Anvisa autoriza testes em humanos de vacina brasileira contra malária vivax

Malária vivax causa complicações graves como anemia, problemas respiratórios e ruptura do baço, com 39 óbitos registrados no Brasil em 2025.
O parasita acorda para causar novos episódios sem nova infecção
Uma característica do Plasmodium vivax que torna o controle da doença particularmente desafiador.
Mark

Por que essa vacina é tão diferente das que já existem contra malária?

Mimi

Porque as duas vacinas que a OMS recomenda foram feitas para o Plasmodium falciparum, que é mais comum na África. Aqui no Brasil, quem causa problema é o vivax, e ninguém nunca tinha desenvolvido uma vacina aprovada para ele.

Luke

Certo, mas vale notar que as vacinas existentes não são inúteis no Brasil — é só que não foram pensadas para o parasita que circula aqui.

Mark

E essa tecnologia de proteína de superfície, ela é nova?

Mimi

Não é nova em geral — outras vacinas usam essa abordagem. O que é novo é aplicar isso especificamente ao vivax dessa forma.

Luke

E é importante dizer que estamos falando de fase 1. Segurança e resposta imunológica. Ainda não sabemos se funciona de verdade contra a doença.

Mark

Quantas pessoas vão participar?

Mimi

Quarenta e oito no total, divididas entre vacina e placebo, testando três doses diferentes.

Luke

Amostra pequena, como é padrão em fase 1. Mas o acompanhamento é longo — um ano inteiro.

Mark

E se der certo nessa fase?

Mimi

Aí vai para fase 2 e 3, com muito mais gente, para medir se realmente protege contra a malária.

Luke

Isso pode levar anos. Não há atalho nesse processo.

Mark

Por que o vivax é tão complicado de tratar?

Mimi

Porque o parasita consegue ficar dormindo no fígado por meses e depois acordar, causando novos episódios sem que a pessoa tenha sido picada de novo.

  • A malária vivax infectou 118 mil brasileiros apenas em 2025 e matou 39 pessoas, mas até hoje nenhuma vacina no mundo foi aprovada para combatê-la.
  • A Vivaxin enfrenta o desafio de um parasita que se esconde no fígado por meses e ressurge sem nova infecção, tornando o controle da doença especialmente difícil.
  • Quarenta e oito voluntários saudáveis serão divididos entre vacina e placebo em um estudo cego, testando três doses diferentes ao longo de um ano em Belo Horizonte.
  • A autorização da Anvisa representa a superação de uma barreira crítica: pela primeira vez, uma vacina brasileira contra o vivax chega à etapa de testes em humanos.
  • Se a fase 1 confirmar segurança e resposta imunológica, as fases seguintes ampliarão o número de voluntários e medirão se a vacina realmente protege contra a infecção real.

No limiar entre a ciência e a esperança, o Brasil deu um passo histórico ao autorizar os primeiros testes humanos da Vivaxin, uma vacina desenvolvida em solo nacional contra a malária vivax — parasita que aflige 85% dos infectados no país e para o qual nenhum imunizante existe no mundo. A Anvisa concedeu essa autorização em outubro de 2026, abrindo caminho para que pesquisadores da UFMG, USP e laboratório Cristália testem, pela primeira vez em pessoas, uma abordagem que pode redefinir a proteção contra uma doença que ainda mata e adoece milhares na Amazônia. É o início de uma jornada longa, mas é também o reconhecimento de que lacunas globais podem ser preenchidas por ciência feita aqui.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou, em 7 de outubro de 2026, o início dos testes clínicos da Vivaxin — uma vacina brasileira contra a malária vivax desenvolvida pela UFMG em parceria com a USP e o laboratório Cristália. É a primeira vez que um imunizante desse tipo chega à fase de testes em humanos no Brasil, preenchendo uma lacuna que as vacinas existentes, voltadas ao Plasmodium falciparum africano, jamais cobriram.

O mecanismo da Vivaxin é elegante em sua lógica: uma proteína fabricada em laboratório imita variantes da superfície do Plasmodium vivax e, ao ser injetada, treina o sistema imunológico a reconhecer e combater o parasita real. A estratégia já funcionou em outras doenças; agora será testada, pela primeira vez dessa forma, contra esse parasita específico.

O estudo de fase 1 envolverá 48 voluntários saudáveis entre 18 e 59 anos, sem histórico de malária, divididos igualmente entre quem receberá a vacina e quem receberá placebo. Três doses diferentes serão avaliadas, com intervalos de 28 dias, e o acompanhamento se estenderá por cerca de um ano no Hospital das Clínicas da UFMG, em Belo Horizonte. O objetivo central desta etapa é confirmar segurança e capacidade de estimular anticorpos — não ainda a eficácia plena.

A relevância do projeto se mede pela dimensão do problema que ele enfrenta. Em 2025, o Brasil registrou 118 mil casos de malária, 85% deles causados pelo vivax, quase todos na Amazônia. A doença não é apenas febre e calafrios: pode provocar anemia grave, insuficiência respiratória e ruptura do baço. Pior, o vivax tem a capacidade de permanecer adormecido no fígado por meses e reativar sem nova picada de mosquito.

Se a fase 1 for bem-sucedida, o caminho seguinte são as fases 2 e 3, com muito mais voluntários e o objetivo de medir se a Vivaxin realmente protege contra a infecção. É uma jornada longa — mas é o único percurso que transforma ciência de laboratório em ferramenta real para quem mais precisa.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária deu sinal verde, na quarta-feira 7 de outubro, para que pesquisadores brasileiros começassem a testar em pessoas uma vacina contra a malária vivax — o tipo mais frequente no Brasil e aquele para o qual o mundo ainda não tem um imunizante licenciado. O produto, batizado Vivaxin, nasceu de uma parceria entre o CTVacinas da Universidade Federal de Minas Gerais, a Universidade de São Paulo e o laboratório Cristália, e representa uma aposta em uma abordagem que até agora não havia chegado a essa etapa no país.

O funcionamento é direto: os cientistas fabricam em laboratório uma proteína que imita variantes de uma proteína que existe na superfície do Plasmodium vivax, o parasita responsável pela doença. Quando injetada, essa proteína funciona como um cartaz de "procura-se" para o sistema imunológico, treinando o corpo a fabricar anticorpos capazes de reconhecer e atacar o invasor de verdade se ele aparecer. É uma estratégia que já provou seu valor em outras doenças, mas nunca havia sido levada adiante dessa forma contra esse parasita específico.

O estudo que acaba de receber autorização é de fase 1 — o primeiro passo obrigatório em qualquer novo medicamento ou vacina. Nessa etapa, o foco principal é verificar se a substância é segura e se consegue provocar a resposta imunológica desejada. Quarenta e oito voluntários saudáveis, entre 18 e 59 anos, sem histórico de malária, serão divididos em dois grupos: metade receberá a Vivaxin, metade receberá placebo. Ninguém saberá em qual grupo está. Os pesquisadores testarão três doses diferentes para descobrir qual oferece o melhor equilíbrio entre segurança e potencial de eficácia, com intervalos de 28 dias entre as aplicações. O acompanhamento durará cerca de um ano, e tudo acontecerá no Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital das Clínicas da UFMG, em Belo Horizonte.

O que torna esse projeto particularmente relevante é uma lacuna global que ele pretende preencher. As duas vacinas contra malária recomendadas pela Organização Mundial da Saúde — RTS,S/AS01 e R21/Matrix-M — foram desenvolvidas para combater o Plasmodium falciparum, o parasita que causa a forma mais grave e letal da doença, predominante na África. Mas no Brasil e em grande parte das Américas e da Ásia, quem domina é o vivax. Embora o falciparum seja responsável pela maioria dos casos críticos, o vivax não é inofensivo: pode provocar anemia grave, insuficiência respiratória, ruptura do baço e, em casos extremos, morte. Além disso, ele possui uma característica particularmente incômoda — consegue ficar adormecido no fígado por meses e acordar para causar novos episódios de malária sem que haja uma nova infecção.

O Brasil sentiu na pele a importância dessa questão. No ano passado, o país registrou 118 mil casos de malária, dos quais aproximadamente 85% foram do tipo vivax. Praticamente todos — 99% — ocorreram na região amazônica. A doença matou 39 pessoas em 2025. A transmissão acontece principalmente pela picada de mosquitos fêmeas infectados do gênero Anopheles, e os sintomas clássicos incluem febre, calafrios e dor de cabeça.

Se os testes de fase 1 confirmarem que a Vivaxin é segura e consegue estimular a produção de anticorpos como esperado, o caminho seguinte será abrir as portas para as fases 2 e 3. Nesses estágios, o número de voluntários cresce significativamente, e o objetivo muda: não é mais apenas verificar segurança, mas medir de verdade se a vacina funciona, se consegue proteger pessoas contra a infecção real. É um trajeto longo, mas é o único caminho que existe para transformar uma ideia de laboratório em uma ferramenta que possa chegar às mãos de quem precisa.

A malária vivax é o tipo mais comum no Brasil e em boa parte das Américas e da Ásia
— Organização Mundial da Saúde / contexto do estudo
O Plasmodium vivax pode ficar dormente no fígado por meses e voltar a provocar episódios de malária, mesmo sem uma nova transmissão
— UFMG
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