No domingo de Tiradentes, enquanto dezenas de milhares se reuniam em Copacabana em defesa de Bolsonaro, o presidente Lula contemplava pássaros e habitações populares — uma escolha que não era distração, mas estratégia. O silêncio governista diante da manifestação bolsonarista revelou uma filosofia política antiga: nem todo fogo merece combustível. A queda nos números de mobilização, de 185 mil em São Paulo para menos de 33 mil no Rio, sugere que o tempo, mais do que o confronto, pode ser o maior árbitro das disputas políticas.
Aliados de Lula ignoram ou minimizam ato bolsonarista no Rio com estratégia de silêncio
O silêncio é uma forma de negar importância
Por que o governo escolheu não responder diretamente ao ato? Parecia uma oportunidade para confrontar.
Porque responder diretamente amplificaria a manifestação. O silêncio é uma forma de negar importância. Quando você ignora algo, você está dizendo que não merece sua atenção.
Mas alguns deputados responderam. Então não foi silêncio total — foi seletivo. Lula silenciou, mas Gleisi Hoffmann não.
Exato. Havia uma divisão de trabalho. O presidente mantinha a dignidade acima da briga, enquanto aliados mais combativos faziam o trabalho sujo.
E quanto aos números? 32.750 pessoas é muito ou pouco?
Depende da perspectiva. Em termos absolutos, é uma multidão. Mas comparado aos 185 mil de fevereiro em São Paulo, é um colapso de 82%. Isso é fato verificável.
E isso importa porque mostra que a capacidade de mobilização bolsonarista está enfraquecendo. O governo pode estar apostando que o movimento está perdendo força naturalmente.
O que mais chamou atenção no ato?
O alinhamento com Elon Musk. Não era só um ato político — era uma manifestação de apoio a um bilionário estrangeiro que controla uma plataforma de comunicação. Isso é novo.
E por isso Gleisi atacou tão duramente. Não era só sobre Bolsonaro — era sobre a dependência de um ator externo para amplificar a mensagem.
Então a estratégia de silêncio funcionou?
Não sabemos ainda. O ato aconteceu, as críticas foram feitas, mas não há dados sobre impacto político real. Sabemos o que foi dito, não sabemos o que as pessoas pensaram.
The Pulse
- O ato bolsonarista em Copacabana reuniu 32.750 pessoas — um número que, comparado aos 185 mil de fevereiro em São Paulo, conta uma história de esvaziamento progressivo.
- Lula respondeu ao evento falando sobre o joão-de-barro e habitação popular, recusando-se a reconhecer a manifestação como interlocutora política legítima.
- Ministros e aliados governistas usaram memes, fotos históricas e mudanças de assunto para esvaziar simbolicamente o ato sem entrar em confronto direto.
- Gleisi Hoffmann rompeu o silêncio com dureza, denunciando o alinhamento entre bolsonarismo e Elon Musk como uma ameaça aberta à democracia brasileira.
- Falas como a do deputado Nikolas Ferreira sobre 'testosterona' geraram repúdio governista e reforçaram a narrativa de que o bolsonarismo radicaliza enquanto perde força de rua.
No domingo de Tiradentes, enquanto dezenas de milhares se reuniam em Copacabana em defesa de Bolsonaro, o presidente Lula contemplava pássaros e habitações populares — uma escolha que não era distração, mas estratégia. O silêncio governista diante da manifestação bolsonarista revelou uma filosofia política antiga: nem todo fogo merece combustível. A queda nos números de mobilização, de 185 mil em São Paulo para menos de 33 mil no Rio, sugere que o tempo, mais do que o confronto, pode ser o maior árbitro das disputas políticas.
Na praia de Copacabana, no domingo 21 de abril, cerca de 32.750 pessoas se reuniram em defesa de Jair Bolsonaro. O número era expressivo, mas carregava uma sombra: representava apenas 17% da multidão que havia comparecido à Avenida Paulista em fevereiro, e menos da metade dos 64,6 mil presentes no mesmo local em 2022. A mobilização encolhia — e o governo Lula decidiu não fingir que não sabia disso.
A estratégia governista foi o silêncio calculado. Lula passou o domingo postando vídeos sobre o pássaro joão-de-barro e sua inspiração para o programa 'Minha Casa, Minha Vida', falando em entregar dois milhões de habitações até 2026. Seus ministros seguiram o roteiro: Paulo Pimenta postou sobre renda e energia elétrica; Jorge Messias repostou uma foto histórica do Papa Francisco em Copacabana em 2013, quando 3 milhões de pessoas receberam o pontífice — uma comparação implícita e devastadora, feita sem uma palavra sequer sobre o ato bolsonarista.
Nem todos resistiram ao comentário direto. O deputado Ivan Valente celebrou os números modestos com ironia; Jandira Feghali usou um meme com a própria fala de Bolsonaro; Natália Bonavides lembrou que 21 de abril é o dia do metalúrgico — profissão de Lula jovem, fotografado em greve em 1978. Foram gestos oblíquos, mais escárnio do que confronto.
Foi Gleisi Hoffmann quem falou com mais contundência. A presidente do PT denunciou o alinhamento entre bolsonarismo e Elon Musk como uma ameaça à democracia, chamou Bolsonaro de covarde e afirmou que não haveria anistia para os envolvidos nos ataques de 8 de janeiro. No palco de Copacabana, o deputado Nikolas Ferreira havia pedido 'homens com testosterona' — fala que o governo classificou como vergonhosa e que resumia, para seus críticos, o tom de um movimento que radicaliza enquanto perde as ruas.
Na praia de Copacabana, no domingo 21 de abril, cerca de 32.750 pessoas se reuniram em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro. Foi um número considerável, mas que contava uma história de declínio: representava apenas 17% da multidão que havia comparecido a um ato semelhante na Avenida Paulista em fevereiro, quando 185 mil pessoas estiveram presentes. Dois anos antes, em 2022, o mesmo local havia recebido 64,6 mil apoiadores. A manifestação deste domingo, porém, foi marcada por algo tão significativo quanto o tamanho da multidão: o silêncio ensurdecedor que veio depois.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus aliados governistas escolheram uma estratégia deliberada de não engajamento. Lula ignorou completamente o ato. Em vez de responder ou comentar sobre a mobilização bolsonarista, o presidente postou vídeos no X mostrando-se no jardim do Palácio do Alvorada, de chapéu e óculos escuros, falando sobre o pássaro joão-de-barro e sua inspiração para o programa de habitação "Minha Casa, Minha Vida". Ele descreveu a "sabedoria da natureza" e a "inteligência do joão-de-barro", afirmando que o governo pretendia entregar dois milhões de habitações até 2026. Suas duas publicações no domingo focaram em temas econômicos e sociais: renegociação de dívidas do Fies e redução da extrema-pobreza no país.
Outros ministros seguiram o mesmo caminho. Paulo Pimenta, ministro da Secretaria de Comunicação Social, postou apenas sobre aumento de renda e redução de tarifa de energia elétrica. Jorge Messias, ministro-chefe da Advocacia Geral da União, escolheu uma abordagem ainda mais criativa: repostou uma foto histórica do Papa Francisco em Copacabana durante a Jornada Mundial da Juventude em 2013, quando cerca de 3 milhões de pessoas receberam o pontífice. Era uma forma de invocar um evento de magnitude incomparável no mesmo local, sem mencionar diretamente o ato bolsonarista.
Alguns aliados governistas, porém, não conseguiram resistir a um comentário direto. O deputado Ivan Valente, do PSOL-SP, fez três postagens apontando o fracasso relativo do evento, citando os números do Monitor do Debate Político no Meio Digital da Universidade de São Paulo. "Chora canalha bolsonarista. MIOU", escreveu. A deputada Jandira Feghali, do PCdoB-RJ, postou um meme usando um trecho do discurso de Bolsonaro em Copacabana, onde ele dizia "Vocês podem ter um presidente mais competente do que eu", seguido de créditos de filme — uma piada visual comum para situações absurdas. A deputada Natália Bonavides, do PT-RN, lembrou que 21 de abril é o dia do metalúrgico, profissão de Lula, postando uma foto dele jovem discursando durante a greve de 1978.
Mas foi Gleisi Hoffmann, presidente do PT, quem fez o comentário mais contundente. Ela criticou enfaticamente o alinhamento entre bolsonarismo e Elon Musk, dono do X. "Se alguém tinha alguma dúvida, o ato de Copacabana escancarou o alinhamento total do bolsonarismo com o dono do X, contra a democracia no Brasil", escreveu. Hoffmann chamou Bolsonaro de "covarde" e disse que o significado de "mito" — alcunha usada por seus apoiadores — era simplesmente "mentira". Ela também se referiu a um novo pedido de anistia aos envolvidos nos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023, afirmando: "não vai ter anistia para golpista nem impunidade para os mandantes".
O ato em Copacabana havia sido marcado por acusações contra o ministro Alexandre de Moraes do Supremo Tribunal Federal, críticas ao governo Lula e ao presidente do Senado Rodrigo Pacheco, e manifestações de gratidão a Elon Musk. Um dos discursos mais polêmicos veio do deputado Nikolas Ferreira, do PL-MG, que afirmou: "Este País precisa de homens com testosterona. É isso que esse País precisa. E eu tenho certeza que é o que esses dois homens representam" — referindo-se a Bolsonaro e ao pastor Silas Malafaia, um dos organizadores do evento. Ricardo Cappelli, presidente da ABDI e ex-ministro interino do GSI, chamou essa fala de vergonhosa, afirmando que quando a capital da democracia "se mistura com o extremismo político, a gente já viu que não acaba bem".
A estratégia governista de silêncio ou minimização refletia uma abordagem calculada: não amplificar a manifestação bolsonarista, não engajar em confronto direto, e quando necessário, usar o humor ou desviar para temas de governo. Era uma tática que contrastava com os atos de rua organizados pela esquerda no final de março, que não tiveram endosso do governo e foram marcados pelo esvaziamento. O que ficava claro era que, para o governo Lula, a melhor resposta a Copacabana não era uma resposta — era simplesmente seguir em frente.
Notable Quotes
Se alguém tinha alguma dúvida, o ato de Copacabana escancarou o alinhamento total do bolsonarismo com o dono do X, contra a democracia no Brasil— Gleisi Hoffmann, presidente do PT
Este País precisa de homens com testosterona. É isso que esse País precisa— Deputado Nikolas Ferreira, PL-MG