Na noite de domingo, 6 de agosto, um adolescente de 13 anos foi morto a tiros durante uma ação da Polícia Militar na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro — mais um nome acrescentado a uma lista que cresce sem pausa. Entre a versão oficial de um confronto armado e o testemunho de moradores que descrevem uma criança desarmada em uma moto, abre-se o abismo que há muito separa o Estado de suas comunidades mais vulneráveis. O caso não é isolado: em menos de uma semana, o Rio registrou múltiplas mortes em operações policiais, cada uma carregando perguntas que as investigações raramente conseguem respon
Adolescente de 13 anos morre baleado em ação da PM na Cidade de Deus
Acabaram com um sonho. Era uma criança que passava em qualquer peneira.
Por que a versão da polícia e a dos moradores divergem tanto neste caso?
Porque estão descrevendo eventos diferentes. A polícia diz que houve confronto, que a moto disparou primeiro. Os moradores dizem que eram duas crianças em uma moto, que não havia ameaça. Uma pistola foi apreendida, mas não está claro quem a disparou ou quando.
Exatamente. A polícia alega confronto, mas não há confirmação independente disso. Vídeos mostram cápsulas espalhadas, mas não mostram quem atirou. A perícia chegou por volta das 3h30 — o que ela encontrou? Não sabemos.
E o outro ocupante da moto?
Desapareceu da narrativa. Ninguém sabe o que aconteceu com ele. Isso é um vazio importante.
Sim. Se havia duas crianças, onde está a segunda? Ferida? Presa? Fugiu? A polícia não esclareceu.
Isso parece fazer parte de um padrão maior.
Três mortes em operações policiais em menos de uma semana. O adolescente de 13 anos, Guilherme de 26, e dez pessoas no Complexo da Penha. Cada caso tem sua própria versão oficial.
Mas note: em cada caso, a polícia apresenta uma justificativa — confronto, suspeita de crime, tráfico. O que não temos é investigação independente que confirme essas alegações antes da morte.
A família do adolescente diz que ele jogava futebol, frequentava igreja. Isso importa?
Importa porque contradiz a narrativa de que ele era uma ameaça. Mas também é verdade que estar em uma moto sem capacete durante uma operação policial é arriscado, independentemente de quem você é.
Certo. Mas o risco não justifica morte. A questão é: havia necessidade de usar força letal? A polícia diz que sim. Os moradores dizem que não. Nós não temos como saber, porque não há câmeras corporais, não há testemunhas neutras documentadas, não há perícia pública.
O que muda agora?
A Secretaria instaurou procedimento para apurar. Mas esses procedimentos internos raramente resultam em responsabilização clara.
E enquanto isso, a comunidade está em luto e desconfiança. Manifestações começaram. O túnel foi interditado. Isso vai crescer.
O Pulso
- Um menino de 13 anos que jogava futebol e frequentava a igreja foi morto com vários tiros — e sua família insiste que ele não representava qualquer ameaça.
- A polícia afirma que houve disparos contra a guarnição e apreendeu uma pistola 9 mm; moradores e familiares rejeitam essa versão e saíram às ruas para protestar, sendo contidos com balas de borracha e spray de pimenta.
- Na mesma madrugada, um jovem de 26 anos foi morto por um policial militar na saída de um baile funk no Santo Amaro, enquanto comemorava seu aniversário — três amigos que estavam no carro ficaram feridos.
- Dois dias antes, dez pessoas morreram em uma operação no Complexo da Penha, acumulando pressão sobre as autoridades a respeito do uso de força letal em comunidades do Rio.
- A Secretaria de Polícia Militar abriu procedimento para apurar a morte do adolescente, mas a investigação nasce em um ambiente de profunda desconfiança entre moradores e instituições.
Na noite de domingo, 6 de agosto, um adolescente de 13 anos foi morto a tiros durante uma ação da Polícia Militar na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro — mais um nome acrescentado a uma lista que cresce sem pausa. Entre a versão oficial de um confronto armado e o testemunho de moradores que descrevem uma criança desarmada em uma moto, abre-se o abismo que há muito separa o Estado de suas comunidades mais vulneráveis. O caso não é isolado: em menos de uma semana, o Rio registrou múltiplas mortes em operações policiais, cada uma carregando perguntas que as investigações raramente conseguem responder.
No final da noite de domingo, 6 de agosto, um adolescente de 13 anos foi morto com vários disparos durante uma ação da Polícia Militar na Cidade de Deus, zona oeste do Rio. Ele estava em uma motocicleta quando foi atingido. Moradores afirmam que os tiros partiram dos policiais; a versão oficial diz que dois homens na moto atiraram primeiro contra a guarnição, e que uma pistola calibre 9 mm foi apreendida no local.
A família descreve um estudante que jogava futebol e frequentava a igreja — sem qualquer ligação com o crime. O tio do menino resumiu a dor com poucas palavras: eram duas crianças na moto, sem armas, sem intenção de fazer mal. O corpo permaneceu no chão, cercado por familiares, até a perícia chegar por volta das 3h30. Quando moradores foram às ruas protestar, policiais usaram munição de borracha e spray de pimenta para dispersá-los.
A morte não foi um episódio isolado. Na mesma madrugada, Guilherme Lucas Martins Matias, de 26 anos, foi morto por um policial militar na saída de um baile funk no morro do Santo Amaro. Ele comemorava seu aniversário quando o carro em que estava foi alvejado. Os três amigos que o acompanhavam ficaram feridos. Sua tia descreveu um trabalhador com carteira assinada há quatro anos, sem antecedentes criminais. Familiares e amigos chegaram a interditar o túnel Santa Bárbara em protesto.
Dois dias antes, dez pessoas haviam morrido em uma operação conjunta no Complexo da Penha. A sequência de mortes em tão poucos dias intensificou o debate sobre o uso de força letal nas comunidades do Rio. A Secretaria de Polícia Militar instaurou procedimento para apurar as circunstâncias da morte do adolescente na Cidade de Deus — mas as respostas precisam ser encontradas em um terreno marcado pela desconfiança entre moradores e autoridades.
No final da noite de domingo, 6 de agosto, um adolescente de 13 anos foi morto com vários disparos durante uma ação da Polícia Militar na Cidade de Deus, comunidade na zona oeste do Rio de Janeiro. Ele estava em uma motocicleta quando foi atingido. Moradores da região afirmam que os tiros partiram de policiais, mas a versão oficial diverge significativamente dos relatos de quem estava no local.
Segundo a família, o menino era estudante, jogava futebol e frequentava uma igreja regularmente. Não tinha qualquer ligação com atividades criminosas. Seu tio, em entrevista à NGB News, descreveu um jovem com potencial: "Eram duas crianças na moto. Estavam erradas por estar na moto, mas não estavam levando perigo para os policiais. Acabaram com um sonho. Era uma criança que em qualquer clube que fazia a peneira, passava". Não há informações até agora sobre o outro ocupante do veículo.
A Secretaria de Estado de Polícia Militar apresentou uma narrativa diferente. Segundo a corporação, equipes do Batalhão de Polícia de Choque estavam em policiamento quando dois homens em uma motocicleta dispararam contra a guarnição. Após o confronto, um adolescente foi encontrado ferido e não resistiu. A polícia informou que uma pistola calibre 9 mm foi apreendida no local. A Delegacia de Homicídios foi acionada e a área isolada.
Os vídeos divulgados pela NGB News na madrugada de segunda-feira mostram cápsulas de munição espalhadas pela estrada Marechal Miguel Salazar, a principal via do bairro. O corpo do adolescente permaneceu no chão, cercado por familiares, até a chegada da perícia por volta das 3h30. Uma familiar relatou que o corpo apresentava múltiplas marcas de bala. Ela também afirmou que policiais dispararam munição de borracha e usaram spray de pimenta quando moradores saíram às ruas para protestar contra a morte. Vídeos nas redes sociais capturam cenas de moradores correndo, gritando e chorando ao perceberem que o adolescente havia sido atingido.
Este caso não ocorreu isoladamente. Na madrugada do mesmo domingo, Guilherme Lucas Martins Matias, de 26 anos, foi morto a tiros por um policial militar na saída de um baile funk no morro do Santo Amaro, no Catete, zona sul. Ele comemorava seu aniversário com três amigos quando o veículo em que estavam foi atingido por disparos. Os outros três ocupantes ficaram feridos e foram levados ao hospital municipal Souza Aguiar. A corporação não identificou o agente responsável. Maria Luzia Martins, tia de Guilherme, descreveu um trabalhador comum: frentista em um posto de combustíveis com carteira assinada há quatro anos. "A polícia fuzilou o carro com meu sobrinho dentro. Não tinha um bandido, uma pessoa com antecedente criminal. Meu sobrinho era gente de bem, trabalhador. O carro não era roubado. Os policiais não mandaram parar." Familiares e amigos fizeram uma manifestação no bairro do Catumbi na tarde de domingo, chegando a interditar o túnel Santa Bárbara no sentido zona sul.
Dois dias antes, no dia 2 de agosto, dez pessoas morreram e quatro ficaram feridas após serem baleadas durante uma operação conjunta das polícias Civil e Militar no Complexo da Penha, zona norte. Entre os feridos estavam um policial do Bope e um adolescente. A Polícia Militar afirmou que os dez mortos e um ferido eram suspeitos de envolvimento com tráfico e que o objetivo era prender criminosos de outros estados. A sequência de mortes em operações policiais em um curto espaço de tempo levantou questões sobre o uso de força letal. A Secretaria de Polícia Militar instaurou procedimento para apurar as circunstâncias da morte do adolescente na Cidade de Deus, mas as investigações ocorrem em um contexto de desconfiança entre moradores e autoridades sobre como essas operações são conduzidas.
Citações Notáveis
Eram duas crianças na moto. Estavam erradas por estar na moto, mas não estavam levando perigo para os policiais. Acabaram com um sonho.— Tio do adolescente morto
A polícia fuzilou o carro com meu sobrinho dentro. Não tinha um bandido, uma pessoa com antecedente criminal. Meu sobrinho era gente de bem, trabalhador.— Maria Luzia Martins, tia de Guilherme Lucas Martins Matias