Há 12 mil anos, numa gruta da Calábria, uma mãe e uma filha foram enterradas abraçadas — mas durante décadas a ciência as leu como um casal heterossexual. A análise de ADN antigo, conduzida por uma equipa da Universidade de Coimbra, corrigiu essa interpretação e revelou ainda que a filha carregava uma mutação genética rara que persiste em famílias humanas até hoje. O abraço não mudou; mudou apenas — e profundamente — o que ele significa.
Abraço de 12 mil anos era de mãe e filha, não casal, revela análise genética
A comunidade cuidava bem dela; ajudavam-na a encontrar alimentos
Como é que um erro destes conseguiu manter-se durante tanto tempo? Parecem-me ossos bastante antigos para estudar.
A verdade é que determinar o sexo a partir de um esqueleto incompleto ou de alguém que morreu jovem é muito difícil. E a própria doença teria alterado as proporções que os investigadores usam normalmente para fazer essa avaliação. Na altura, em 1963, a interpretação fazia sentido.
Mas o ADN estava lá todo esse tempo, certo? Porque é que ninguém o testou mais cedo?
O sequenciamento de ADN antigo é uma técnica muito recente. Só nas últimas décadas é que se tornou possível extrair e analisar ADN de ossos com milhares de anos. É um exemplo de como a ciência revisita as descobertas antigas com ferramentas novas.
E a doença que a rapariga tinha — continua a existir hoje?
Sim, a displasia acromesomélica de tipo Maroteaux continua a ser diagnosticada. As crianças que nascem com ela são identificadas através de testes genéticos semelhantes aos que usaram para estudar aquele esqueleto de 12 mil anos. A diferença é que agora sabemos que a doença tem uma história muito mais longa.
O que me impressiona é que ela viveu até à adolescência. Numa comunidade de caçadores-recoletores, com uma deficiência assim...
Pois é. A análise dos ossos mostra que a sua nutrição era comparável à dos outros membros do grupo. Não há sinais de que tivesse sido negligenciada. Parece que a comunidade a cuidava, a ajudava a deslocar-se, a encontrar alimentos. É um retrato muito diferente do que poderíamos esperar.
The Pulse
- Durante mais de 60 anos, dois esqueletos femininos enterrados abraçados foram classificados como casal, ilustrando como pressupostos culturais moldam a leitura científica dos ossos.
- A análise de ADN antigo desfez essa narrativa de uma vez: ambos eram mulheres, provavelmente mãe e filha, ligadas por genes e não por romance.
- A filha mais jovem carregava uma mutação homozigótica no gene NPR2, causando displasia acromesomélica — doença rara que encurta membros e que já existia há pelo menos 12 milénios.
- O desgaste ósseo e a dieta da jovem sugerem que a sua comunidade paleolítica a apoiava ativamente, desafiando a ideia de que diferença física significava exclusão social na pré-história.
- O estudo, publicado no New England Journal of Medicine, reposiciona Romito como um caso de cuidado coletivo — e de herança genética que atravessa a barreira do tempo.
Há 12 mil anos, numa gruta da Calábria, uma mãe e uma filha foram enterradas abraçadas — mas durante décadas a ciência as leu como um casal heterossexual. A análise de ADN antigo, conduzida por uma equipa da Universidade de Coimbra, corrigiu essa interpretação e revelou ainda que a filha carregava uma mutação genética rara que persiste em famílias humanas até hoje. O abraço não mudou; mudou apenas — e profundamente — o que ele significa.
Em 1963, arqueólogos que escavavam a Gruta de Romito, no sul de Itália, encontraram dois esqueletos tão próximos que pareciam abraçados. Datados de cerca de 12 mil anos, foram interpretados durante décadas como um casal — um homem e uma mulher, sendo o esqueleto menor atribuído a um jovem com nanismo. Essa leitura permaneceu praticamente inquestionada até muito recentemente.
Uma equipa internacional liderada por Daniel Fernandes, da Universidade de Coimbra, sequenciou o ADN antigo dos dois indivíduos. Os resultados, publicados no New England Journal of Medicine, reescreveram a história: ambos eram mulheres, muito provavelmente mãe e filha. A dificuldade em determinar o sexo apenas pela morfologia óssea — especialmente em esqueletos incompletos ou de indivíduos jovens — explica a interpretação original, mas a análise genética não deixou margem para ambiguidade.
O sequenciamento revelou ainda uma mutação no gene NPR2: a filha carregava duas cópias da variante, causando displasia acromesomélica de tipo Maroteaux, doença hereditária rara que provoca baixa estatura e membros mais curtos. A mãe tinha apenas uma cópia, com efeitos mais ligeiros. A descoberta confirma que esta condição genética já existia há pelo menos 12 mil anos.
O que torna o achado ainda mais significativo é o que sugere sobre a vida da jovem. A análise do desgaste ósseo e da dieta indica que viveu até ao final da adolescência, com uma alimentação comparável à dos outros indivíduos da gruta — sem sinais de privação. Alfredo Coppa, da Universidade Sapienza de Roma, argumenta que o grupo provavelmente a ajudava a deslocar-se e a obter alimentos, em vez de a deixar à margem. O abraço encontrado há mais de seis décadas permanece intacto, mas carrega agora um significado diferente: o de uma mãe e filha unidas na morte e nos genes que partilhavam.
Em 1963, arqueólogos que escavavam a Gruta de Romito, na Calábria, no sul de Itália, encontraram dois esqueletos enterrados tão próximos um do outro que pareciam abraçados. Datados de cerca de 12 mil anos atrás, os ossos foram interpretados durante décadas como pertencentes a um casal — um homem e uma mulher. O esqueleto menor foi classificado como o de um jovem com uma forma de nanismo, baseado na forma e proporções dos ossos. Essa leitura dos restos mortais permaneceu praticamente inquestionada até muito recentemente.
Uma equipa internacional liderada por Daniel Fernandes, da Universidade de Coimbra, decidiu extrair e sequenciar o ADN antigo dos dois indivíduos. Os resultados, publicados em janeiro no New England Journal of Medicine, reescreveram completamente a história daquele abraço paleolítico. Os testes genéticos revelaram que ambos os esqueletos pertenciam a mulheres e que tinham uma relação de parentesco próxima — muito provavelmente mãe e filha, não um casal.
A dificuldade em determinar o sexo a partir apenas da forma dos ossos sempre foi uma limitação conhecida da arqueologia, especialmente quando se trabalha com esqueletos incompletos ou de indivíduos que morreram jovens. O esqueleto menor estava suficientemente próximo dessa margem de incerteza para que a interpretação original tivesse sido, na época, razoável. Mas a análise de ADN não deixa espaço para ambiguidade. Os marcadores genéticos partilhados entre os dois indivíduos permitiram aos investigadores não apenas confirmar o sexo, mas também mapear a relação familiar com precisão.
O sequenciamento genético revelou ainda algo que as proporções do esqueleto já sugeriam, mas não conseguiam confirmar sozinhas: uma mutação no gene NPR2. A filha mais jovem carregava a mutação em ambas as cópias do gene — uma variante homozigótica que causa displasia acromesomélica de tipo Maroteaux, uma doença hereditária rara que provoca baixa estatura acentuada e membros mais curtos, particularmente nos antebraços e na parte inferior das pernas. A mãe tinha apenas uma cópia da mesma mutação, o que lhe causava uma forma mais ligeira da condição. Esta descoberta significa que a doença genética que afeta famílias nos dias de hoje já existia há pelo menos 12 mil anos.
O que torna esta descoberta particularmente significativa é o que ela sugere sobre a vida daquela rapariga na comunidade paleolítica. A análise do desgaste ósseo e da dieta indica que ela viveu até ao final da adolescência. A sua alimentação e condição nutricional eram comparáveis às dos outros indivíduos encontrados na mesma gruta, sem sinais de privação crónica. Alfredo Coppa, da Universidade Sapienza de Roma, argumenta que o grupo em que vivia provavelmente a ajudava a deslocar-se e a obter alimentos numa vida exigente de caçadores-recoletores, em vez de a deixar sobreviver à margem da comunidade. "Partimos do princípio de que os seus companheiros cuidavam bem dela; ajudavam-na a encontrar alimentos e apoiavam a sua mobilidade durante deslocações periódicas num ambiente duro e exigente", afirmou.
Esta conclusão deve ser encarada com prudência e não como um facto estabelecido, mas alinha-se com um conjunto pequeno, mas crescente, de evidências arqueológicas que sugerem que uma diferença física visível não implicava necessariamente exclusão da vida quotidiana do grupo — pelo menos não em todos os casos que os investigadores conseguiram estudar de perto. O que aconteceu em Romito foi a aplicação de um método muito mais recente a uma descoberta antiga, corrigindo dois factos específicos: o sexo e o parentesco do que até agora era tido como um "casal abraçado". E o abraço permanece exatamente como foi encontrado há mais de seis décadas, mas agora carrega um significado diferente — o de uma mãe e filha, unidas não apenas na morte, mas também nos genes que partilhavam.
Notable Quotes
Com a análise de ADN antigo, podemos agora identificar mutações específicas em indivíduos pré-históricos— Ron Pinhasi, Universidade de Viena
Partimos do princípio de que os seus companheiros cuidavam bem dela; ajudavam-na a encontrar alimentos e apoiavam a sua mobilidade durante deslocações periódicas num ambiente duro e exigente— Alfredo Coppa, Universidade Sapienza de Roma