Aos 60 anos, Glady Maria da Silva carrega no corpo a memória de mais de 120 fraturas causadas pela osteogênese imperfeita — condição que, ao nascer, lhe rendeu um prognóstico de apenas seis meses de vida. Contra esse veredicto, ela construiu uma existência inteira: tornou-se psicóloga, escritora e mulher autônoma, demonstrando que os limites mais duradouros raramente são os do corpo, mas os que a sociedade impõe àqueles que considera frágeis demais para ocupar espaço.
Aos 60 anos, psicóloga com osteogênese imperfeita transforma 120 fraturas em vitória
Quando eu aceitei minha cadeira, foi o xeque-mate da minha vida
O que torna essa história diferente de outras histórias de superação que a gente lê por aí?
Acho que é porque ela não está falando só de sobreviver. Está falando de aprender a reivindicar espaço. A cadeira de rodas não é o ponto de virada — é a aceitação da cadeira que muda tudo.
Mas precisamos ser claros: ela teve uma mãe que a protegeu e que estava ali. Nem toda criança com osteogênese imperfeita tem isso. E ela conseguiu chegar à universidade. Quantas pessoas com essa condição chegam lá?
Verdade. E mesmo assim, a universidade foi quando ela descobriu que precisava de autonomia real, não só de proteção.
Então a cadeira de rodas é literalmente o que a liberta?
Sim. Porque até os 18 anos, ela era carregada. Dependia de alguém estar ali. A cadeira significa que ela pode se mover sozinha, decidir para onde ir.
Mas a gente não sabe como é a acessibilidade onde ela vive. Ela fala de reivindicar direitos, mas não sabemos se consegue acessar os espaços que quer acessar.
Justo. Ela fala sobre continuar enfrentando obstáculos. Não diz que tudo ficou fácil.
E os 120 fraturas — como isso se distribui ao longo da vida? Foram mais na infância ou continuou quebrando ossos na idade adulta?
A fonte não especifica. Sabemos que teve 120 fraturas, mas não temos o padrão ao longo dos anos.
O que importa é que ela chegou aos 60 com uma vida construída. Psicóloga, escritora, atendendo pacientes.
A mãe dela ouviu que teria seis meses de vida. Isso é uma previsão médica real ou é uma história que a família conta?
É o que a mãe relata. Não temos confirmação médica disso, mas é o que ela lembra de ter ouvido.
E mesmo que fosse uma previsão pessimista — o que era comum na época — o ponto é que ela viveu muito além disso.
Então o que vem agora para ela?
Le Pouls
- Um médico decretou seis meses de vida; seis décadas depois, Glady responde com dois livros publicados e uma carreira consolidada em psicologia.
- A infância transcorreu entre gessos e hospitais, enquanto o preconceito de olhares e apontamentos impunha uma segunda dor, invisível aos raios-X.
- Carregada nos braços de familiares durante anos, Glady vivia uma liberdade emprestada — sua mobilidade dependia sempre da disposição de outro corpo.
- Aos 18 anos, ao entrar na universidade, a cadeira de rodas deixou de ser símbolo de limitação e se tornou instrumento de autonomia: 'Foi o xeque-mate da minha vida. A liberdade.'
- Hoje, psicóloga há 13 anos com três especializações, ela reivindica suas conquistas sem falsa modéstia e as propaga como convite a outros que enfrentam barreiras semelhantes.
Aos 60 anos, Glady Maria da Silva carrega no corpo a memória de mais de 120 fraturas causadas pela osteogênese imperfeita — condição que, ao nascer, lhe rendeu um prognóstico de apenas seis meses de vida. Contra esse veredicto, ela construiu uma existência inteira: tornou-se psicóloga, escritora e mulher autônoma, demonstrando que os limites mais duradouros raramente são os do corpo, mas os que a sociedade impõe àqueles que considera frágeis demais para ocupar espaço.
Glady Maria da Silva completou 60 anos com mais de 120 fraturas na memória e um prognóstico médico que lhe dava apenas seis meses de vida ao nascer. Diagnosticada com osteogênese imperfeita — a síndrome dos ossos de vidro —, ela cresceu num mundo que a enxergava primeiro como frágil e depois como impossível. Sua mãe, Maria Anunciação, hoje com 92 anos, respondeu ao veredicto do médico com fé simples: "Jesus só dá a quem pode fazer." Décadas depois, essa resposta se provou profética.
A infância não comportava as experiências ordinárias de outras crianças. Glady se arrastava pelo chão de costas — nunca engatinhou —, e a rotina era feita de hospitais, gessos e o medo permanente de um movimento errado. A proteção materna, nascida do amor, era também uma forma de confinamento. Quando saía, havia outro tipo de fratura: os olhares, os dedos apontados, as risadas. Ela aprendeu cedo a conviver com duas dores — a física e a de ser reduzida à sua condição antes de ser conhecida como pessoa.
Durante a adolescência, era carregada nos braços de familiares para subir escadas e atravessar ruas. Havia uma ilusão de liberdade nessa dependência. A virada veio aos 18 anos, ao ingressar na universidade. Ao aceitar a cadeira de rodas, Glady não se resignou — transformou-se. "Quando eu aceitei a minha cadeira, foi para mim o xeque-mate da minha vida. A liberdade", resume.
Hoje é psicóloga há 13 anos, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Gestalt-terapia, e publicou dois livros: Coração de Vidro, de 2023, e Coração Valente, apresentado na Bienal do Livro deste ano. Os obstáculos — físicos e sociais — continuam existindo, mas mudou a forma de enfrentá-los: em vez de esperar que o mundo oferecesse condições, ela passou a reivindicá-las. "Sou graduada, sou escritora, tenho três especializações. Se é uma conquista minha, eu preciso propagar. Preciso levar adiante."
Glady Maria da Silva completou 60 anos carregando consigo a história de 120 fraturas — um número que poderia ser apenas uma estatística médica, mas que representa seis décadas de vida vivida contra um prognóstico que lhe dava seis meses. Diagnosticada ao nascer com osteogênese imperfeita, a condição genética conhecida como síndrome dos ossos de vidro, ela cresceu em um mundo que a via primeiro como frágil, depois como impossível, e finalmente — através de sua própria insistência — como alguém que merecia ocupar espaço.
Sua mãe, Maria Anunciação da Silva, hoje com 92 anos, ainda se emociona ao lembrar do que o médico disse no dia do nascimento. "Não vai dar seis meses de vida", foram as palavras que ouviu. A técnica de enfermagem aposentada respondeu com fé simples: "Jesus só dá a quem pode fazer". Décadas depois, essa resposta se provou profética. A gravidez não havia revelado a condição — os recursos de diagnóstico pré-natal eram limitados na época — e a própria mãe relata que sua médica prenatalista não acreditava nas suas preocupações. "Ela era a médica e eu era o paciente", resume Maria Anunciação, descrevendo uma dinâmica de poder que deixou a família sem preparação para o que viria.
A infância de Glady não comportava as experiências ordinárias da infância. Enquanto outras crianças corriam no quintal e brincavam na rua, ela se arrastava pelo chão de costas — nunca engatinhou — com o cabelo constantemente emaranhado pelo movimento repetido. Não havia brinquedos. A rotina era hospitais, gessos, fraturas, e o medo permanente de que qualquer movimento errado pudesse quebrar ossos já frágeis. A proteção da mãe, embora nascida do amor, também era uma prisão. Outras pessoas não podiam segurá-la, não podiam tocá-la de forma inadequada, então a solução era mantê-la em casa, longe do mundo.
Fora de casa, quando conseguia sair, havia outro tipo de fratura — a dos olhares. Glady era corporalmente diferente, e em sua geração, isso significava ser apontada, observada antes de ser conhecida, julgada antes de ser ouvida. "As pessoas ficavam olhando, apontando, dando risada", recorda. Ela aprendeu cedo que teria que conviver com duas dores: a física das fraturas e a emocional de ser reduzida a uma condição antes que pudessem enxergá-la como alguém com sonhos próprios.
Durante a adolescência, Glady era carregada. Nos braços de familiares e acompanhantes, conseguia subir escadas, atravessar ruas, participar. Havia uma ilusão de liberdade nessa dependência — alguém sempre estava ali para movê-la. Mas havia um preço silencioso: sua mobilidade não era sua. Ela não se reconhecia plenamente como uma pessoa com deficiência porque nunca havia precisado negociar o mundo sozinha. Essa realidade mudou aos 18 anos, quando entrou na universidade. "Comecei a empinar o nariz. Foi daí que eu comecei a ficar mocinha, aceitei a minha cadeira de rodas", explica. A aceitação não foi resignação — foi transformação. A cadeira deixou de ser algo que ela resistia em usar e se tornou o instrumento de sua autonomia, a ferramenta que lhe permitia decidir para onde ir. "Quando eu aceitei a minha cadeira, foi para mim o xeque-mate da minha vida. A liberdade", resume.
Hoje, Glady é psicóloga há 13 anos, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Gestalt-terapia. Publicou dois livros: Coração de Vidro, lançado em 2023, que explora a vulnerabilidade e as marcas emocionais de sua trajetória, e Coração Valente, apresentado na Bienal do Livro deste ano, que fala sobre coragem e persistência. Realiza atendimentos psicológicos on-line diariamente. Para sua mãe, ela é motivo de orgulho — a razão de uma dedicação que atravessou seis décadas. Para Glady, a conquista mais decisiva não foi apenas sobreviver, estudar ou se formar. Foi aprender a ocupar o próprio espaço.
Os obstáculos não desapareceram. Continuam ali — físicos e sociais, relacionados à acessibilidade e ao preconceito. Mas mudou a forma como ela os enfrenta. Em vez de esperar que o mundo lhe oferecesse espontaneamente as condições para participar, começou a reivindicá-las. "Sou graduada, sou escritora, tenho três especializações. Sou uma mulher hoje que nem todos conseguiram chegar onde eu cheguei", afirma, sem falsa modéstia. "Não estou falando isso para me engrandecer, estou falando que é uma conquista minha. E se é minha, eu preciso, sim, propagar. Preciso levar adiante." Sua deficiência, ela deixa claro, nunca foi e nunca será limite para suas conquistas pessoais e profissionais. No domingo que marca o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência Física, sua história é um convite a olhar para além das limitações físicas — e sobretudo para as barreiras que a sociedade insiste em construir.
Citations marquantes
Jesus só dá a quem pode fazer— Maria Anunciação da Silva, mãe de Glady, respondendo ao prognóstico médico pessimista
Minha infância era ficar me arrastando pelo chão, porque eu não engatinhei. Não tive brinquedos, minha mãe nunca teve condições financeiras para me dar— Glady Maria da Silva, sobre sua infância