A Ageas Portugal está numa fase de industrialização da IA, escalando casos de uso já validados e transformando processos críticos com foco em experiência do cliente. A seguradora desenvolveu soluções como reembolsos acelerados em sinistros de saúde e o voicebot 'Carmo' para contact center, mantendo sempre validação humana em decisões sensíveis.
Ageas Portugal aposta em IA com supervisão humana para acelerar reembolsos
Uma automatização a 100% é uma automatização cega
Quando diz que metade das cem ideias não precisava de IA, isso significa que as equipas não compreendiam a tecnologia ou que simplesmente escolheram mal o problema?
Não era falta de compreensão. Era que o problema em si não era um problema de IA. Às vezes, uma base de dados melhor, um processo redesenhado, ou até uma ferramenta mais simples resolve o que as pessoas pensavam que precisava de inteligência artificial. A IA é sexy, é poderosa, mas não é a resposta para tudo.
Então como é que uma seguradora, com dados tão sensíveis, consegue dormir à noite sabendo que há máquinas a tomar decisões sobre reembolsos?
Porque não deixamos as máquinas tomar decisões sozinhas. Há sempre um humano no circuito. Depende do tipo de reembolso, do valor, do risco. Não acreditamos em automatização cega. Queremos garantir qualidade, caso a caso.
Mas isso não torna tudo mais lento? Qual é o ganho se ainda precisa de validação humana?
O ganho é enorme. A máquina faz o trabalho repetitivo, estrutura a informação, identifica padrões. O humano valida, toma decisões complexas, cuida do cliente. Os gestores de sinistros agora focam-se em casos que realmente precisam deles, em vez de passarem o dia a processar faturas.
A "Carmo" é um voicebot. Como é que as pessoas reagem quando descobrem que estão a falar com uma máquina?
Oferecemos sempre a opção de falar com uma pessoa. E a "Carmo" sabe quando deve escalar. O que ela faz bem é responder a perguntas genéricas, a dúvidas sobre o estado de um sinistro, a coisas administrativas. Quando alguém liga porque acabou de ter um acidente, quer falar com um humano, e isso é respeitado.
Vocês têm dados sobre tudo — saúde, acidentes, comportamento. Isso não vos torna perigosos?
Torna-nos responsáveis. Esses dados são sobre os piores dias das pessoas. Temos de os tratar com cuidado extremo. Há cruzamentos que seriam tecnicamente possíveis mas que não podem ser feitos. A regulamentação europeia é rigorosa, e nós acreditamos que é assim que deve ser.
Como é que medem o sucesso de um projeto de IA?
Tentamos ligar tudo a métricas de negócio desde o início. Se conseguimos reduzir chamadas ao contact center, isso aparece no P&L. Mas há casos mais difíceis, como produtividade individual. É um trabalho contínuo, lado a lado com as equipas de negócio. O que é sucesso para nós, no centro de competências de IA, pode não ser sucesso para uma área de negócio. Temos de nos encontrar a meio caminho.
O Pulso
- A Ageas Portugal recolheu mais de 100 ideias de IA em dois anos e meio; metade não precisava de IA
- Processo de sinistros de saúde reinventado: classificação automática, decisão de comparticipação e pagamento acelerado
- Voicebot 'Carmo' em operação na marca Médis, sendo escalado para outras marcas do grupo
- Empresa investe em desenvolvimento interno de IA, reconhecendo talento como ativo estratégico
A Ageas Portugal está numa fase de industrialização da IA, escalando casos de uso já validados e transformando processos críticos com foco em experiência do cliente. A seguradora desenvolveu soluções como reembolsos acelerados em sinistros de saúde e o voicebot 'Carmo' para contact center, mantendo sempre validação humana em decisões sensíveis.
Nadine Côrte-Real, Head of Data & AI da Ageas Portugal, explica como a seguradora implementa inteligência artificial de forma estruturada, priorizando supervisão humana e evitando automatização cega em processos críticos.
Nadine Côrte-Real senta-se à mesa com uma convicção clara: a inteligência artificial não é uma solução para tudo. Como Head of Data & AI do Grupo Ageas Portugal, ela tem passado os últimos dois anos e meio a aprender essa lição na prática, recolhendo mais de cem ideias de diferentes equipas sobre onde a IA poderia fazer diferença. O resultado foi humilhante e instrutivo ao mesmo tempo. Metade daquelas ideias não precisava de IA. Precisavam de outras tecnologias, ou simplesmente de processos melhor desenhados. A lição ficou clara: a IA é um investimento significativo, e o trabalho de literacia nas organizações é tão importante quanto a própria tecnologia.
A Ageas Portugal está agora numa fase diferente. Depois daquele trabalho inicial de triagem e priorização, a seguradora alcançou um nível de maturidade que Côrte-Real descreve como "bastante interessante". Não se trata mais de pilotos isolados ou de casos de uso limitados. A empresa está numa fase de industrialização, escalando soluções que já provaram valor e que são tecnicamente robustas. O foco mudou: em vez de melhorar um processo aqui, outro ali, a Ageas quer agora redesenhar processos inteiros, embutindo IA e dados nos pontos críticos onde realmente faz diferença. Para isso, a empresa está a investir fortemente em talento interno de IA, reconhecendo que esse conhecimento é um ativo estratégico que deve ficar dentro de casa.
O caso mais visível deste trabalho é o que a Ageas fez com os sinistros de saúde. O processo foi reinventado de ponta a ponta. Quando um cliente submete uma fatura de saúde, a IA classifica-a, determina se deve ser comparticipada e, se tudo correr bem, autoriza o pagamento automaticamente. Para o cliente, isto significa validação rápida do direito a reembolso e dinheiro na conta muito mais depressa do que antes. Para a Ageas, significa informação mais estruturada, melhor compreensão dos padrões de sinistros e controlo mais eficiente do que realmente deve ser comparticipado. Os gestores de sinistros, libertados das tarefas manuais repetitivas, podem agora focar-se em trabalho que realmente adiciona valor ao cliente.
Mas há um pormenor importante nesta história: o humano continua no circuito. Côrte-Real é clara sobre isto. "Uma automatização a 100% é uma automatização cega", diz. A empresa quer garantir qualidade, avaliando caso a caso onde faz sentido automatizar, onde o risco é aceitável e onde não faz sentido deixar a máquina decidir sozinha. Dependendo do tipo de reembolso, dos limites de valor e do risco envolvido, há sempre espaço para validação humana. Isto não é uma limitação relutante da tecnologia. É uma escolha deliberada sobre como usar a tecnologia de forma responsável.
Outro projeto com visibilidade dentro do grupo é a "Carmo", um voicebot que atende clientes da marca Médis e está agora a ser expandido para outras marcas. A "Carmo" faz análise de chamadas pós-atendimento, transcrevendo conversas para compreender como o cliente se sente, permitindo à Ageas antecipar problemas. Mas, novamente, há limites bem definidos. Quando um cliente liga para reportar um sinistro — um momento potencialmente stressante — tem sempre a opção de falar com uma pessoa. A "Carmo" consegue reconhecer quando deve escalar para um humano. O que a IA faz bem é lidar com dúvidas genéricas e tarefas administrativas como mudanças de morada. Quando um cliente pede para falar com uma enfermeira, não vai receber uma enfermeira de inteligência artificial. Vai ser encaminhado para uma profissional de verdade, mas a IA terá já recolhido o contexto e passado a informação, economizando tempo precioso.
A questão dos dados é particularmente delicada para uma seguradora. Os dados que a Ageas tem são sobre os piores dias das pessoas — acidentes, doenças, perdas. São um ativo extraordinariamente poderoso, mas também extraordinariamente sensível. A empresa opera dentro de regulamentação europeia rigorosa. Há cruzamentos de dados que seriam tentadores fazer, mas que simplesmente não podem ser feitos. Côrte-Real acredita que há ainda uma oportunidade enorme em projetos de IA que não envolvem grande risco, mas requerem essa disciplina de pensar primeiro sobre o risco, depois sobre os dados envolvidos, e só depois sobre a possibilidade técnica.
A Ageas Portugal, apesar de fazer parte de um grupo belga, tem autonomia local significativa. Mas há também sinergia: a empresa partilha conhecimento com outras operações do grupo no Reino Unido e na Bélgica, aprendendo como elas lidam com desafios semelhantes. Há diferenças culturais e tecnológicas que tornam a partilha completa impossível, mas há sempre zonas comuns a explorar. O grupo está a caminhar para soluções mais comuns ao nível global, um processo que Côrte-Real reconhece como um caminho ainda em construção.
No fundo, o que a Ageas está a fazer é tentar navegar um equilíbrio delicado. A IA é poderosa. Os dados são valiosos. Mas a responsabilidade é maior ainda. Não se trata de correr para a automatização total, mas de usar a inteligência artificial onde realmente muda o jogo — onde acelera processos, melhora a experiência do cliente, liberta pessoas para trabalho mais significativo. E sempre com alguém a olhar, a garantir que a máquina não está a tomar decisões cegas.
Citações Notáveis
Queremos garantir a qualidade do processo, avaliando os casos em que faz sentido automatizar, onde o risco é razoável, e aqueles em que não faz sentido— Nadine Côrte-Real, Head of Data & AI da Ageas Portugal
Há muita coisa para fazer e muito para explorar, mas há cruzamentos de dados que não podem ser feitos— Nadine Côrte-Real