Agustin Fernandez: do Uruguai à intimidade da família Bolsonaro

Agustin relata ter sofrido abuso sexual na infância aos 12 anos e recebido ameaças de morte por apoiar Bolsonaro nas eleições de 2018.
Um gay, afeminado, que se veste de mulher, adotado como filho
Agustin reflete sobre a contradição de encontrar acolhimento em Bolsonaro, apesar da reputação homofóbica do presidente.

Entre fronteiras geográficas e contradições humanas, Agustin Fernandez construiu uma trajetória que desafia categorias simples: nascido no Uruguai, moldado pela adversidade precoce, tornou-se maquiador influenciador com milhões de seguidores no Brasil e figura próxima à família do presidente Jair Bolsonaro. Sua história levanta questões antigas sobre pertencimento, identidade e os laços improváveis que as pessoas forjam em busca de acolhimento.

  • Um homem gay e afeminado que se veste de mulher declara ter sido 'adotado como filho' por um presidente amplamente criticado por posições homofóbicas — a contradição é o centro de sua narrativa pública.
  • Ameaças de morte recebidas em 2018 por apoiar Bolsonaro nas eleições o forçaram a deixar o Brasil temporariamente, expondo o custo pessoal de suas escolhas políticas.
  • Fernandez transformou uma infância marcada por abuso, pobreza e responsabilidades precoces em uma plataforma de solidariedade, viralizando com vídeos de automaquiagem para pacientes em quimioterapia.
  • Com mais de 3 milhões de seguidores e presença constante ao lado de Michelle e Eduardo Bolsonaro, ele documenta publicamente um sentimento de pertencimento que parece ser sua maior conquista pessoal.

Agustin Fernandez estava no hospital Vila Nova Star quando visitou Michelle Bolsonaro e o presidente internado — mais um episódio de uma proximidade construída ao longo dos anos com a família presidencial. Ele afirma, com gratidão e sem hesitação, que Bolsonaro o adotou como filho.

Nascido no Uruguai, Fernandez deixou o país aos 17 anos em busca de uma vida melhor no Brasil. A infância havia sido dura: aos 8 anos já cuidava da casa e dos irmãos menores. Aos 12, enquanto buscava sobras em uma padaria, sofreu abuso sexual por parte de um homem que lhe dava dinheiro em troca de toques. Levou anos para compreender sua própria sexualidade. 'Era afeminado, mas não tinha consciência de ser gay', contou à Folha de São Paulo.

Sua virada profissional veio pelo trabalho voluntário em um hospital oncológico, onde conheceu a blogueira Flávia Flores. Juntos gravaram um vídeo ensinando a corrigir olheiras e colar cílios durante a quimioterapia. O conteúdo viralizou. 'Foi mítico. Entendi o poder da internet', disse Fernandez, que hoje acumula mais de 3 milhões de seguidores.

Foi pelo Instagram que ele conheceu Michelle Bolsonaro. O primeiro encontro presencial aconteceu no Hospital de Barretos, onde ele ministrava cursos de automaquiagem para pacientes com câncer. A relação se aprofundou: nas redes sociais, Fernandez compartilha ações voluntárias ao lado da primeira-dama e publica mensagens de admiração — 'Você é um presente divino na minha vida'.

Em 2018, seu apoio público a Bolsonaro nas eleições lhe custou ameaças de morte e um período fora do Brasil. 'Logo eu, né? Um gay, afeminado, que se veste de mulher', declarou, apontando ele mesmo a contradição central de sua história. Fernandez também colabora com conteúdo com o deputado Eduardo Bolsonaro, com quem faz piadas de tom íntimo em vídeos publicados no YouTube. Para ele, a presença constante na órbita da família presidencial representa algo mais profundo do que política — representa pertencimento.

Agustin Fernandez estava no hospital Vila Nova Star quando visitou Michelle Bolsonaro e o presidente Jair Bolsonaro, internado naquele momento. A visita era apenas mais um episódio de uma proximidade que o maquiador e empresário uruguaio construiu com a família presidencial ao longo dos anos — uma relação que ele descreve com intimidade e gratidão, afirmando que o presidente o adotou como filho.

Fernandez nasceu no Uruguai, mas aos 17 anos deixou o país em busca de uma vida melhor no Brasil. Sua infância foi marcada por responsabilidades precoces: aos 8 anos já cuidava da casa e dos irmãos menores, trocava fraldas, lavava roupa, preparava refeições. Naquela época também sofreu abuso sexual. Aos 12 anos, enquanto buscava sobras em uma padaria do bairro, um homem o tocava e lhe dava dinheiro para comprar leite. Fernandez levou tempo para compreender sua própria sexualidade. "Era afeminado, mas não tinha consciência de ser gay. Só fui ter relações homossexuais voluntárias bem depois", contou em entrevista à Folha de São Paulo.

Sua trajetória no Brasil começou a mudar quando trabalhou como voluntário em um hospital que atendia pacientes com câncer. Lá conheceu Flávia Flores, blogueira e autora do livro "Quimioterapia e Beleza". Os dois gravaram um vídeo ensinando como corrigir olheiras e colar cílios durante o período de quimioterapia. O conteúdo viralizou nas redes sociais. "Foi mítico. Entendi o poder da internet", disse Fernandez. A partir daquele momento, sua agenda profissional se encheu. Hoje ele soma mais de 3 milhões de seguidores nas redes sociais.

Fernandez conheceu Michelle Bolsonaro pelo Instagram. O primeiro encontro aconteceu durante uma visita ao Hospital de Barretos, onde ele ministrava um curso de automaquiagem para pacientes com câncer. A relação entre eles se aprofundou. Nas redes sociais, Fernandez compartilha momentos de ações voluntárias ao lado da primeira-dama — preparando alimentos, participando de doações. Em suas publicações, ele escreve mensagens de admiração: "Você é um presente divino na minha vida e também essencial na sociedade". Em outro post: "Ela tem o dom da solidariedade e de estimular o lado humano das pessoas. Sou muito grato por ter você na minha vida".

Em 2018, Fernandez apoiou publicamente Bolsonaro nas eleições presidenciais. Essa posição lhe custou caro. Ele recebeu ameaças de morte por seu apoio ao candidato. "Só eu sei o que vivi, a ponto de ficar fora do Brasil, pois recebia ameaças de morte por apoiar Jair Messias Bolsonaro, um homem do bem, que me adotou como um filho, mesmo com fama de homofóbico. Logo eu, né? Um gay, afeminado, que se veste de mulher", declarou Fernandez. A contradição que ele mesmo aponta — um homem gay e afeminado encontrando acolhimento em alguém conhecido por posições homofóbicas — é central em sua narrativa pessoal.

Fernandez também colabora com conteúdo com Eduardo Bolsonaro, deputado federal. Em um vídeo publicado no canal do deputado no YouTube, Fernandez brinca sobre seu relacionamento com Eduardo, referindo-se a si mesmo como "ex marido" e fazendo piadas sobre o divórcio. No mesmo vídeo, deixa claro que é amigo da atual esposa de Eduardo, Heloísa Bolsonaro, e que não tem inveja dela. A presença de Fernandez na órbita da família presidencial é constante e pública, documentada em redes sociais e em colaborações de conteúdo que reforçam uma narrativa de pertencimento e aceitação que ele valoriza profundamente.

Só eu sei o que vivi, a ponto de ficar fora do Brasil, pois recebia ameaças de morte por apoiar Jair Messias Bolsonaro, um homem do bem, que me adotou como um filho
— Agustin Fernandez
Ela tem o dom da solidariedade e de estimular o lado humano das pessoas. Sou muito grato por ter você na minha vida
— Agustin Fernandez, sobre Michelle Bolsonaro
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como alguém que sofreu abuso sexual na infância e recebeu ameaças de morte por suas escolhas políticas acaba construindo essa relação tão próxima com a família Bolsonaro?

Model

Acho que para Agustin, a adoção simbólica que ele descreve representa algo que faltou em sua vida desde cedo — um lugar seguro, uma família que o acolhe sem condições. Ele perdeu a infância cuidando de irmãos, sofreu violência. Quando encontra alguém que o chama de filho, isso tem peso.

Inventor

Mas há uma contradição óbvia aí. Bolsonaro tem uma reputação bem documentada de fazer comentários homofóbicos. Como Agustin reconcilia isso?

Model

Ele não reconcilia, exatamente. Ele simplesmente afirma que a experiência pessoal dele com Bolsonaro contradiz a reputação pública. É uma escolha de acreditar na relação privada sobre a narrativa pública. Talvez seja a única forma que ele encontrou de viver sua verdade.

Inventor

Os 3 milhões de seguidores dele — isso é resultado genuíno do trabalho voluntário, ou a proximidade com a família presidencial amplificou sua plataforma?

Model

Provavelmente os dois. O vídeo sobre beleza durante quimioterapia viralizou porque era genuinamente útil e tocava as pessoas. Mas uma vez que ele se tornou próximo de Michelle, a visibilidade certamente aumentou. As redes sociais amplificam quem já tem acesso.

Inventor

Ele compartilha muitos momentos privados com a primeira-dama. Isso é uma escolha consciente de construir uma narrativa pública sobre essa intimidade?

Model

Sim. Agustin está documentando e validando publicamente uma relação que, para ele, é profundamente significativa. Cada post é uma forma de dizer: "Eu pertenço aqui. Eu sou amado. Eu sou parte dessa família." Para alguém que começou a vida tão sozinho, isso importa.

Inventor

E quando ele faz piadas sobre ser "ex marido" de Eduardo Bolsonaro? Isso é apenas humor ou há algo mais?

Model

É uma forma de se integrar à dinâmica familiar através do humor. Ele está dizendo: "Eu sou próximo o suficiente para brincar, para estar dentro do círculo." É uma estratégia de pertencimento — transformar a distância em intimidade através da brincadeira.

Inventor

O que você acha que acontece se essa relação se desfizer?

Model

Seria devastador para ele, imagino. Agustin construiu sua identidade pública em torno dessa proximidade. Se ela desaparecesse, ele perderia não apenas uma amizade, mas a validação de que finalmente encontrou a família que sempre quis.

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