A biodiversidade portuguesa depende de paisagens rurais heterogéneas com mosaicos de culturas, sebes e montados, não apenas de áreas selvagens protegidas. A expansão da agricultura intensiva de regadio elimina habitats específicos e causa homogeneização da paisagem, tornando impossível a coexistência entre atividade humana e diversidade biológica.
Agricultura intensiva ameaça biodiversidade: «A continuar assim, atingiremos um ponto de não retorno»
A continuar assim, atingiremos um ponto de não retorno
Quando fala em "ponto de não retorno", o que significa exatamente? Há uma linha que, uma vez ultrapassada, não conseguimos voltar atrás?
Sim, exatamente. Os ecossistemas têm uma capacidade de recuperação, mas ela tem limites. Quando perdemos demasiadas espécies, demasiados habitats, o sistema colapsa. Não é uma queda abrupta — é gradual, insidioso. Mas chega um momento em que não conseguimos restaurar o que foi perdido.
Mas a agricultura intensiva produz alimento. Como é que equilibramos isso com a conservação?
Esse é o grande desafio. Não digo que a agricultura intensiva seja má em si mesma. O problema é a escala, a uniformidade. Se tivéssemos mosaicos — áreas intensivas alternadas com áreas extensivas, com corredores ecológicos — seria possível. Mas o que vemos é a homogeneização total de vastas regiões.
Porque é que as pessoas não veem isto como um problema urgente?
Porque os sinais mais graves são invisíveis. Uma planta rara desaparece e ninguém nota. Mas quando as azinheiras começam a morrer em massa, aí sim — aí as pessoas veem. O problema é que, nessa altura, já perdemos muito.
Então a solução é parar a agricultura intensiva?
Não é tão simples. É necessário planeamento. Algumas áreas podem ser intensivas. Outras têm de ser preservadas ou geridas de forma extensiva. O que não podemos fazer é deixar que a intensificação se expanda sem limites, sem considerar as consequências ecológicas.
E as espécies que já desapareceram? Podemos recuperá-las?
Algumas talvez, com tecnologia. Mas a maioria não. Uma vez que uma espécie desaparece de um habitat, é muito difícil trazê-la de volta. É por isso que a prevenção é tão importante. Proteger o que ainda existe é muito mais fácil do que tentar restaurar o que foi perdido.
Qual é o papel das pessoas comuns nisto tudo?
Sensibilização. Compreender que a natureza não é apenas um recurso a explorar. Cada ambiente, por mais hostil que pareça, tem valor. E essa compreensão tem de vir de baixo para cima — das comunidades locais, dos agricultores, dos decisores políticos. Sem isso, nenhuma lei de conservação funciona.
The Pulse
- Paisagens rurais do Alentejo formam mosaicos de culturas de sequeiro, sebes, montados e olivais extensivos com biodiversidade única
- Expansão da agricultura intensiva de regadio causa homogeneização da paisagem e desaparecimento de espécies silvestres adaptadas a regimes extensivos
- Mortalidade galopante de azinheiras e sobreiros no Alentejo, especialmente em áreas de montado perturbadas, indica desequilíbrio ecológico
- Ribeiras e cursos de água criam habitats contrastantes essenciais para a biodiversidade mediterrânica portuguesa
A biodiversidade portuguesa depende de paisagens rurais heterogéneas com mosaicos de culturas, sebes e montados, não apenas de áreas selvagens protegidas. A expansão da agricultura intensiva de regadio elimina habitats específicos e causa homogeneização da paisagem, tornando impossível a coexistência entre atividade humana e diversidade biológica.
Biólogo Miguel Porto alerta que a intensificação agrícola e homogeneização da paisagem no Alentejo ameaçam comunidades biológicas únicas, aproximando Portugal de um ponto de não retorno ecológico.
A biodiversidade portuguesa não vive apenas nas reservas intocadas e nos parques protegidos. Ela existe também nas paisagens que os humanos moldaram ao longo de séculos — nos campos de sequeiro do Alentejo, nas sebes que dividem parcelas, nos montados onde o gado pasta entre árvores espaçadas, nas ribeiras que cortam a terra seca. Miguel Porto, biólogo e investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, passou anos estudando exatamente estes mosaicos rurais, e o que descobriu é tanto fascinante quanto urgente: estamos a destruir ecossistemas únicos sem sequer nos apercebermos completamente do que estamos a perder.
O enviesamento humano é o ponto de partida. Tendemos a olhar para a natureza através das espécies mais visíveis, as mais exuberantes, ignorando as relações ecológicas que sustentam tudo. Um sapo minúsculo, uma planta que passa despercebida, uma comunidade de insetos invisíveis — estas coisas não capturam a nossa atenção como um lince ou uma águia. Porto reconhece que este problema é profundo e difícil de contrariar. Mas nota que, nos últimos anos, a quantidade de informação disponível em portais de biodiversidade ajudou a dar visibilidade a espécies obscuras. Ainda há pouco tempo, centenas de plantas da flora portuguesa não tinham sequer fotografias disponíveis. Agora temos acesso a essa informação. Ainda assim, o enviesamento persiste. A questão é que nem sempre as espécies visíveis funcionam como "espécies-guarda-chuva" — aquelas cuja proteção garante automaticamente a proteção de muitas outras que partilham o mesmo habitat. Muitas espécies crípticas ameaçadas não têm esse benefício. A solução, diz Porto, passa pela divulgação e sensibilização feita por quem as conhece.
As paisagens do Alentejo exemplificam perfeitamente como a atividade humana e a biodiversidade podem coexistir. Aqueles campos complexos e pitoresccos, com parcelas de culturas de sequeiro, pousios, sebes, montados, olivais extensivos e parcelas abandonadas, formam um mosaico intrincado de grande biodiversidade. Não é a biodiversidade dos sítios selvagens — é diferente, mas igualmente única. Diversas espécies de plantas silvestres estão estritamente associadas a estas paisagens extensivas. Os olivais extensivos de sequeiro da região de Beja e Serpa, por exemplo, têm uma flora muito peculiar que não existe em lado nenhum. Mas esta coexistência tem limites, e esses limites estão a ser ultrapassados. A expansão em larga escala da agricultura intensiva de regadio está a causar o desaparecimento desta biodiversidade. O problema é duplo: primeiro, a produção intensiva não é compatível com a maioria das espécies silvestres, que evoluíram para regimes extensivos de sequeiro. Segundo, a expansão destes regimes intensivos homogeneíza a paisagem, com consequências drásticas para a diversidade. Nestas condições, a coexistência não é possível. Porto é claro: a continuar assim, atingiremos um ponto de não retorno.
Os sinais de alerta já são visíveis. O mais preocupante e visível em muitas áreas do Alentejo é a mortalidade galopante de azinheiras e sobreiros, provavelmente devido à expansão da doença da seca da azinheira. Este problema tem alastrado sobretudo nas áreas de montado mais perturbadas e sujeitas a pastoreio mais intensivo. Nas florestas naturais de azinheira ou sobreiro que não sofrem desmatações, a incidência é muito reduzida. Isto sugere que algo não está bem na forma como gerimos o montado. Plantar novas árvores para compensar a mortalidade seria apenas mascarar os sintomas. É necessário atacar o problema pela raiz.
As ribeiras desempenham um papel desproporcionado em relação à sua dimensão física. Numa região como o Alentejo, onde a diferença entre as estações é extrema, os cursos de água criam condições ecológicas totalmente contrastantes com a paisagem envolvente. À escala da paisagem, são talvez um dos ambientes que mais contribuem com espécies diferentes das que se encontram na envolvente. As espécies associadas às ribeiras são completamente distintas das que ocorrem nos locais secos. Mas é importante perceber que as ribeiras não são um oásis para as espécies dos locais secos — são o habitat de outras espécies, totalmente diferentes. Esta heterogeneidade espacial é uma das características mais importantes das paisagens portuguesas e uma das chaves para a elevada biodiversidade que existe no país. É essencial que estes contrastes se mantenham: ribeiras, charcos, pastagens secas, matos secos, florestas e até afloramentos rochosos hostis. Todos têm o seu papel. Por mais seco e hostil que um ambiente pareça, existe sempre um conjunto de espécies que se adaptou a ele e que apenas sobrevive nesse local. É da conjugação de todos estes ambientes, da sua coexistência em mosaico na paisagem, que nasce a verdadeira essência da biodiversidade portuguesa. A homogeneização de grandes áreas do território é a pior ameaça, e as ribeiras são um dos elementos diversificadores mais importantes. O que está em jogo não é apenas a preservação de espécies isoladas, mas a integridade de um sistema ecológico que levou séculos a formar-se.
Notable Quotes
As áreas completamente selvagens são realmente únicas e têm uma biodiversidade insubstituível, mas as áreas mais humanizadas também possuem elementos únicos e insubstituíveis— Miguel Porto, biólogo e investigador
A homogeneização de grandes áreas do território é a pior ameaça, e as ribeiras são um dos elementos diversificadores mais importantes— Miguel Porto