Advogado George Bizos, que moldou discurso histórico de Mandela, morre aos 92

Se preciso for, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer
As palavras sugeridas por Bizos que se tornaram icônicas no discurso de Mandela durante seu julgamento em 1964.
Mark

Então Bizos foi realmente responsável por salvar Mandela da morte?

Mimi

Não exatamente assim. Ele foi um dos responsáveis. A sugestão das quatro palavras foi crucial porque mudou o tom do discurso — tirou a aparência de martírio e deixou a defesa mais forte. Mas havia outros advogados, outras estratégias. O que Bizos fez foi refinado, preciso.

Luke

Mas como sabemos que foram essas palavras que evitaram a pena de morte? Os juízes nunca explicaram sua decisão.

Mimi

Verdade. Sabemos que Mandela e os outros sete escaparam da morte quando muitos esperavam que fossem executados. Bizos é creditado com isso, mas é uma conexão que fazemos depois, não algo que foi documentado na época.

Mark

E depois do julgamento? Ele continuou próximo a Mandela?

Mimi

Muito próximo. Durante os 27 anos de prisão, Bizos manteve contato. Quando Mandela foi libertado, em 1990, Bizos se tornou um conselheiro importante — ajudou na Constituição, na seleção de juízes.

Luke

Mas em 2014 houve aquela disputa com a família Mandela, certo? As filhas tentaram removê-lo de fundações.

Mimi

Sim. Tentaram remover Bizos e outros amigos antigos de Mandela da administração de fundações ligadas ao ex-presidente. Não conseguiram.

Mark

Por que a família teria feito isso?

Mimi

A fonte não explica as razões. Apenas diz que houve uma disputa pelo controle do patrimônio depois que Mandela morreu em 2013.

Luke

Então não sabemos se era sobre dinheiro, poder, ou se havia desacordos legítimos sobre como as fundações deveriam ser administradas.

Mimi

Exato. O que sabemos é que Bizos resistiu e permaneceu nos cargos.

Mark

E ele continuou trabalhando até o final?

Mimi

Sim. Em 2012, aos 84 anos, representou famílias de mineiros mortos pela polícia. Trabalhou até perto do fim.

  • Uma sugestão discreta — 'se preciso for' — feita nos bastidores de um julgamento histórico tornou-se uma das frases mais recitadas da história sul-africana.
  • Bizos ajudou a salvar Mandela e outros sete réus da pena de morte ao conduzir uma defesa que neutralizou a acusação de que o líder buscava o martírio.
  • Mesmo em idade avançada, o advogado permaneceu em campo: representou famílias de mineiros mortos pela polícia em 2012 e defendeu o legado institucional de Mandela contra disputas familiares.
  • Sua morte por causas naturais foi reconhecida pelo presidente Ramaphosa como a perda de um arquiteto da Constituição democrática do país.
  • Com Bizos, encerra-se a geração dos pioneiros do antiapartheid — ele é o quarto companheiro próximo de Mandela a falecer em menos de cinco meses.

Com a morte de George Bizos aos 92 anos, a África do Sul despede-se de um dos últimos guardiões vivos da luta contra o apartheid. Advogado de origem grega que encontrou no direito uma forma de resistência, Bizos esteve ao lado de Nelson Mandela no julgamento de 1964 — e foi uma sugestão sua, de apenas quatro palavras, que transformou um discurso em legado eterno. Sua partida, a quarta entre os próximos de Mandela em menos de cinco meses, sinaliza o encerramento silencioso de uma geração que mudou o curso de uma nação.

George Bizos morreu em 9 de setembro, aos 92 anos, deixando para trás uma vida entrelaçada com um dos momentos mais decisivos da história sul-africana. Foi ele quem, momentos antes de Mandela proferir suas alegações finais no julgamento de 1964, sugeriu uma mudança aparentemente pequena no texto: adicionar as palavras 'se preciso for'. Sem elas, a frase poderia soar como uma busca pelo martírio — o que prejudicaria a defesa. Com elas, tornou-se imortal: 'É um ideal pelo qual espero viver e alcançar. Mas, se preciso for, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer.' Bizos é apontado como um dos responsáveis por Mandela e os outros sete réus terem escapado da pena de morte.

Nascido na Grécia, Bizos chegou à África do Sul aos 13 anos fugindo do avanço nazista, sem falar inglês. Aprendeu rapidamente, ingressou na Universidade de Witwatersrand e se envolveu com organizações antissegregação. Foi ali que conheceu Mandela, também estudante de direito. 'Ele já era notável. Era alto, bonito, fazia ótimos discursos. Era também o mais bem vestido', descreveu Bizos em entrevista de 2012. Nos 27 anos de prisão de Mandela, a amizade se aprofundou. Após a libertação, em 1990, Bizos continuou ao seu lado — ajudou a redigir a nova Constituição e a selecionar juízes, recusando convites para a política.

Mesmo em idade avançada, nunca se afastou da advocacia. Em 2012, representou famílias de 34 mineiros mortos pela polícia durante uma greve. Em 2014, defendeu fundações ligadas a Mandela contra uma tentativa de duas filhas do ex-presidente de remover antigos amigos da administração — e venceu. Sua morte, de causas naturais, foi lamentada pelo presidente Cyril Ramaphosa, que o chamou de 'arquiteto da nossa Constituição'. Ela marca também um ponto de inflexão: Bizos é a quarta pessoa próxima a Mandela a falecer em menos de cinco meses, encerrando a geração que enfrentou o apartheid em primeira linha.

George Bizos morreu na quarta-feira, 9 de setembro, aos 92 anos, deixando para trás uma vida que tocou um dos momentos mais decisivos da história sul-africana. O advogado grego estava ao lado de Nelson Mandela durante o julgamento de 1964 que condenaria o líder antiapartheid à prisão perpétua, e foi ali que Bizos fez uma intervenção pequena mas que reverberaria através das décadas.

Antes de Mandela proferir suas alegações finais aos juízes, Bizos se aproximou do cliente e apontou um problema no texto que havia sido rascunhado. A passagem afirmava que Mandela buscava uma sociedade em harmonia racial e que esperava viver para ver esse objetivo realizado, mas estava preparado para morrer por ele. Bizos viu o risco: aquelas palavras poderiam ser interpretadas como se o acusado estivesse buscando o martírio, o que poderia prejudicar sua defesa. Ele sugeriu uma mudança simples. "Nelson, por que você não adiciona as palavras 'se preciso for'?", perguntou. Mandela aceitou.

Essas quatro palavras — "se preciso for" — transformaram a frase em algo que hoje é recitada de cor por muitos sul-africanos. O trecho completo ficou assim: "É um ideal pelo qual espero viver e que espero alcançar. Mas, se preciso for, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer." Bizos é creditado como um dos responsáveis pelo fato de Mandela e os outros sete réus, acusados de planejar atos de sabotagem contra o governo, terem escapado da pena de morte.

A trajetória de Bizos até aquele momento já era notável. Nascido na Grécia, seus pais fugiram para a África do Sul quando ele tinha 13 anos, fugindo do avanço nazista. Chegou ao país sem falar uma palavra de inglês, mas aprendeu rapidamente e logo se interessou pela advocacia. Sua condição de branco lhe abriu as portas da prestigiosa universidade de Witwatersrand, em Johannesburgo, mas ele rapidamente se envolveu com organizações que lutavam contra o regime de segregação racial que havia sido recém-implantado no final dos anos 1940.

Foi nessa época que conheceu Mandela, também estudante de direito. Em entrevista à Folha de S.Paulo em 2012, Bizos descreveu a primeira impressão: "Ele já era notável. Era alto, bonito, fazia ótimos discursos. Era também o mais bem vestido". Nos 27 anos em que Mandela permaneceu preso, os dois estreitaram sua amizade. Quando o líder foi libertado em 1990, Bizos continuou ao seu lado como conselheiro. Ajudou na elaboração da nova Constituição democrática do país e no processo de seleção de juízes, nunca abandonando sua carreira de advogado apesar de diversos convites para entrar na política.

Mesmo com idade avançada e status de lenda na África do Sul, Bizos permaneceu ativo. Em 2012, representou as famílias de 34 mineiros mortos pela polícia sul-africana durante uma greve. Em 2014, envolveu-se em uma disputa da família Mandela pelo controle do patrimônio do ex-presidente, que havia morrido no ano anterior. Duas das filhas tentaram remover Bizos e outros antigos amigos de Mandela da condição de administradores de fundações ligadas ao líder, mas não tiveram sucesso.

A morte de Bizos ocorreu de causas naturais, segundo sua família. O presidente Cyril Ramaphosa emitiu um pronunciamento dizendo que o país perdia "uma mente jurídica incisiva e um arquiteto da nossa Constituição, que contribuiu imensamente para nossa democracia". Sua morte marca um ponto de inflexão histórico: é a quarta pessoa próxima a Mandela a falecer em menos de cinco meses. Denis Goldberg e Andrew Mlangeni, os últimos dois réus condenados junto com Mandela no julgamento de 1964, morreram respectivamente em abril e julho deste ano. Em julho também faleceu Zindzi Mandela, filha do ex-presidente, aos 59 anos, vítima de Covid-19. Com Bizos, encerra-se a geração dos pioneiros que enfrentaram o apartheid.

Ele já era notável. Era alto, bonito, fazia ótimos discursos. Era também o mais bem vestido
— George Bizos, descrevendo sua primeira impressão de Nelson Mandela em 1948
Uma mente jurídica incisiva e um arquiteto da nossa Constituição, que contribuiu imensamente para nossa democracia
— Presidente Cyril Ramaphosa, em pronunciamento sobre a morte de Bizos
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