Em algum lugar entre o passado e o presente, um homem de 79 anos escolhe ficar. Ribamar vive há 55 anos na comunidade de Vertente Logradouro, no sertão cearense, sem energia elétrica, sem água encanada, sem os marcos que definem a modernidade — e não deseja mudar isso. Sua história não é apenas a de uma vida simples, mas a de um sertão que esvazia enquanto ele permanece, testemunha silenciosa de um mundo rural que se despede de si mesmo.
Aos 79 anos, sertanejo vive 55 anos sem energia e mantém rotina simples no interior do Ceará
O interior está ficando vazio, mas ele segue com sua lamparina
Por que alguém escolheria viver assim, sem energia, sem água encanada, quando poderia ter essas coisas na cidade?
Porque para Ribamar, o sossego vale mais do que a conveniência. Ele não vê a vida rural como uma privação — vê como uma escolha. A tranquilidade, a produção de seu próprio alimento, a proximidade com a natureza: isso tem um valor que a cidade não oferece.
Mas não é difícil? Carregar água, cozinhar em fogão a lenha, iluminar com lamparina?
Claro que é difícil. Mas é um tipo de dificuldade que ele domina. Ele sabe como fazer tudo isso. Conhece o ritmo. O que seria difícil seria aprender a viver de outro jeito, em um lugar onde ele não pertence.
E quanto aos jovens que saem? Ele não acha que deveriam ficar?
Ele entende por que saem. A vida rural não oferece as mesmas oportunidades. Mas observa com tristeza que o interior está esvaziando. Não é uma crítica aos jovens — é uma constatação sobre o que está acontecendo com o sertão.
Então ele está sozinho lá?
Não completamente. Há a família, há a comunidade. Mas sim, há uma solidão crescente. Ribamar é um dos que ficaram. E cada vez há menos gente como ele.
O que o mantém lá, então? Apenas a escolha?
A escolha, sim. Mas também a raiz. Ele chegou em 1971 e plantou sua vida ali. Depois de 55 anos, você não sai. Você fica. Você segue.
O Pulso
- Aos 79 anos, Ribamar mantém uma rotina que desafia o tempo: lamparina à noite, fogão a lenha, cisterna e jumentos para carregar água em períodos de seca.
- O isolamento é concreto — uma viagem à cidade custa R$ 350, então as compras são feitas uma vez por mês, com precisão de quem sabe que o dinheiro não perdoa desperdício.
- Com cerca de R$ 70 por dia em trabalhos rurais e dois roçados para subsistência, ele construiu uma economia própria, fora dos circuitos urbanos e do consumo imediato.
- O que mais o inquieta não é a ausência de infraestrutura, mas o esvaziamento ao redor: os jovens partem, as famílias se dispersam e as comunidades envelhecem sem reposição.
- Enquanto Ribamar escolhe ficar, o sertão ao seu redor vai ficando mais vazio, mais silencioso, mais esquecido — e sua permanência se torna, ela mesma, uma forma de resistência.
Em algum lugar entre o passado e o presente, um homem de 79 anos escolhe ficar. Ribamar vive há 55 anos na comunidade de Vertente Logradouro, no sertão cearense, sem energia elétrica, sem água encanada, sem os marcos que definem a modernidade — e não deseja mudar isso. Sua história não é apenas a de uma vida simples, mas a de um sertão que esvazia enquanto ele permanece, testemunha silenciosa de um mundo rural que se despede de si mesmo.
Ribamar tem 79 anos e nunca teve energia elétrica em casa. Desde 1971, ele vive na comunidade de Vertente Logradouro, no interior de Santa Quitéria, no Ceará, em uma rotina organizada em torno de recursos que a maioria dos brasileiros só conhece por relatos: lamparina para iluminar a noite, fogão a lenha para cozinhar, cisterna para armazenar água — e jumentos para transportá-la quando a seca aperta.
Quando precisa ir à cidade, o custo do transporte chega a R$ 350. Por isso, as compras são feitas de uma vez, para durar o mês inteiro. O sustento vem do trabalho diário em propriedades rurais da região, que rende cerca de R$ 70 por dia, geralmente com almoço incluído. Ribamar também mantém dois roçados e cultiva alimentos para o próprio consumo — uma vida construída sobre o cálculo preciso de quem sabe que pouco não pode ser desperdiçado.
Ele chegou à região plantando algodão, arroz e feijão, e aprendeu o ritmo da terra com uma intimidade que poucos ainda carregam. Quando perguntam se não preferiria a cidade — com energia, supermercados, água encanada —, ele responde que não. Prefere o sossego, a proximidade com os açudes, a liberdade de produzir o próprio alimento.
Mas há algo que o preocupa: o interior está ficando vazio. Os jovens partem. As famílias se dispersam. As comunidades envelhecem sem que ninguém venha ocupar o lugar de quem foi. Ribamar observa esse movimento com clareza, sem romantismo. Enquanto ele permanece por escolha, muitos outros não veem mais razão para ficar — e o sertão vai se tornando, aos poucos, um lugar de memória e silêncio.
Ribamar tem 79 anos e nunca conheceu a luz elétrica em sua casa. Há mais de cinco décadas — desde 1971 — ele vive na comunidade de Vertente Logradouro, no interior de Santa Quitéria, no Ceará, em uma residência que jamais recebeu fiação, sem água encanada, sem os confortos que a maioria dos brasileiros considera básicos. E ele não quer sair de lá.
Sua rotina é organizada em torno de recursos que a maioria das pessoas só vê em museus ou em histórias de avós. À noite, uma lamparina ilumina o interior da casa. A água vem de uma cisterna — nos períodos de seca, a família contrata um carro-pipa ou recorre a fontes locais, e os jumentos ainda carregam água de um lado para o outro. Os alimentos são cozidos em um fogão a lenha. Os potes de barro armazenam o que será consumido. Quando precisa de algo que não produz — farinha, feijão, rapadura, açúcar, café, fumo — há uma pequena mercearia na região que funciona como rede de segurança.
Para ir à cidade, Ribamar precisa contratar um veículo. O custo é de aproximadamente R$ 350. Por isso, quando faz compras, adquire mantimentos suficientes para durar um mês inteiro. É um cálculo simples de sobrevivência: o dinheiro é pouco, então tudo deve ser planejado com precisão. O trabalho diário nas propriedades rurais da região rende cerca de R$ 70, geralmente com almoço incluído — é assim que ele sustenta a vida.
Ribamar chegou à região em 1971 e passou décadas plantando algodão, arroz e feijão. Hoje, mantém dois roçados e cultiva produtos para o próprio consumo. Ele conhece o trabalho da terra como poucos conhecem. Sabe quando plantar, quando colher, como lidar com a seca, como aproveitar cada gota de água. Mas quando perguntam se não gostaria de viver na cidade, com energia, água encanada, supermercados — ele diz que não. Prefere o sossego. Prefere produzir seu próprio alimento. Prefere estar perto dos açudes e das áreas de pesca.
O que o preocupa, porém, é o que vê acontecer ao seu redor. O interior está ficando vazio. Os jovens saem. As famílias se dispersam para as cidades. As comunidades envelhecem. Ribamar observa isso com clareza — não é uma reclamação vaga, é uma constatação sobre o que está acontecendo com o sertão. Enquanto ele permanece, escolhendo ficar, muitos outros não têm essa escolha ou não veem razão para permanecer. A vida rural, para a maioria, deixou de ser suficiente.
Mas para Ribamar, aos 79 anos, depois de 55 anos na mesma casa, sem energia, sem água encanada, sem as coisas que definem a modernidade, a vida continua. A lamparina acende. O fogão esquenta. A cisterna armazena água. Os roçados produzem. E ele segue, mantendo uma rotina que pertence a outro tempo, em um lugar que está cada vez mais isolado, cada vez mais vazio, cada vez mais esquecido.
Citações Notáveis
Não trocaria a tranquilidade do sertão pela vida urbana— Ribamar, agricultor de 79 anos
O interior está ficando mais vazio, pois muitos moradores, especialmente os mais jovens, estão mudando para as cidades— Ribamar, observando o êxodo rural