Agosto, o mês do cachorro louco: tragédias históricas e crise democrática

Pandemia de COVID-19 resultou em quase 600 mil mortos e mais de 20 milhões de contaminados no Brasil por ação ou omissão do governo.
Não basta vacinar os cães; é preciso vacinar seus donos contra a raiva
Reflexão sobre a lenda do mês do cachorro louco e sua aplicação à crise política brasileira.
Mark

Por que agosto especificamente? É apenas coincidência histórica ou há algo estrutural no mês que o torna propício a crises?

Mimi

A coincidência é real, mas o que importa agora é que Bolsonaro não está esperando por tradições. Ele está criando sua própria crise, deliberadamente, porque sente o cerco se fechando.

Mark

O desfile de tanques em Brasília — foi realmente uma tentativa de golpe ou apenas teatro político?

Mimi

Foi intimidação. Quando você perde uma votação no Congresso e responde com uma demonstração de força militar, você está dizendo algo muito claro sobre o que acha da democracia.

Mark

Augusto Aras aparece várias vezes aqui. Qual é exatamente seu papel nessa crise?

Mimi

Ele é o procurador-geral da República. Deveria investigar crimes. Em vez disso, está protegendo milicianos e justificando ataques a ministros do STF. É uma inversão completa do que o cargo deveria ser.

Mark

E o Senado? Por que Pacheco não se posiciona?

Mimi

Porque posicionar-se significa escolher um lado. Enquanto fica em cima do muro, ele evita confronto direto. Mas a história não perdoa quem fica em cima do muro em momentos assim.

Mark

A pandemia aparece aqui como pano de fundo. Qual é a conexão?

Mimi

Não é pano de fundo. É o contexto que mostra o que realmente importa para esse governo. Enquanto 600 mil pessoas morreram, Bolsonaro gastava energia atacando o Supremo. Prioridades revelam caráter.

  • Bolsonaro, investigado em sete inquéritos no STF, anunciou que pedirá o impeachment dos ministros Barroso e Moraes — os mesmos que conduzem investigações contra ele.
  • Um desfile de tanques pela capital, convocado no contexto da derrota do voto impresso, funcionou menos como demonstração militar e mais como sinal de intimidação às instituições.
  • Com quase 600 mil mortos e 20 milhões de infectados pela covid-19, o governo federal desviava sua energia da crise sanitária para a guerra política contra o Judiciário.
  • O Senado permanecia em silêncio diante da escalada autoritária, mas carregava o peso de uma decisão histórica: barrar o impeachment dos ministros e bloquear indicações estratégicas ao STF e à PGR.
  • Faltavam 17 dias para agosto terminar — e a democracia brasileira, atacada por quem deveria defendê-la, aguardava saber se suas instituições teriam força para resistir.

Agosto acumula, na memória coletiva brasileira, uma sequência de rupturas — suicídios, renúncias, mortes e guerras que moldaram o curso da história. Em 2021, o mês ameaça inscrever mais um capítulo sombrio: um presidente investigado pelo próprio Supremo escalou sua confrontação com a corte ao ponto de ameaçar o impeachment de seus ministros, enquanto o país contabilizava quase 600 mil mortos por uma pandemia administrada com negligência. A democracia brasileira, ainda jovem, encontrava-se diante de um de seus testes mais severos — e o desfecho dependia, em grande parte, da coragem ou da omissão do Senado Federal.

Agosto carrega uma reputação sombria na história do Brasil. Foi em agosto que Getúlio Vargas se suicidou no Catete, em 1954; que Jânio Quadros renunciou abruptamente, em 1961; e que Juscelino Kubitschek morreu em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, em 1976. No plano global, o mês também concentra catástrofes: o início da Primeira Guerra, a consolidação do poder absoluto de Hitler e as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Agosto de 2021 ameaçava acrescentar um capítulo ainda mais perturbador. Investigado em sete inquéritos no Supremo Tribunal Federal, Jair Bolsonaro escalou sua confrontação com a corte ao anunciar que pediria ao Senado o impeachment dos ministros Luís Barroso e Alexandre de Moraes — precisamente os juízes que investigam seus crimes. O movimento vinha embalado por um desfile de tanques pela capital que soou mais como intimidação institucional do que como exercício militar.

O pano de fundo tornava a crise ainda mais grave. O Brasil acumulava quase 600 mil mortos pela covid-19 e mais de 20 milhões de infectados, resultado direto de decisões — ou da ausência delas — por parte do governo federal. Em vez de governar, Bolsonaro concentrava esforços em preservar seu poder, buscando o apoio silencioso das Forças Armadas e usando seus aliados para justificar ataques ao Judiciário sob o pretexto de liberdade de expressão.

O Senado Federal recebia, naquele momento, uma responsabilidade histórica. Rodrigo Pacheco permanecia em silêncio, mas a instituição tinha diante de si a oportunidade de frear o avanço autoritário: rejeitar o impeachment dos ministros, bloquear a recondução de Augusto Aras à Procuradoria-Geral da República e barrar a indicação de André Mendonça ao Supremo.

Há uma explicação popular para a lenda do "mês do cachorro louco": agosto é quando o cio provoca frenesi e o vírus da raiva se propaga com mais facilidade entre animais não vacinados. A metáfora, perturbadora e precisa, sugeria que não bastava vacinar os cães — era preciso vacinar seus donos contra a raiva que ameaçava comandar os destinos de uma nação indefesa. Faltavam 17 dias para o mês terminar.

Agosto carrega uma reputação sombria na história brasileira. Em 1954, Getúlio Vargas tirou a própria vida dentro do Palácio do Catete. Sete anos depois, em 1961, Jânio Quadros deixou o cargo de forma abrupta no Planalto. Em 1976, Juscelino Kubitschek morreu em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, vítima de um acidente automobilístico na Via Dutra. Globalmente, o mês não é menos marcado por catástrofes: a Primeira Guerra Mundial começou em agosto de 1914, Adolf Hitler consolidou seu poder absoluto na Alemanha em agosto de 1934, e em agosto de 1945 as bombas atômicas destruíram Hiroshima e Nagasaki, matando mais de 200 mil pessoas.

Mas agosto de 2021 ameaça escrever um capítulo ainda mais perturbador. O presidente Jair Bolsonaro, investigado em sete inquéritos no Supremo Tribunal Federal, escalou sua confrontação com a corte de forma sem precedentes. Após a derrota legislativa em torno da proposta de voto impresso — marcada por um desfile de tanques pela capital que mais pareceu intimidação do que demonstração de força — Bolsonaro anunciou sua intenção de solicitar ao Senado o impeachment dos ministros Luís Barroso e Alexandre de Moraes. O movimento representa uma ruptura institucional de proporções alarmantes, uma tentativa de neutralizar os juízes que investigam seus crimes.

O contexto amplifica a gravidade. O Brasil enfrenta uma crise de saúde pública devastadora: quase 600 mil mortos pela covid-19 e mais de 20 milhões de infectados, números que refletem decisões — ou a falta delas — do governo federal. Enquanto isso, Bolsonaro concentra suas energias não em governar, mas em preservar seu poder, buscando cada vez mais o apoio silencioso das Forças Armadas.

O filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, justificou o ataque aos ministros invocando a liberdade de expressão, repetindo argumentos do procurador-geral da República, Augusto Aras, para se opor à prisão do miliciano Roberto Jefferson. O que está em jogo, porém, não é liberdade de expressão genuína, mas o direito de ameaçar impunemente adversários políticos e instituições através de vídeos nas redes sociais, frequentemente com armas em mãos.

O Senado Federal recebeu agora uma responsabilidade histórica. Rodrigo Pacheco, presidente da casa, permanecia em silêncio até o momento em que a coluna foi escrita, mas a instituição tem a oportunidade de se posicionar claramente contra o avanço autoritário. Isso significa não apenas rejeitar o pedido de impeachment dos ministros, mas também bloquear a recondução de Augusto Aras ao cargo de procurador-geral e a indicação de André Mendonça para o Supremo.

Há uma explicação veterinária para a lenda do "mês do cachorro louco": agosto é quando as cadelas entram no cio, deixando os machos em frenesi e provocando conflitos violentos nas ruas. É também quando o vírus da raiva se propaga com maior facilidade entre animais não vacinados. A metáfora é perturbadora mas apropriada. Não basta vacinar os cães; é preciso vacinar seus donos contra a raiva que ameaça comandar os destinos de uma nação indefesa.

Faltavam ainda 17 dias para o mês terminar quando essa coluna foi publicada. A democracia brasileira, jovem e frágil, enfrentava seus momentos mais perigosos, atacada por aqueles que deveriam protegê-la.

Base do pedido de impeachment é contínuas violações de liberdades como a de expressão
— Eduardo Bolsonaro, deputado federal
O governo não governa mais, e apenas luta para se manter no poder, por tempo indeterminado, apenas porque tem medo de enfrentar as urnas em 2022
— Análise do colunista Ricardo Kotscho
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