Academia Portuguesa de Cinema revela seis pré-selecionados para Óscar de Melhor Filme Internacional

Filmes abordam tragédias históricas: 'Projeto Global' evoca 17 mortes causadas por ações terroristas nos anos 1980; 'Terra Vil' referencia indiretamente a queda da ponte de Entre-os-Rios que causou 59 mortos.
Filmes que exigem algo do espectador, que olham para Portugal de forma honesta
Os seis pré-selecionados abordam temas profundos da realidade portuguesa, desde transformações territoriais até traumas históricos.
Mark

Porque é que Portugal nunca conseguiu uma nomeação em Melhor Filme Internacional, apesar de ter uma indústria cinematográfica ativa?

Mimi

É uma questão de visibilidade e de alcance. Os filmes portugueses competem num mercado global onde a língua e o orçamento de distribuição fazem diferença. Mas estes seis filmes mostram que temos histórias com peso, com raízes profundas.

Mark

O que une estes seis filmes tão diferentes?

Mimi

Todos eles olham para Portugal de forma honesta. Não há escapismo aqui. Falam de transformação territorial, de envelhecimento, de emigração, de traumas históricos que ainda marcam as comunidades. São filmes que exigem algo do espectador.

Mark

"Projeto Global" tem quase o dobro de espectadores dos outros. Isso significa que tem mais hipóteses de ganhar?

Mimi

Não necessariamente. A votação é feita por membros da Academia, não pelo público. Mas a audiência sugere que o filme conseguiu comunicar algo importante sobre um período turbulento da nossa história recente.

Mark

Porque é que dois dos filmes fazem referência a tragédias que causaram dezenas de mortes?

Mimi

Porque essas tragédias não desaparecem. Ficam nas comunidades, nas famílias. Os realizadores estão a dizer que o cinema pode ser um espaço para processar esse luto coletivo, para o transformar em algo que nos ajude a compreender quem somos.

Mark

Se um destes filmes for nomeado, o que muda para o cinema português?

Mimi

Muda a conversa. De repente, o mundo inteiro está a olhar para Portugal através daquele filme. Abre portas para financiamento, para distribuição internacional, para que outras histórias portuguesas possam ser contadas.

  • Portugal nunca conquistou uma nomeação em Melhor Filme Internacional, e essa ausência histórica pesa sobre cada votação como um desafio por cumprir.
  • Seis filmes muito distintos competem entre si: um retrata o terrorismo que ensanguentou a jovem democracia portuguesa, outro evoca os 59 mortos da queda da ponte de Entre-os-Rios, e outros mergulham no envelhecimento, na emigração e nas transformações do território.
  • 'Projeto Global', o mais visto da lista com 9.200 espectadores desde abril, parte como favorito em audiência, mas a votação interna da Academia pode surpreender.
  • Um comité diversificado — produtores, atores, editores, caracterizadores e supervisores de efeitos visuais — garantiu que a pré-seleção refletisse múltiplos olhares sobre o cinema português.
  • A votação abre agora e fecha a 10 de setembro, momento em que Portugal saberá qual filme carregará a sua bandeira até Los Angeles.

Ano após ano, Portugal estende a mão em direção a Hollywood com a esperança de que um filme seu seja finalmente reconhecido na categoria mais cobiçada do cinema mundial. A Academia Portuguesa de Cinema anunciou os seis filmes pré-selecionados para representar o país na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional, obras que tocam nas feridas e nas memórias mais fundas da identidade portuguesa — do terrorismo dos anos 1980 às tragédias de pontes e montanhas, do envelhecimento à emigração. Os membros da Academia têm até 10 de setembro para decidir qual dessas vozes merece ser ouvida no palco mais iluminado do cinema.

A Academia Portuguesa de Cinema revelou esta quinta-feira os seis filmes que disputam o direito de representar Portugal na categoria de Melhor Filme Internacional dos Óscares. Os membros da instituição têm até 10 de setembro para escolher o candidato nacional.

Os pré-selecionados são 'Projeto Global', de Ivo M. Ferreira, o mais visto da lista com 9.200 espectadores desde abril, que recria a Portugal dos anos 1980 marcada pelas ações terroristas das Forças Populares 25 de Abril e pelas 17 mortes que deixaram; 'Terra Vil', de Luís Campos, primeira longa de ficção do realizador, que evoca indiretamente a queda da ponte de Entre-os-Rios e os seus 59 mortos através da história de duas famílias fragmentadas; e 'Maria Vitória', de Mário Patrocínio, rodado na Serra da Estrela, onde uma adolescente vive entre o sonho do pai e o regresso de um irmão marcado pela morte da mãe num incêndio.

Completam a lista '18 Buracos para o Paraíso', de João Nuno Pinto, sobre as transformações do Alentejo pela especulação e pela seca; 'A Memória do Cheiro das Coisas', de António Ferreira, sobre um homem de quase 80 anos a adaptar-se à vida num lar; e 'Primeira Pessoa do Plural', de Sandro Aguilar, retrato de um casal a aproximar-se dos 20 anos de casamento.

O comité de pré-seleção reuniu profissionais de várias áreas — produção, interpretação, som, caracterização e efeitos visuais —, numa composição que a Academia descreveu como reflexo do seu compromisso com a diversidade criativa. Portugal nunca alcançou uma nomeação nesta categoria, embora em 2023 o curta-metragem 'Ice Merchants' tenha chegado à lista final dos Óscares de animação. A votação que agora começa poderá, finalmente, mudar essa história.

A Academia Portuguesa de Cinema anunciou hoje os seis filmes que disputarão a candidatura portuguesa para a categoria de Melhor Filme Internacional dos Óscares de Hollywood. A partir de agora, os membros da instituição têm até 10 de setembro para votar no filme que representará o país na próxima edição da cerimónia.

Os seis pré-selecionados são "18 Buracos para o Paraíso", de João Nuno Pinto; "A Memória do Cheiro das Coisas", de António Ferreira; "Maria Vitória", de Mário Patrocínio; "Primeira Pessoa do Plural", de Sandro Aguilar; "Projeto Global", de Ivo M. Ferreira; e "Terra Vil", de Luís Campos. Cada um deles oferece uma perspetiva distinta sobre a realidade portuguesa contemporânea e histórica.

"18 Buracos para o Paraíso" nasceu da observação de João Nuno Pinto sobre as transformações do Alentejo, marcadas pela especulação imobiliária, pela agricultura intensiva e pelos efeitos da seca extrema. O filme chegou aos cinemas portugueses em junho. Já "A Memória do Cheiro das Coisas" segue Arménio, um homem à beira dos 80 anos que se vê obrigado a viver num lar, onde enfrenta dificuldades em aceitar a sua nova condição e a ajuda de uma auxiliar portuguesa negra. "Maria Vitória", rodado na Serra da Estrela, centra-se numa adolescente cujo pai sonha vê-la como guarda-redes profissional numa grande cidade, enquanto o irmão regressa da emigração trazendo feridas do passado, incluindo a morte da mãe num incêndio que marcou a região. Os atores Mariana Cardoso, Miguel Borges e Miguel Nunes compõem o núcleo familiar da narrativa.

"Primeira Pessoa do Plural", de Sandro Aguilar, retrata um casal a aproximar-se dos 20 anos de casamento, com Albano Jerónimo e Isabel Abreu nos papéis principais, acompanhados por Eduardo Aguilar no papel do filho adolescente. "Projeto Global", de Ivo M. Ferreira, é o filme com maior audiência da lista, tendo atraído 9.200 espectadores desde a sua estreia em abril. A obra recria a Portugal dos anos 1980, uma democracia ainda em consolidação, marcada pela ação do grupo armado Forças Populares 25 de Abril, que organizou dezenas de assaltos, atentados e ações terroristas que resultaram em 17 mortes.

"Terra Vil", primeira longa-metragem de ficção de Luís Campos, estreou-se em fevereiro e centra-se na solidariedade entre duas famílias fragmentadas. O filme evoca, de forma indireta, a tragédia de Entre-os-Rios, a queda da ponte que ligava o concelho a Castelo de Paiva há 25 anos, que causou 59 mortos.

O comité de pré-seleção foi composto por profissionais de diferentes áreas do cinema: os produtores Andreia Esteves e Paulo Trancoso, a editora e designer de som Elsa Ferreira, os atores Hoji Fortuna e Valerie Braddell, a caracterizadora Íris Peleira, o realizador Paolo Marinou-Blanco e o supervisor de efeitos visuais Ricardo Ferreira. A Academia Portuguesa de Cinema sublinhou que esta composição refletiu o seu compromisso com uma representação diversificada das diferentes áreas da criação e produção cinematográfica.

Portugal nunca conseguiu uma nomeação na categoria de Melhor Filme Internacional, embora tenha alcançado reconhecimento internacional em 2023 com "Ice Merchants", de João Gonzalez, que recebeu uma nomeação para Melhor Curta-metragem de Animação. A votação que agora se inicia poderá marcar um ponto de viragem nesta história.

A composição do comité refletiu o compromisso da Academia Portuguesa de Cinema com uma representação diversificada das diferentes áreas da criação e produção cinematográfica
— Academia Portuguesa de Cinema
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