o candidato titular quanto o vice são mulheres.

O quadro geral do país, porém, conta uma história bem diferente. Nas eleições de 2026, as mulheres representam 35% de todas as candidaturas registradas — um crescimento tímido em relação aos 34% de 2022. Em números absolutos, são 7.134 candidaturas femininas contra 13.362 masculinas, num universo de 20.496 registros totais. A disparidade é estrutural e generalizada. O PRTB ocupa o extremo oposto da UP: apenas 17% de suas candidaturas são de mulheres, com apenas duas candidatas entre os doze nomes que o partido apresenta.

Alguns partidos conseguem se aproximar de uma distribuição mais equilibrada. O PC do B alcança 45% de participação feminina, com 65 mulheres entre 146 candidatos. O Cidadania chega a 43%, com 63 mulheres entre 147 nomes. O PSTU e o PSOL ambos atingem 40%, o primeiro com 52 mulheres entre 129 candidatos, o segundo com 316 candidatas entre 789 escolhidos. Mas esses são exceções em um cenário dominado pela sub-representação feminina.

A lei eleitoral estabelece um piso: partidos devem manter entre 30% e 70% de candidaturas de cada sexo, garantindo que pelo menos três em cada dez candidatos sejam mulheres. Teoricamente, isso deveria criar um patamar mínimo de inclusão. Na prática, o Tribunal Superior Eleitoral documentou fraudes sistemáticas na aplicação dessa cota — mulheres inscritas apenas para cumprir o percentual obrigatório, sem recursos reais de campanha ou apoio institucional. Apesar dessa constatação, a Câmara dos Deputados aprovou uma anistia aos partidos que descumpriram a lei, esvaziando ainda mais o mecanismo de proteção.

A disputa presidencial amplifica o problema. Em 2022, quatro mulheres concorriam à presidência. Em 2026, apenas duas. Nas sete mulheres que integram as chapas presidenciais, cinco ocupam a vice-presidência — posição historicamente menos visível e menos poderosa. O encolhimento da presença feminina no topo da política eleitoral reflete dinâmicas mais profundas que os números brutos não capturam.

Hannah Maruci Aflalo, cientista política doutora pela Universidade de São Paulo e pós-doutoranda no Cebrap, aponta para essa lacuna. Não basta contar mulheres nas chapas, diz ela. É preciso examinar que posições ocupam, se as candidaturas têm estrutura, recursos financeiros, exposição midiática e apoio político real. Uma mulher inscrita para cumprir cota é estatisticamente uma candidata; politicamente, pode ser invisível.

Luciana Santana, cientista política e professora da Universidade Federal de Alagoas, situa o problema em duas dimensões simultâneas: barreiras históricas à participação feminina e dinâmicas específicas desta eleição — dificuldades em formar alianças à direita, acordos estaduais que redefinem prioridades. Mas sua crítica vai além das circunstâncias: o padrão de sub-representação não pode ser explicado apenas pela disposição individual das mulheres em concorrer. Depende de como os partidos recrutam candidatos, de como distribuem recursos financeiros e institucionais, de quem recebe apoio e quem fica à margem. A estrutura do sistema político, não a vontade das mulheres, é o fator limitante.

É preciso olhar que presença essas mulheres estão tendo, que lugares ocupam e se essas chapas têm estrutura, recursos, exposição e apoio político
— Hannah Maruci Aflalo, cientista política
Esse padrão não pode ser explicado apenas pela disposição individual das mulheres para concorrer. Ele depende dos partidos, de como recrutam as candidaturas e distribuem os recursos financeiros e institucionais
— Luciana Santana, cientista política
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